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Pesquisa do DEM reforça a possibilidade de uma terceira via

O DEM finalizou na semana passada um estudo qualitativo sobre as eleições do ano que vem e alguns detalhes foram publicados pelo site O Antagonista. Ao contrário das enquetes quantitativas, esse tipo de pesquisa busca um mergulho na mente do eleitor, em busca de insights que possam servir de orientação para uma eventual estratégia eleitoral. Geralmente, os pesquisadores usam o que se chama no mercado de “focus group” – pequenas reuniões que discutem os temas propostos por um coordenador, acompanhadas por especialistas que observam as reações dos participantes atrás de um espelho.

Os indivíduos ouvidos por estes pesquisadores contratados pelo DEM foram divididos de acordo com várias categorias. Apoiadores do governo, por exemplo, acreditam que o Brasil vive uma “baderna”, causada pela imprensa e pelo Supremo Tribunal Federal. Entre os evangélicos, estrato no qual há apoio também a Jair Bolsonaro, percebe-se que quanto maior o nível de escolaridade, menor é a fidelidade ao presidente. Há também aqueles que se colocam no espectro da esquerda. Para eles, o Planalto é culpado de absolutamente tudo de errado que ocorre no Brasil.

Onde está o perigo para Bolsonaro? Em dois pontos.

O primeiro é a rejeição por parte das mulheres. Cerca de 70 % das eleitoras ouvidas não pretendem votar no presidente de jeito nenhum. Como o estudo não é quantitativo, no entanto, essa mostra não tem representatividade estatística. De qualquer forma, é uma demonstração de que o público feminino não tem exatamente simpatia pelo mandatário.

A pesquisa também detectou que há um grupo significativo de pessoas que votou em Bolsonaro no último pleito, mas se sente “desiludido” com a gestão do presidente. Esse grupo é inflado pelos admiradores da Operação Lava-Jato, que prometem anular o voto caso o segundo turno fique entre o ocupante do Planalto e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (uma pesquisa recente da revista EXAME estima este grupo em 10 % do eleitorado).

Ainda não está claro o tamanho deste contingente que reúne os nem-nem políticos (nem Bolsonaro, nem Lula). Mas é inegável que a rejeição aos principais candidatos continua forte. A reação negativa ao encontro de Fernando Henrique Cardoso com Lula, mesmo entre os tucanos, mostra que – pelo menos na elite e na classe política – ainda se aposta na chamada Terceira Via entre os opositores de Bolsonaro.

No caso específico do presidente, há três explicações para a aversão de certos eleitores: a economia estagnada, o negacionismo mostrado durante a pandemia e o comportamento pautado por atitudes e declarações politicamente incorretas.

Mesmo que esse grupo de mostre numericamente consistente, resta uma dúvida: haverá concentração de votos em um único candidato? Essa é a condição necessária para que o segundo turno tenha um nome diferente de Lula e de Bolsonaro. Por enquanto, o melhor colocado nas pesquisas é Ciro Gomes, que oscila entre 5 % e 8 % das intenções de voto. Mas, controverso, Ciro ainda está longe de aglutinar esses eleitores insatisfeitos e se transformar, para usar uma expressão que virou moda, o “Joe Biden brasileiro”.

Temos na vitrine de candidatos a receber votos dos moderados, além de Ciro Gomes, personagens como os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro, os governadores João Doria e Eduardo Leite, o senador Tasso Jereissati e o apresentadores de TV Luciano Huck e Danilo Gentili.

Destes, comenta-se que Moro e Huck não disputarão. Gentili foi colocado em algumas sondagens, mas não parece ter viabilidade eleitoral. Eduardo Leite, por sua vez, ainda é muito novo (terá 37 anos durante a campanha do ano que vem) e não deve ser escolhido neste momento.

Isso nos deixa com Mandetta, Doria, Jereissati e Ciro como representantes centristas. Estamos entrando no mês de junho e daqui a pouco faltará apenas um ano para o primeiro turno das eleições presidenciais. O tempo está passando e nenhum dos quatro está se movimentando com desenvoltura em busca de votos.

É preciso lembrar que, no último pleito, houve três fatores de sucesso para o sucesso de Bolsonaro. O primeiro foi capturar o sentimento antipetista que reinava no país (em boa parte do eleitorado, isso ainda ocorre). O então candidato do PSL também trabalhou muito melhor as redes sociais que seus adversários (algo que todos já aprenderam como fazer). Por fim, a campanha de Bolsonaro não durou apenas um ano. Ele começou a trabalhar seu nome junto ao eleitorado desde 2014, intensificando a romaria aos estados brasileiros em 2016.

De maneira geral, o mundinho político foi surpreendido pelo triunfo do presidente. Todos os cientistas políticos acreditavam que a candidatura do PSL iria fazer água em um determinado momento. Mas, como vimos, houve uma adesão constante ao presidente, construindo uma massa de 57,7 milhões de votos. Nenhum dos centristas, porém, parece entender o sucesso dessa estratégia e propenso a se engajar em esforços pré-campanha. É verdade que a pandemia atrapalhou bastante iniciativas de corpo a corpo, pois os pré-candidatos podem ser acusados de causar aglomerações (preocupação que o presidente não tem) se fizerem comícios ou reuniões políticas. Mas se esses nomes quiserem manter a chama acesa até outubro de 2022, precisam começar a fazer algo agora – nem que seja no ambiente virtual.

Enquanto isso, o presidente Bolsonaro continuará a reunir multidões para demonstrar que tem apoio popular. De fato, pelo menos 30 % do eleitorado está ao seu lado. Não é suficiente para garantir a vitória, mas parece ser o bastante para colocá-lo no segundo turno. Com as fotos de concentrações postadas nas redes sociais, os apoiadores do presidente fazem campanha e dizem que Lula não teria coragem de sair às ruas e se expor como Bolsonaro o faz. Talvez isso seja verdade. Mas, no dia 29, sábado, haverá um teste de popularidade. Existem manifestações públicas contra o presidente marcadas em 85 cidades brasileiras, incluindo todas as capitais. Esses atos vão reunir mais gente que as recentes “motociatas” de Bolsonaro?

A resposta a essa pergunta vai ajudar a entender melhor qual é o tamanho do cacife eleitoral do presidente e nos propiciar uma análise política mais próxima da realidade.

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