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Tem populismo barato à esquerda e à direita na vizinhança

Solução é apelativa e termina em instabilidade, não importa o ponto de partida, mesmo assim há sempre quem queira tentar

Bolsonaro não é mais aquele Jair que prometia ser. Bem antes de seus 3 anos e pouco no poder, entendeu que para governar com um mínimo de capacidade de sobrevivência é preciso ceder aqui, lá, acolá – e muito. Concentração de poder em um país com sólido papel parlamentar na vida pública é algo que não funciona quando quem pretende mandar não tem um tanque estacionado do lado de fora do palácio. E isso é algo que ele não deverá tentar após tanta gritaria raivosa. O discurso do conservadorismo nos costumes segue, mas a agenda liberal se foi, o combate à velha política também e entre os maluquinhos do governo, quem não foi demitido está quieto, enrolado, fazendo campanha ou virou inimigo. E ninguém deve aparecer na campanha com um discurso de Bolsonaro – de início, talvez nem ele. Mas nem por isso a biodiversidade política sul-americana está desfalcada.

Pelo menos dois novos bolsonaristas free style apareceram. Um em cada lado do espectro. Na Argentina, o direitismo protoacadêmico gestou Javier Milei (à esquerda na imagem), economista fundador do partido La Libertad Avanza, que pretende abraçar do liberalismo econômico ao anarcocapitalismo, algo como ser social-democrata e anarquista simultaneamente. Milei até possui formação sólida e se tornou um crítico firme dos governos Kirchner, Macri e Fernandez usando como plataforma seu programa de rádio Demoliendo Mitos. Em debates com outros colunistas e especialistas, se tornou popular por seus modos histriônicos e farto emprego de expressões chulas. Em uma ocasião chamou uma jornalista de burra, o que lhe rendeu uma denúncia depois que se negou a pedir desculpas. Também chamou o prefeito de Buenos Aires de “surdo de merda” e “verme nojento”, o que deleitou seus fãs indignados. Em 2020, participou de protestos antiquarentena, chamando o governo de uma ditadura do “comunavírus”, “marxismo cultural” e popularizando o termo “infectadura”.

Plágios

Eleito deputado com 300 mil votos em 2021, se diz pré-candidato para 2023 para enfrentar tudo que já ocupou a Casa Rosada. Escolheu como um dos alvos justo o terreno de onde brotou, a vida acadêmica, alegando que as universidades estão contaminadas por ideologias de esquerda. Seu objetivo é quebrar a polarização entre peronistas liberais e peronistas de esquerda. Só não diz como vai tirar a Argentina do buraco. Enquanto isso, defende um combo de medidas que vão do libertário ao repressivo, como a legalização das drogas, a criminalização do aborto, restrições à imigração, extinção do banco central e que as ações humanas sobre o aquecimento global são uma “mentira socialista”. Em termos econômicos, é tachado de mecanicista e excludente, por desconsiderar fatores sociais em suas formulações teóricas, algo que a Escola Austríaca que diz idolatrar leva em conta. Milei também foi criticado por citar ideias de economistas renomados sem lhes dar crédito. Sua campanha também enfrenta questionamentos. Declaradamente contra financiamentos partidários, recebeu fundos não declarados. Ao ser eleito, citou a Bíblia. Já vimos tudo isso.

Na ponta oposta, mas não distante, está Pedro Castillo (à direita, na imagem), presidente do Peru desde julho do ano passado. Populista de esquerda com laivos cada vez autoritários, já tentou censurar a imprensa e, nesta semana, propôs castração química para pedófilos condenados por estupro. “Aplicada como método de prevenção contra a agressão sexual”, argumentou. Além de não se dar bem com o congresso, escapando por pouco de um impeachment por deixar o governo sem rumo, ele alimentou sucessivas crises ministeriais e permitiu um alegado tráfico de influência entre seus colaboradores próximos. Há duas semanas, uma elevação dos combustíveis e dos fertilizantes por causa da guerra na Ucrânia desencadeou protestos que culminaram na decretação de estado de emergência e de toque de recolher na capital Lima – logo revogada –, o que manteve 10 milhões de pessoas em casa e suspendeu “direitos constitucionais relacionados com a liberdade e segurança pessoal, à inviolabilidade do lar e à liberdade de reunião e movimento”. Com 75% do eleitorado classificando sua gestão com ruim ou péssima e 63% desejando sua renúncia, Ele não apresentou solução alguma para tirar o país da crise. Suas únicas medidas foram o aumento do salário mínimo e a redução da alíquota do imposto para combustíveis. O “novo socialismo” popular de Castillo é puro obscurantismo. Em vez de ajudar a criar condições para a geração de riqueza – algo que deveria pautar todos os governantes –, ele prefere castrar condenados. Quando não faz isso, também adota uma agenda conservadora nos costumes, afinal é contra o casamento gay e qualquer liberação de aborto. Para os brasileiros, a diferença entre Milei e Castillo vem dos elogios. O primeiro é querido pelos Bolsonaro, o segundo, saudado por Lula.

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