Diplomata brasileiro André Veras afirma que escolha de Mojtaba Khamenei surpreende por se opor à lógica dos aiatolás
O embaixador do Brasil em Teerã, André Veras, declarou nesta segunda-feira (9) que a escolha do filho de Ali Khamenei para o cargo de Líder Supremo do Irã foi uma surpresa, já que a Revolução Islâmica de 1979 combatia justamente um regime hereditário.
Veras ainda deu detalhes sobre a situação no país. De acordo com ele, a sucessão de pai para filho abre espaço para ser percebida como uma continuidade da estrutura que o regime jurou substituir, o que pode gerar problemas de aceitação por parte do povo iraniano. Apesar da surpresa com o nome escolhido, o embaixador brasileiro avalia que o Irã tem forte estrutura institucional e legal que fortalece a nomeação do novo Líder Supremo.
“Qualquer desaparecimento de qualquer uma das funções do Estado, ele tem um processo automático de substituição e nomeação do substituto. Não foi surpresa a nomeação de um novo líder supremo. Foi um pouco surpresa terem escolhido o filho do Khamenei. Não só porque ele não era um aiatolá, mas também pelas implicações que isso pode ter internamente em termos de aceitação.”
Mojtaba Khamenei (na imagem), de 56 anos, tem um perfil conservador forte, pela sua ligação com a Guarda Revolucionária e com os setores mais conservadores de clérigos, além de já ter atuado no conflito Irã-Iraque e como coadjuvante influente no gabinete do pai.
O embaixador do Brasil, André Veras, descreveu que Teerã aparentava um cenário menos tenso do que as últimas horas após mais ataques na noite desta segunda-feira (9). A grande massa de fumaça causada pelos ataques aos estoques de combustível já havia se dissipado. Não há cortes de energia, o comércio na capital iraniana permanece aberto e as escolas estão com aulas remotas. Entretanto, o bloqueio da internet imposto pelo Estado iraniano entrou no décimo dia, com apenas 1% dos níveis normais, segundo o monitor Netblocks. Veras confirmou que existe um racionamento de gasolina, mas que essa situação é anterior aos ataques dos EUA, por causa da falta de capacidade para refinar o combustível e atender a demanda interna. Segundo o embaixador brasileiro em Teerã, até o momento não há uma operação de evacuação, já que as fronteiras terrestres com países vizinhos permanecem abertas. Ele relatou ainda como é permanecer no país sob o ataque.
“Nesse tipo de guerra só há perdedores. Mesmo que alguns possam pensar ‘ah, porque o mercado, o fornecimento de petróleo do mundo vai favorecer este ou aquele país’, no fundo, numa economia globalizada, todos perdem. Mas estamos, sim, estamos em contato permanente. Tento manter a serenidade, mas eu vivo também apreensivo, eu vivo também com receio, porque não dá para ficar calmo ou tranquilo quando bombas estão caindo o tempo todo.”
Veras disse que a embaixada brasileira tem prestado apenas atendimentos pontuais e que mantém contato diário com Brasília.
(Agência Brasil)
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