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Uma fissura na credibilidade

Aluizio Falcão Filho
27 de junho de 2026

Para a geração que cresceu nos anos 1980 e 1990, a vinheta de plantão de notícias da TV Globo era algo que fazia congelar todos os telespectadores. Aquele “tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá” era o sinal de que algo muito grave havia acontecido ou que uma pessoa muito importante havia passado dessa para melhor. A versão atual da vinheta da Globo era o alerta da Defesa Civil, que ignora o modo silencioso dos aparelhos celulares e emite um “plim” altíssimo, que chama a atenção de qualquer mortal.

Na madrugada do domingo passado, no entanto, essa credibilidade sofreu uma fissura. Um alerta emitido por volta das 1h30 acordou muita gente e deixou sobressaltado quem estava acordado. No corpo do aviso, estava uma mensagem: “Misantropi4”.

Depois de exatos dez segundos após o alarme (que era diferente dos alertas sonoros de praxe), minha filha entrou no quarto perguntando qual era o significado de “misantropia”, palavra que foi inserida na busca do Google por praticamente todos os brasileiros curiosos. Os chamados, no entanto, foram mudados de região para região. Em Belo Horizonte, por exemplo, a Defesa Civil alertava para um ataque alienígena, algo que ninguém precisou de um dicionário para entender.

Todos sabem, hoje, que essas maluquices ocorreram por conta de hackers que invadiram o sistema oficial através de aparelhos de bombeiros. Diante do ocorrido, como todos reagirão aos próximos avisos, advertindo sobre um ciclone extratropical, um desabamentos ou até um ataque real de seres extraterrestres (uma hipótese remotíssima)?

A invasão da Defesa Civil comprometeu irremediavelmente a credibilidade do órgão junto aos brasileiros. Credibilidade essa que talvez nunca seja recuperada. Talvez fosse o caso, inclusive, de passar a tarefa de avisar as catástrofes aos brasileiros para outra organização, com sinais sonoros diferente dos atuais.

A fissura aberta por este ataque hacker revela o quanto a confiança pública depende de uma sensação de ordem e previsibilidade. Quando o sistema que deveria proteger a população se torna veículo de mensagens absurdas, o pacto de credibilidade entre Estado e cidadão se rompe. O alerta, que antes simbolizava segurança, passou a carregar o peso da dúvida.

O episódio também mostra que a fronteira entre o mundo real e o digital se dissolveu. Um código malicioso pode gerar uma onda de pânico tão eficaz quanto a causada por um terremoto. O som do alerta, agora, deve provocar descrédito. Ou, em último caso, ironia.

Há ainda o impacto psicológico. O brasileiro, acostumado a desconfiar das instituições, ganha mais um motivo para hesitar diante de qualquer aviso oficial. A desinformação, que já corrói o debate público há tempos, encontra terreno fértil quando o próprio sistema estatal se torna fonte de ruído. É por isso que teorias da conspiração sobre outros assuntos já começaram a serem levantadas.

Por fim, o episódio obriga o país a repensar sua infraestrutura de comunicação pública. Não basta reforçar firewalls ou senhas e sim reconstruir a confiança. Talvez o novo desafio da Defesa Civil seja menos tecnológico e mais humano: convencer o cidadão de que, quando o alerta soar, ele ainda deve acreditar.

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