A resposta óbvia à pergunta acima é: Jair Bolsonaro, já na condição de ex-presidente e dono de um respeitável cacife eleitoral. Mas será que Bolsonaro tem o perfil de líder oposicionista? Mais que isso: o atual presidente conseguirá manter coesa a base de parlamentares que hoje é fiel a ele?
De um lado, Bolsonaro tem um poder de influência enorme sobre quem está próximo ao poder. É possível citar dois exemplos, saídos diretamente da mais alta esfera do Planalto. O primeiro é o ministro Paulo Guedes, um liberal convicto e defensor intransigente do controle de gastos públicos. Mas o que se viu nos últimos dezoito meses? Um Guedes mais preocupado em proporcionar condições para reeleger o presidente do que defender a cartilha liberal. Neste sentido, liberou-se pagamentos para programas sociais, financiados pelo calote a precatórios, e rompeu-se o teto de gastos públicos.
Outro exemplo é o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto. Antes das eleições, ele havia visitado o Tribunal Superior Eleitoral e afirmado a sua confiança nas urnas eletrônicas. Após o resultado do pleito, adotou um discurso conciliador. Mas isso tudo durou dias. A pressão feita por Bolsonaro para que se contestasse a contagem dos votos foi tamanha que o PL resolveu patrocinar e apresentar um relatório ao TSE com base em um argumento técnico facilmente refutável.
Como líder da oposição, o atual mandatário terá de manter unida uma base de parlamentares na base do gogó, uma vez que não terá verbas para distribuir. Lembremos que, nos primeiros dezoito meses de governo, Bolsonaro não fez acordo com o Centrão e passou maus bocados no Congresso. Quando abriu a torneira de verbas, solidificou uma maioria na Câmara e passou a governar com mais calma. Diante disso, como Bolsonaro manterá seu grupo de apoiadores próximo? No início de sua gestão, é sempre bom recordar, conseguiu se desentender com parlamentares próximos e até saiu do partido que o elegeu, o PSL (que se fundiu com o DEM e criou o União Brasil).
Nesses primeiros meses de 2023, haverá um rearranjo político muito grande. Só assim saberemos o quanto do atual Centrão vai apoiar Luiz Inácio Lula da Silva – e também quantos parlamentares ficarão independentes ou na oposição. Nesta hora, poderemos ter certeza a respeito do real tamanho do bolsonarismo raiz.
Hoje, a parcela mais visível desses apoiadores do presidente está diante dos quarteis, pressionando por uma intervenção militar. Mas, mesmo entre esses manifestantes, podemos enxergar alguns grupos que são mais antipetistas do que bolsonaristas.
Muitos articuladores políticos acham que a Direita como um todo deve se apegar a Bolsonaro. Mas será esta a melhor alternativa? Que o atual presidente conta com um forte cacife eleitoral, não há como negar. Mas conseguirá ele aglutinar forças do Centro em torno de si, como fez em 2018? Há incertezas em relação a isso, pois o candidato à reeleição não conseguiu, em 2022, entusiasmar certas comunidades centristas, que preferiram se abster, votar em branco ou aderir a Lula.
Por outro lado, se não for Bolsonaro, quem será? Hoje, pode-se apontar o dedo para poucas lideranças de direita. Mas dois nomes podem ser mais conciliadores que o atual inquilino do Palácio do Alvorada: os governadores Romeu Zema e Tarcísio Freitas (este, recém-eleito). Os dois têm maior trânsito com os eleitores moderados e podem chegar a 2026 com um legado interessante gerado por suas administrações regionais. No caso de Tarcísio, porém, sua intenção inicial é a de tentar ficar mais um mandato no Palácio dos Bandeirantes antes de pensar no Planalto. Restaria, assim, a Zema a tarefa de liderar a oposição. Mas o jeitão excessivamente conciliador do mineiro poderia inviabilizá-lo como articulador da oposição.
Portanto, a pergunta continua aberta: se não for Bolsonaro, quem será?
