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Rothbard sobre os “intelectuais da corte”

Instituto Mises
3 de novembro de 2025
A questão é que os especialistas argumentam que algumas questões, como guerra, ciência e saúde pública, são por demais complexas para ficarem nas mãos das massas

É amplamente conhecido que Murray Rothbard acredita que os intelectuais desempenham um papel crucial para fazer com que o público aceite o estado. Por que esses “intelectuais da corte” são necessários? A necessidade decorre da própria natureza do estado. Seguindo Franz Oppenheimer e Albert Jay Nock, Rothbard sustenta que o estado é uma organização predatória: ele utiliza a coerção para tomar a propriedade das pessoas. Além disso, é composto por uma minoria relativamente pequena de indivíduos: mesmo em estados com grandes burocracias, a maior parte da população não é formada por funcionários estatais. Nessa circunstância, a continuidade da existência do estado depende da opinião pública. Se um número suficiente de pessoas se recusasse a obedecê-lo, o estado seria incapaz de manter suas atividades coercitivas. Como Rothbard afirma:

“Se os estados sempre foram dirigidos por um grupo oligárquico de predadores, como eles conseguiram manter seu domínio sobre a massa da população? A resposta, como o filósofo David Hume apontou há mais de dois séculos, é que, no longo prazo, todo governo, por mais ditatorial que seja, repousa sobre o apoio da maioria de seus súditos. Ora, isso certamente não torna esses governos ‘voluntários’, já que a simples existência do imposto e de outros poderes coercitivos mostra o quanto de compulsão o estado precisa exercer. Nem esse apoio majoritário precisa ser um endosso entusiástico; pode muito bem ser apenas uma aquiescência passiva e resignada. A junção na famosa expressão ‘morte e impostos são inevitáveis’ implica uma aceitação passiva e resignada da suposta inevitabilidade do estado e de sua tributação”.

Cabe aos intelectuais convencer as pessoas a aceitar aquilo que, à primeira vista, são atividades indesejáveis e que elas teriam bons motivos para rejeitar: por que concordar com uma organização que confisca sua propriedade e pode tirar sua vida? Na coluna desta semana, gostaria de considerar algumas das maneiras pelas quais os intelectuais fazem isso, segundo a explicação de Rothbard.

Uma dessas maneiras envolve um tema importante na filosofia da história. A história é resultado de ações individuais e contingentes, ou é produzida por forças deterministas e impessoais? Vejamos alguns exemplos. Se você está estudando as origens da Primeira Guerra Mundial, sua atenção deve se concentrar principalmente no que pessoas específicas — por exemplo, Guilherme II, Sir Edward Grey, Raymond Poincaré — fizeram? Ou sua ênfase principal deve estar em forças impessoais — por exemplo, o choque entre potências imperialistas rivais causado pelo estágio que o desenvolvimento econômico do capitalismo havia alcançado? Da mesma forma, ao estudar a origem da Guerra Civil Americana, você deve olhar para as políticas de Lincoln ou, como fazem Charles e Mary Beard em The Rise of American Civilization, ver a guerra como um conflito inevitável entre o Norte industrial e o Sul agrícola? Perry Anderson, o proeminente historiador marxista que mencionei na semana passada, nunca se cansa de exigir uma “explicação estrutural” para os acontecimentos.

Rothbard conecta esse tema à questão de fazer com que as pessoas aceitem o estado. Se a história é determinada por forças inevitáveis sobre as quais os indivíduos não têm controle, resistir ao estado torna-se algo inútil. Como ele coloca:

