Pesquisa mostra que agro confia mais nos Estados Unidos, apesar de vender 80% da soja para a China
Uma pesquisa inédita da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI) revela que, na fronteira agrícola brasileira, a lógica dos negócios não se traduz automaticamente em confiança política. Apesar de 80% da soja e 86% da carne bovina da região terem como destino a China em 2022, os produtores e moradores locais confiam mais nos Estados Unidos. Apenas 12,6% dos entrevistados consideram a China “muito confiável”, contra 21,8% em relação aos EUA. O dado chama atenção porque a confiança na China caiu quase 20 pontos percentuais desde 2017, mesmo com o aumento das exportações.
Em relação à União Europeia, a postura é pragmática: três quartos dos entrevistados acreditam que cumprir exigências ambientais fortalece a reputação internacional do Brasil, mas a maioria também vê essas regras como barreiras que reduzem competitividade e favorecem os interesses europeus. A aceitação existe, mas não como expressão de valores compartilhados.
O estudo também mostra que a região tem perfil político marcadamente de direita ou centro, com forte desconfiança em relação ao Estado. Mais da metade dos entrevistados acredita que o governo interfere demais na vida das pessoas e quase dois terços veem a regulação como prejudicial aos negócios. Essa cultura antiestatista ajuda a explicar tanto a credibilidade atribuída aos EUA quanto o ceticismo em relação à China e às normas da União Europeia.
Com estados que já representam cerca de 15% do eleitorado nacional e respondem por aproximadamente 25% das exportações brasileiras, a fronteira agrícola impõe limites reais às posições que Brasília pode adotar diante de Washington, Pequim e Bruxelas. Como destaca o relatório da FGV RI, uma política externa que presume alinhamento automático entre dependência comercial e confiança política interpreta equivocadamente a realidade dessa região estratégica.
