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O humor sobre a economia mudou; mas a percepção continua igual

Aluizio Falcão Filho
24 de junho de 2026

Uma pesquisa do Datafolha divulgada ontem mostra uma queda significativa do pessimismo em relação à economia entre os brasileiros. Na última enquete, realizada em março, 35% achavam que o cenário econômico iria piorar nos próximos meses. Agora, este índice está em 26%. Mas este é um estudo que captura, na prática, o humor das pessoas e não as perspectivas macroeconômicas do país. O que chama a atenção, neste caso, é quem ficou pessimista e quem ficou otimista. Os tomados pelo otimismo são os de menor escolaridade e renda de até dois salários-mínimos. Já aqueles que enxergam o futuro com pessimismo são os de maior escolaridade e ganhos superiores a cinco salários-mínimos.

O psiquiatra americano Aaron Beck, criador da terapia cognitiva comportamental, identificou que o pessimista opera por abstração seletiva: uma vez instalado um determinado viés, o indivíduo só retém informações que confirmam uma visão negativa. Os mais escolarizados têm acesso ao noticiário econômico, às projeções de inflação, ao debate fiscal; tudo isso os torna mais sensíveis ao risco. Já o trabalhador de baixa renda avalia a economia pelo que sente na pele. Se tem emprego e o salário não atrasa, a economia vai bem.

Os entrevistados, no entanto, não estão respondendo de forma igual à mesma questão formulada pelo instituto. Quando o pesquisador pergunta “a economia vai melhorar?”, o trabalhador informal de Fortaleza e o executivo de São Paulo têm referenciais completamente distintos. Um mede o mercado de trabalho pela experiência particular. O outro considera o endividamento das famílias e a curva de juros antes de responder. São dois sistemas de percepção operando ao mesmo tempo.

Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 45% esperam piora da economia, quase o dobro da média geral. Isso também revela que parte do pessimismo econômico pode ser influenciado por questões políticas. A percepção negativa funciona como marcador de identidade ideológica: avaliar a economia como má é uma forma de rejeitar o governo, independentemente dos indicadores. A psicologia social chama isso de “motivated reasoning”, o raciocínio a serviço de uma conclusão prévia.

Há um dado que precisa ser analisado com cuidado: 45% avaliam que a situação econômica piorou nos últimos meses, quase o mesmo índice de março. Ou seja: as pessoas estão mais esperançosas com o amanhã, mas a percepção do hoje continua tão negativa quanto antes. O otimismo captado pelo Datafolha, assim, não é a avaliação de uma melhora concreta e já sentida. É a diferença entre “as coisas vão melhorar” e “as coisas melhoraram”. A primeira é expectativa, a segunda é experiência. E essa experiência não mudou.

A pesquisa contém uma armadilha para os dois lados que disputam as eleições. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o dado aparentemente favorável (a queda do pessimismo) esconde um problema estrutural: quase metade do eleitorado ainda sente que a economia piorou e sentimento é o que move voto, não estatística. Um trabalhador que acredita que o futuro será melhor, mas que ainda percebe o presente como ruim, não necessariamente traduz essa esperança em apoio ao governo, especialmente se a melhora prometida não se materializar antes de outubro.

Para Flávio Bolsonaro, o dado revela outro problema: 45% dos seus eleitores intencionais esperam piora da economia, o índice mais alto entre todos os grupos. Pessimismo pode mobilizar voto de protesto, mas também pode desanimar o eleitor que enxerga o país como sem saída independentemente de quem governe. E eleitor desanimado pode ficar em casa nos dias de pleito.

Para os governistas, a estratégia será a de impulsionar a esperança em uma melhora econômica junto à sociedade. Já para a oposição, o ponto mais importante é transformar a descrença em motivação para a mudança, injetando ânimo nos eleitores abatidos. O Datafolha mediu humor, que pode ser bastante volátil. A esperança captada hoje pode evaporar se a inflação subir, o índice de emprego cair ou se algum choque externo interromper o ciclo de estímulos que o governo montou para o ano eleitoral. O pessimismo da oposição, por sua vez, só vai virar voto se vier acompanhado de energia e motivação. No Brasil de 2026, o problema não é convencer o eleitor de que o futuro será melhor. É convencê-lo de que vale a pena votar para que as coisas melhorem no amanhã.

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