Boletim de MR sobre medicina, pesquisa, inovação, saúde mental, negócios e políticas públicas
Jejum intermitente ineficiente
Uma revisão de pesquisa aponta que a dieta de jejum intermitente não é mais eficaz para perda de peso do que as dietas convencionais. A única vantagem real comparativa é apresentar resultados melhores do que não fazer nada.
Pesquisadores do Centro Associado Cochrane, do Hospital Italiano de Buenos Aires, na Argentina, analisaram dados de 22 estudos globais e constataram que pessoas com sobrepeso ou obesidade perderam tanto peso seguindo conselhos dietéticos tradicionais quanto quando experimentaram regimes de jejum, como as Dieta 5:2 e Fast 800, popularizadas pelo falecido médico e apresentador Michael Mosley.
A revisão indica que, em média, as pessoas perderam apenas 3% do peso com o jejum, índice muito abaixo dos 5% que os médicos consideram clinicamente significativos em processos de emarecimentos. Os estudos foram todos de curto prazo, analisando melhorias ao longo de, no máximo, 12 meses.
“O jejum intermitente não é uma solução milagrosa, mas pode ser uma opção entre várias para o controle de peso”, disse Luis Garegnani, autor principal do estudo e diretor do Centro Cochrane. “Não parece ser claramente melhor, mas também não é pior.”
No jejum intermitente, as pessoas restringem a alimentação a horários determinados e jejuam em certos dias. A prática ganhou adeptos pela facilidade e promessa de resultados sem consultas médicas recorrentes e uso de emagrecedores, prometendo melhora da saúde física e mental, além de retardar o envelhecimento. O que não é comprovado.
Jogos, sexo e consumismo: medicamento desencadeia compulsão em pacientes
Remédios para aliviar sintomas iniciais de Mal de Parkinson e outros males, como Síndrome de Pernas Inquietas, tumores de hipófise e disfunções reprodutivas são suspeitos de dispararem comportamentos compulsivos em pacientes. A alegação de pacientes usuários de agonistas da dopamina é que não foram alertados adequadamente pelos médicos e que seus relatos foram ignorados pelo sistema público de saúde (NHS).
Mais de 250 britânicos entraram em contato com a BBC relatando compulsões que incluem jogos de azar, sexo, apetite desenfreado e compras causados por uma família de medicamentos para distúrbios do movimento. Na semana passada o Comitê de Saúde da Câmara dos Comuns pediu à agência reguladora de medicamentos do Reino Unido que revisasse os alertas sobre esses efeitos colaterais. O governo classificou os relatos como “extremamente preocupantes”.
Os agonistas da dopamina atuam aumentando a atividade desse hormônio, que ajuda a regular os movimentos, mas também desempenha papel central na motivação e no sistema de recompensa — que pode ser superestimulado por esses medicamentos. Há relatos de casamentos desfeitos, dividas de milhares de libras esterlinas, demissões, depressões e pensamentos suicidas entre os afetados. O NHS orienta os pacientes que fazem uso desses medicamentos a procurem um médico com urgência caso apresentam qualquer preocupação.
Brasileiros melhoram tratamento de insuficiência cardíaca por Mal de Chagas

Cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) participam de estudo global para ampliar o entendimento sobre melhor tratamento para a insuficiência cardíaca decorrente do Mal de Chagas, principal risco de morte para os pacientes infectados.
Denominado Parachute-HF, foi o primeiro estudo científico exclusivo com participantes chagásicos. Foi avaliada a a eficácia e a segurança dos medicamentos sacubitril/valsartana e o enalapril. O ensaio clínico randomizado reuniu 83 centros de pesquisa no Brasil, Argentina, Colômbia e México e um total de 922 pacientes chagásicos. Os resultados foram publicados no Journal of the American Medical Association (JAMA).
A Doença de Chagasé uma doença tropical parasitária causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e transmitida principalmente por picadas de besouros hematófagos, por consumo de alimentos contaminados, transfusões de sangue o amamentação. Uma das complicação mais delicadas da doença é a insuficiência cardíaca crônica provocada pela dilatação da paredes do coração, que após décadas leva à morte do paciente.
O que MR publicou
- Amazon pode ser processada por suicídios ligados ao nitrito de sódio
- Psiquiatra de Stanford conta como treinar cérebro a gostar de tarefas difíceis
- Vídeos curtos podem afetar desenvolvimento infantil
Brasil e Índia assinam acordo para medicamentos contra câncer

O governo brasileiro assinou em Nova Delhi, Índia, durante missão oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, três parcerias para o desenvolvimento produtivo (PDPs), para nacionalizar a produção de medicamentos oncológicos usados no Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo o Ministério da Saúde, os contratos podem atingir R$ 722 milhões no primeiro ano e chegar a R$ 10 bilhões ao longo de uma década. O programa combina´ra compra pública e transferência de tecnologia por um período longo, para dar previsibilidade ao investimento industrial.