“Também é particularmente importante para o estado fazer seu domínio parecer inevitável: mesmo que seu reinado seja indesejado, como frequentemente é, ele será recebido com a resignação passiva expressa na conhecida junção entre ‘morte e impostos’. Um método para isso é colocar a seu favor o determinismo histórico: se o estado-X governa sobre nós, então isso foi inevitavelmente decretado pelas Leis Inexoráveis da História (ou pela Vontade Divina, ou pelo Absoluto, ou pelas Forças Materiais Produtivas), e nada do que quaisquer indivíduos insignificantes façam pode alterar o inevitável. Também é importante para o estado incutir em seus súditos uma aversão a qualquer manifestação do que hoje se chama de ‘teoria da conspiração da história’. Pois buscar ‘conspirações’, por mais equivocadas que muitas vezes sejam as conclusões, significa buscar motivos e atribuir responsabilidade individual pelos erros históricos das elites governantes. Se, porém, qualquer tirania, venalidade ou guerra agressiva imposta pelo estado não foi produzida por governantes específicos, mas por forças sociais misteriosas e obscuras, ou pelo estado imperfeito do mundo — ou se, de algum modo, todos são culpados (‘Somos todos assassinos’, proclama um slogan comum) —, então não há razão para que alguém fique indignado ou se levante contra tais atos perversos. Além disso, desacreditar as ‘teorias da conspiração’ — ou, na verdade, qualquer coisa que lembre ‘determinismo econômico’ — tornará os súditos mais propensos a acreditar nas razões de ‘bem-estar geral’ que o estado moderno invariavelmente apresenta para justificar qualquer ação agressiva”.

O ponto que Rothbard apresenta aqui é um tema central em um livro que gerou bastante discussão quando foi lançado no ano passado: The Dawn of Everything, de David Graeber e David Wengrow. Assim como Rothbard, embora sem mencioná-lo, eles argumentam que os intelectuais fazem com que as pessoas aceitem o estado ao promoverem a teoria de que a história avança por estágios inevitáveis: se você não gosta do sistema vigente de “capitalismo de estado”, não há nada que possa ser feito a respeito; portanto, o melhor que você pode fazer é aprender a conviver com ele. Infelizmente, há sérios problemas nesse livro, como procuro mostrar em uma resenha caracteristicamente crítica que escrevi.

Gostaria de concluir com mais uma tática dos intelectuais da corte, especialmente relevante para nós hoje. Rothbard destaca que os “gestores de segurança nacional” afirmam que algumas questões, como guerra e paz, são complexas demais para serem deixadas nas mãos das massas e devem ser decididas por especialistas:

“Nos últimos anos, vimos o desenvolvimento, nos Estados Unidos, da profissão de ‘gestores de segurança nacional’, formada por burocratas não eleitos, mas que continuam, governo após governo, usando secretamente sua suposta expertise especial para planejar guerras, intervenções e aventuras militares. Somente seus erros flagrantes na guerra do Vietnã fizeram com que suas atividades fossem questionadas publicamente; antes disso, eles conseguiam cavalgar altivos e confiantes sobre o público, que viam principalmente como munição para seus próprios propósitos.

“Um debate público entre o senador ‘isolacionista’ Robert A. Taft e um dos principais intelectuais da segurança nacional, McGeorge Bundy, foi instrutivo para marcar tanto as questões envolvidas quanto a atitude da elite intelectual governante. Bundy atacou Taft no início de 1951 por abrir um debate público sobre a condução da Guerra da Coreia. Bundy insistia que somente os líderes do poder executivo estavam preparados para manipular a força diplomática e militar em um período de décadas de guerra limitada contra as nações comunistas. Era importante, defendia Bundy, que a opinião pública e o debate público fossem excluídos de qualquer papel na formulação de políticas nessa área. Pois, ele alertava, o público infelizmente não estava comprometido com os rígidos objetivos nacionais identificados pelos gestores de política; ele apenas reagia às realidades ad hoc de situações específicas. Bundy também sustentava que não deveria haver recriminações ou sequer avaliações das decisões dos gestores de política externa, porque era importante que o público aceitasse suas decisões sem questionamento.

“(…) De maneira semelhante, num momento em que o presidente Eisenhower e o secretário de Estado Dulles estavam, em privado, contemplando entrar em guerra na Indochina, outro proeminente gestor de segurança nacional, George F. Kennan, aconselhava o público dizendo: ‘Há momentos em que, tendo eleito um governo, seremos melhor aconselhados a deixá-lo governar e deixá-lo falar por nós como bem entender nos conselhos das nações’”.

O processo que Rothbard descreve aqui, em nossos dias, migrou para os “especialistas em saúde pública”, como Anthony Fauci, que exigem que aceitemos suas propostas totalitárias porque a “ciência” assim determina.

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Por David Gordon

Publicado originalmente

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