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Bolsa na corda bamba, eleição, juros e IA na pauta do ano

Da redação
11 de fevereiro de 2026
Na CEO Conference do BTG Pactual, Roberto Sallouti e gestores discutem fluxo estrangeiro, riscos fiscais e forças globais que podem redefinir o mercado brasileiro

Se alguém esperava previsões tranquilizadoras para 2026, o painel sobre investimentos na CEO Conference do BTG Pactual seguiu na direção oposta. O debate moderado por Roberto Sallouti deixou claro que, embora haja oportunidades, o mercado brasileiro continua profundamente condicionado à política fiscal, à dinâmica eleitoral e às forças externas — da inteligência artificial às tensões geopolíticas.

Logo na abertura, Sallouti colocou a questão que permeou toda a discussão: entender por que o fluxo estrangeiro voltou com força enquanto o investidor local segue cauteloso. Para ele, o ponto chave é descobrir “qual é o gatilho para o investidor brasileiro voltar para a Bolsa e para o mercado voltar a avaliar mais profundamente os fundamentos fiscais.”

Fluxo estrangeiro e risco fiscal

A percepção sobre o Brasil varia bastante entre investidores internacionais e domésticos. Leonardo Linhares, da SPX, explicou que “o local olha o fiscal absoluto; o estrangeiro olha o fiscal relativo”, o que ajuda a explicar a entrada recente de capital externo mesmo diante das fragilidades fiscais.

Ainda assim, o diagnóstico é que o ajuste fiscal continua inevitável — e depende menos de técnica econômica do que de decisão política. Como resumiu Linhares:

“Todo mundo sabe que tem que ser feito. Dá para fazer, falta confiança e vontade política.”

Eleições e impacto político no mercado

A eleição aparece como principal fator de assimetria para os ativos brasileiros. André Lion, da Ibiuna, demonstrou cautela com a possibilidade de continuidade do atual cenário fiscal:

“Eu não vou dormir tranquilo se tiver mais quatro anos nesse cenário. O investidor pode simplesmente procurar outro lugar.”

Os gestores avaliam que uma mudança relevante de política econômica poderia destravar uma valorização mais forte da Bolsa. A conclusão geral é que o mercado ainda precifica parcialmente esse risco político.

Juros altos ainda limitam a Bolsa

Mesmo com expectativa de queda da Selic, o custo do dinheiro segue elevado e competitivo frente à renda variável. Lion destacou que a volta do investidor pessoa física deve ser lenta:

“Mesmo com cortes, vamos continuar com juros reais altos. E o investidor foi bem machucado nos últimos anos.”

Na prática, a renda fixa continua atraente e tende a retardar uma realocação mais forte para ações.

Estratégia na Bolsa: seletividade e liquidez

Diante do cenário incerto, os gestores reforçaram a necessidade de maior seletividade. William Dominice, sócio da BTG Pactual Asset Management, destacou a importância de liquidez e qualidade:

“Eu quero estar nas melhores empresas e com liquidez para entrar e sair. Num cenário incerto, isso faz muita diferença.”

Linhares acrescentou que o fluxo estrangeiro concentrado em índices acabou criando distorções:

“Muita gente compra índice, não ação. Isso deixou oportunidades interessantes fora do núcleo mais líquido.”

Inteligência artificial: oportunidade e risco

A inteligência artificial foi tratada como tendência estrutural, mas com incertezas relevantes. Dominice apontou o forte ciclo de investimento:

“A demanda por computação e nuvem está explosiva. A questão agora é quando vem o retorno desse capex.”

Lion adotou postura mais cautelosa:

“A economia vai ganhar produtividade, mas historicamente esses retornos demoram. Pode ter euforia demais no curto prazo.”

Já Linhares chamou atenção para a rápida obsolescência tecnológica:

“Se o retorno não vier logo, esse investimento pode virar papel.”

Geopolítica e dólar no radar

A reorganização global também preocupa investidores. Linhares destacou que mudanças nos blocos econômicos podem impactar energia, moedas e fluxo de capitais:

“A gente vê o movimento, mas não sabe exatamente como precificar.”

Uma eventual reversão na tendência do dólar também foi citada como possível fator de mudança para mercados emergentes.

América Latina volta ao radar

A região apareceu como alternativa de diversificação. Dominice destacou a Argentina como caso de assimetria relevante: “Lá é gigantesca.”

Lion acrescentou que mercados latino-americanos ainda apresentam ineficiências menos comuns no Brasil, hoje um ambiente bastante competitivo para gestores.

Política continua no centro das decisões

Ao final, a percepção predominante foi de que oportunidades existem, mas seguem condicionadas à política fiscal, ao cenário eleitoral e ao ambiente global. Como sinalizou Sallouti ao longo do debate, entender o mercado em 2026 exige acompanhar simultaneamente economia, política, tecnologia e geopolítica — porque, desta vez, esses fatores caminham juntos.

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