“Nesses acordos e transferência de tecnologia, usamos o recurso do SUS na compra dos medicamentos, e há um investimento de recurso por parte das empresas indianas e nacionais privadas para levar equipamentos ao Brasil, treinar pessoal, levar princípios ativos, para o Brasil dominar esta tecnologia”, disse o ministro, Alexandre Padilha.
Os medicamentos inclusos na parceria são usados em diferentes protocolos contra os cânceres de mama, pele e leucemias.
Mecanismos
- No caso do medicamento nivolumabe, a produção envolve a Bahiafarma como parceira pública e as empresas Bionovis e Dr. Reddy’s como parceiras privadas;
- O pertuzumabe foi estruturado com a Bahiafarma e as empresas Bionovis e Biocon Biologics do Brasil;
- O dasatinibe entrou em uma PDP com a Fundação para o Remédio Popular (FURP), a Biocon Pharma e a Nortec Química;
- A Fiocruz assinou um memorando de entendimento com a farmacêutica indiana Biocon Pharma para transferência de tecnologia e produção de tratamentos contra doenças raras, cânceres e terapias imunossupressoras;
- Um segundo memorando da Fiocruz com a Lupin quer desenvolver em conjunto produtos contra doenças infecciosas negligenciadas, como tuberculose e malária.
Novo tratamento para fenilcetonúria chegará ao Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Sephience, medicamento indicado para o tratamento da fenilcetonúria. De origem genética, a doença é causada pela deficiência da enzima hepática responsável pela conversão da fenilalanina, presente nas proteínas da alimentação, em tirosina.
O medicamento aprovado, indicado para pacientes pediátricos e adultos, ajuda justamente na quebra desse aminoácido e pode ampliar as possibilidades de dieta, melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos pacientes”, completou.
Crianças com fenilcetonúria não apresentam sintomas ao nascimento, porém os sinais de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM) são evidentes aos seis meses de vida. Se não iniciarem tratamento no primeiro mês de vida – o ideal – evoluem com deficiência intelectual, odor característico na urina e suor, além de distúrbios no comportamento.
“A elevação dessa enzima no sangue tem efeito neurotóxico e suas sequelas são graves – com o desenvolvimento de déficits neurocognitivos e deficiência intelectual severa e irreversível”, indicou a agência.
O diagnóstico precoce é feito pela detecção de níveis elevados da fenilalanina no sangue em bebês, que tiveram coleta realizada entre o terceiro e o quinto dia de vida. É recomendado que o sangue do recém-nascido seja colhido após 48 horas do seu nascimento para garantir que ele tenha ingerido quantidades de proteína suficientes para o aparecimento de alterações no exame, evitando assim resultados falso-negativos. Dados do Ministério da Saúde indicam que a fenilcetonúria é detectada em apenas um de cada 15 mil a 17 mil nascimentos no Brasil.
Quatro em cada dez mortes por câncer no Brasil são evitáveis
Um estudo em 185 países publicado na edição de março da revista The Lancet sobre mortes por câncer estima que 43,2% dos óbitos provocados pela doença no Brasil poderiam ser evitados com medidas de prevenção, diagnóstico precoce e melhor acesso ao tratamento.
A pesquisa “Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer no mundo” registrou que, dos casos diagnosticados no país em 2022, cerca de 253,2 mil devem resultar em morte até cinco anos após a detecção. Desses, 109,4 mil poderiam ser evitadas.
Os pesquisadores dividem as quase 110 mil mortes por câncer evitáveis no Brasil em dois grupos: 65,2 mil são preveníveis, ou seja, a doença poderia nem ter ocorrido, e as outras 44,2 mil são classificadas como evitáveis por diagnóstico precoce e acesso adequado a tratamento. O trabalho é assinado por 12 autores, oito deles vinculados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS) e sediada em Lyon, na França.
As informações reúnem dados sobre 35 tipos de câncer. Em termos mundiais, o percentual de óbitos evitáveis é de 47,6%. Isso representa que, dos 9,4 milhões de mortes causadas pela doença, quase 4,5 milhões poderiam não ter acontecido. O grupo de pesquisa detalha que, do total de mortes, uma em cada três (33,2%) é prevenível, e 14,4% poderiam não acontecer caso houvesse diagnóstico precoce e acesso a tratamento.
Ao estimar quantas mortes poderiam ser evitadas por medidas de prevenção, os pesquisadores apontam cinco fatores de risco:
- tabaco;
- consumo de álcool;
- excesso de peso;
- exposição à radiação ultravioleta;
- e infecções (causadas por vírus como o do HPV e o da hepatite e pela bactéria Helicobacter pylori).
Menores índices de mortes evitáveis
- Austrália e Nova Zelândia: 35,5%;
- Norte da Europa: 37,4%;
- América do Norte: 38,2%.
Maiores proporções
- África Oriental: 62%;
- África Ocidental: 62%;
- África Central: 60,7%.
A América do Sul tem 43,8% de mortes por câncer evitáveis, indicador bem parecido com o do Brasil.
