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Na fronteira agrícola do Brasil, dependência econômica não se converte em alinhamento político

Da redação
22 de junho de 2026
Pesquisa mostra que agro confia mais nos Estados Unidos, apesar de vender 80% da soja para a China

Uma pesquisa inédita da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI) revela que, na fronteira agrícola brasileira, a lógica dos negócios não se traduz automaticamente em confiança política. Apesar de 80% da soja e 86% da carne bovina da região terem como destino a China em 2022, os produtores e moradores locais confiam mais nos Estados Unidos. Apenas 12,6% dos entrevistados consideram a China “muito confiável”, contra 21,8% em relação aos EUA. O dado chama atenção porque a confiança na China caiu quase 20 pontos percentuais desde 2017, mesmo com o aumento das exportações.

Em relação à União Europeia, a postura é pragmática: três quartos dos entrevistados acreditam que cumprir exigências ambientais fortalece a reputação internacional do Brasil, mas a maioria também vê essas regras como barreiras que reduzem competitividade e favorecem os interesses europeus. A aceitação existe, mas não como expressão de valores compartilhados.

O estudo também mostra que a região tem perfil político marcadamente de direita ou centro, com forte desconfiança em relação ao Estado. Mais da metade dos entrevistados acredita que o governo interfere demais na vida das pessoas e quase dois terços veem a regulação como prejudicial aos negócios. Essa cultura antiestatista ajuda a explicar tanto a credibilidade atribuída aos EUA quanto o ceticismo em relação à China e às normas da União Europeia.

Com estados que já representam cerca de 15% do eleitorado nacional e respondem por aproximadamente 25% das exportações brasileiras, a fronteira agrícola impõe limites reais às posições que Brasília pode adotar diante de Washington, Pequim e Bruxelas. Como destaca o relatório da FGV RI, uma política externa que presume alinhamento automático entre dependência comercial e confiança política interpreta equivocadamente a realidade dessa região estratégica.

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