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Os desafios de Ciro Gomes para se viabilizar como a Terceira Via

Os empresários que procuram um terceiro nome para apoiar em 2022 começam a ficar impacientes com a demora em surgir um candidato moderado e viável para o próximo pleito. Esses homens de negócios representam uma parcela considerável de eleitores brasileiros, um grupo que não quer sufragar nem Jair Bolsonaro nem Luiz Inácio Lula da Silva no ano que vem. Por que a impaciência? É que, por enquanto, os nomes cogitados no quadrante centrista têm uma performance insatisfatória nas pesquisas de opinião e suas intenções de voto estão empacadas em apenas um dígito percentual.

Entre as candidaturas fora dos extremos, dois nomes se destacam: Sérgio Moro e Ciro Gomes, que navegam em um patamar ligeiramente superior ao dos demais nomes de centro, como Luciano Huck, João Doria, Luiz Henrique Mandetta e João Amoêdo. Vários analistas políticos já disseram que Moro e Huck decidiram não concorrer. Isso deixaria Ciro sozinho na faixa intermediária de intenção de votos – mas, se a eleição fosse hoje, ficaria entre Bolsonaro e Lula.

O cenário, porém, está longe de ser definido. Ainda não se sabe se o senador Tasso Jereissati vai entrar mesmo na disputa ou se outro político poderia buscar a indicação em sua agremiação partidária. Embora tenhamos muito tempo até a eleição presidencial, há muita gente preocupada com a indefinição do centro e se movimenta para entender melhor qual é, afinal, a de Ciro Gomes.

Entre o empresariado, há quem enxergue o ex-governador do Ceará como um político de esquerda que usa de forma conveniente o discurso centrista. De fato, a personalidade de Ciro não é exatamente a de um moderado. Passional e ferino, ele nada tem a ver com os representantes do Centro em 2018, como Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles.

Como convencer a elite corporativa de que ele não é de esquerda? Será um desafio e tanto. Recentemente, por exemplo, ele afirmou que não havia déficit nas contas da previdência. O raciocínio seria o seguinte: se somarmos os recursos de contribuições sociais, como CSLL (Contribuição Sobre o Lucro Líquido), Cofins (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social) e PIS/Pasep, há dinheiro para pagar todas as despesas da previdência. Vamos supor que o ex-governador esteja com a razão e que o governo esteja usando o dinheiro destes três tributos para tapar outros buracos orçamentários. Teremos, da mesma forma, uma falta de recursos no caixa da União. Ou seja, não há dinheiro sobrando.

Ciro não ganha nada com este tipo de discurso, a não ser a simpatia dos funcionários públicos, que têm outras preferências eleitorais. O candidato também fez sobrancelhas se erguerem ao se manifestar em relação à dívida interna: disse que metade do orçamento estatal era “dinheiro para banqueiro”, já que seria utilizado na rolagem dos títulos públicos. Para começar a discussão, a conta de Ciro soma uma variável duas vezes e isso acaba criando distorções (podemos voltar a esse assunto outro dia, embora tenhamos de fato um gasto público exorbitante com juros da dívida, fruto do tamanho das despesas estatais).

Além disso, a dívida pública não é rolada apenas pelos bancos. Cerca de 25 % dos papéis do governo estão nas carteiras dos fundos de previdência privada (que têm pessoas físicas como cotistas). Precisamos lembrar igualmente que temos cerca de 1,5 milhão de investidores individuais no chamado Tesouro Direto e que esses aplicadores também ajudam o país a rolar seus débitos.

De qualquer forma, essas opiniões foram manifestadas na campanha passada. Em 2022, o Ciro 2.0 deve vir com uma plataforma econômica diferente.

Para retomar a credibilidade junto à comunidade empresarial, Ciro já escalou o economista Paulo Rabello de Castro, alguém que conhece bem as contas públicas e tem um plano para reduzir o serviço da dívida, que passa pelo corte puro e simples de despesas entre 7 % e 10 % do total. Paulo Rabello pode ser o Paulo Guedes do ex-ministro, que o ajudaria a fazer uma ponte com o empresariado. Ele é uma voz que defende a economia de mercado e o equilíbrio fiscal.

Para se viabilizar como candidato de centro, Ciro Gomes terá também de navegar com desenvoltura pelo universo do comportamento da população brasileira e ter um discurso afinado com a maioria em relação ao combate da pandemia. Sobre a Covid-19, ele está alinhado com a defesa da vacinação desde 2020. Mas, no passado, andou escorregando na questão comportamental. Já fez comentários que poderiam ser interpretados nos dias de hoje como homofóbicos, machistas ou mesmo racistas.

Ciro, no entanto, tem a seu favor a aquisição de um marqueteiro que é bastante competente na linguagem emocional e acolhedora, o jornalista João Santana (vamos esquecer por um instante que ele foi um dos réus na Lava-Jato – trata-se de um redator de campanhas altamente qualificado e reconhecido até por adversários políticos).

Ciro é carismático, inteligente e possui uma retórica magnética. Em tese, essas características o beneficiam como um postulante que não passará em branco junto aos eleitores. No entanto, a dúvida que resta é: apesar da colaboração de Santana, um político de pavio tão curto como Ciro vai conseguir vender uma imagem de conciliador, afável e acolhedor?

O cenário está aberto e ele pode ser o vencedor em 2022. Mas, definitivamente, o perfil dele está longe de ser o de um Joe Biden brasileiro.

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