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Uma reflexão sobre o poder (quase absoluto) das primeiras-damas

O caso em que a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, é acusada de interceder em favor de empresas junto à Caixa Econômica Federal mostra uma situação que, embora vexatória, é tão antiga quando a invenção da roda. Na política brasileira, Dulce Figueiredo, Yolanda Costa e Silva e Ruth Cardoso, para ficar em alguns nomes, sempre foram mencionadas quando o assunto era interferência política das primeiras-damas no governos de seus maridos. Mas o fenômeno não é exclusivamente brasileiro.

Durante a campanha presidencial americana de 2016, Hillary Clinton, em certa ocasião, foi questionada sobre qual seria sua participação no governo de seu marido, Bill. Hillary, então, disse que era chamada a opinar em diversas situações, contribuindo diretamente para a tomada de decisões estratégicas (essa declaração foi acompanhada de protestos; afinal, ela não havia sido eleita para interferir na administração federal).

Em um mundo ideal, os cônjuges (homens ou mulheres) não teriam nenhuma interferência nas gestões de seus mandatários. Haveria uma muralha da China, formal ou não, que permitiria apenas a interação com a máquina pública em relação a assuntos genéricos ou familiares. Na prática, contudo, sabe-se que as coisas não funcionam assim. As primeiras-damas sempre mandaram muito e tiveram suas ordens atendidas na maioria esmagadora das vezes em que pediram alguma coisa.

A Yolanda Costa e Silva, por exemplo, é creditada a nomeação de Paulo Maluf à presidência da Caixa Econômica Federal, em 1967. Já Dona Ruth, como ela era conhecida no Planalto, foi a mentora do programa social que acabou sendo adaptado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para criar o Bolsa Família.

O caso de Michelle Bolsonaro, se comprovado, mostrará – mais uma vez – um certo amadorismo na condução deste tipo de processo por parte do atual governo. Uma assessora mandou e-mails fazendo referência sobre a participação da primeira-dama na concessão de empréstimos a juros baixos durante a pandemia – um deles para seu florista e outro para uma doceira. “Direcionamos para análise e tratativas necessárias solicitações de microempresários de Brasília enviadas pelo gabinete da primeira-dama Michelle Bolsonaro”, está escrito em uma das mensagens.

A revista Crusoé, que revelou o caso, mostra que não houve apenas uma indicação, mas um envolvimento ainda maior do gabinete de Michelle na aprovação das operações. Outro e-mail diz o seguinte: “A pedido da sra. Michelle Bolsonaro e conforme conversa telefônica entre ela e o presidente Pedro [Guimarães, da CEF], encaminhamos os documentos dos microempresários de Brasília que têm buscado crédito a jutos baixos”.

Como se pode ver, a primeira-dama teria servido de ponte entre os interessados no crédito subsidiado e uma instituição financeira controlada pelo governo federal. Trata-se de uma interferência indesejada e condenável. Pode-se argumentar que as linhas de crédito da Caixa estavam disponíveis a qualquer microempresa em dificuldades geradas pelo mercado recessivo em função da pandemia. No entanto, nem todos que buscaram esses empréstimos foram contemplados, especialmente porque a CEF avaliou os balanços de 2019 com uma lupa bastante conservadora. Assim, vários proponentes não foram atendidos pela Caixa.

Não sejamos ingênuos. Funcionários de um banco público recebem uma lista de candidatos a empréstimos com recomendação da primeira-dama. Mais que isso: os documentos das empresas são enviados por uma assessora oficial. Qual seria a reação destes servidores? Não precisa ser um gênio para adivinhar a reposta correta.

Voltando ao início: a interferência política das primeiras-damas é algo antigo e provavelmente deve remeter aos tempos do Império Romano. Mas, como diz um ditado surgido naquela época, “a mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta”. Ainda não se pode provar uma eventual má-fé da primeira-dama e talvez isso nunca ocorra. Mas o Planalto não pode deixar um tráfico de influência tão chinfrim ocorrer desta forma. O governo já enfrenta uma queda de aprovação significativa. Um episódio como este só pode provocar uma nova rodada de impopularidade.

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