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O que deseja o pessoal da “intervenção militar”?

Na chamada extrema direita, há os extremistas do extremo. São aqueles que saem nas manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro com faixas pedindo uma intervenção militar. Alguns chegam a dizer que este tipo de golpe de estado teria apoio na Constituição, o que é uma tremenda balela. Mas, ontem, até o mandatário manifestou sua estranheza sobre o teor dessas faixas. “Para que intervenção militar se sou o presidente?”, questionou Bolsonaro. “É a esquerda que faz essa faixa, só pode ser. Mas para que intervenção militar se já sou presidente? Sou capitão do exército”.

Evidentemente, a chance de a esquerda se infiltrar nos atos públicos que se solidarizam ao governo é mínima. Quem porta esses estandartes é um grupo que deseja uma ditadura militar, com a manutenção de Bolsonaro no poder.

Há apoiadores do presidente que são defensores da democracia – mas há outros que preferem o fim das liberdades democráticas e um regime de exceção para que não se discuta mais o que é certo ou que é errado no país. É a turma que prega um Estado turbinado pelos AI-5 da vida, que despreza o rito democrático porque quer impor suas ideias, valores e, muitas vezes, preconceitos.

O comportamento desses militantes extremistas não deixa de ser curioso. Há vários nesse ajuntamento que não eram nem nascidos na época da ditadura militar, mas têm uma espécie de nostalgia daquilo que não viveram. Sonham com um regime autoritário porque acreditam que uma ditadura vai defender seus pontos de vista e descer o sarrafo em quem pensa de forma diferente.

Porém, sabe-se como o autoritarismo começa, muitos poucos conseguem adivinhar a maneira através da qual ele termina. Neste processo, porém, uma coisa é certa: na arbitrariedade sempre há trevas, pois a autoridade está infestada por aqueles que acreditam na violência como única forma de se governar. No ato de assinatura do AI-5, por exemplo, o vice Pedro Aleixo manifestou sua preocupação ao presidente Arthur da Costa e Silva sobre o que viria pela frente. O general perguntou: “Você não confia em mim?”. Aleixo retrucou: “No senhor eu confio; eu não confio é no guarda da esquina”.

Este diálogo pode não ser verdadeiro e pertencer ao folclore político brasileiro. Mas revela se forma direta o que ocorre nos regimes de exceção. O autoritarismo vai passando por todas as hierarquias do poder, chegando até os soldados rasos e guardas de trânsito. E o que é pior: como não há democracia, todos são um alvo em potencial do Estado. Cidadãos de bem, por exemplo, podem ter inimigos que pertencem ao círculo íntimo do poder. É o suficiente para que essas indivíduos sejam perseguidos ou colocados nos calabouços de praxe.

Ditaduras são ditaduras e muitas vezes dão guinadas de acordo com os interesses de seus comandantes. Mas o que os extremistas de hoje querem é que Bolsonaro reine sem ter de se incomodar com o Supremo Tribunal Federal e com o Congresso Nacional. Na prática, a ideia é tirar as pedras no sapato que comandam os demais poderes da República, o Judiciário e o Legislativo.

Os representantes desses poderes são ruins? Possivelmente. Mas foi o voto popular quem os colocou lá. No caso dos parlamentares, o voto direto que se repete de quatro em quatro anos. Já em relação ao Judiciário, quem escolhe os ministros é o presidente da República, colocado no Palácio do Planalto pelo povo. Neste particular, um dos esportes favoritos dos brasileiros é falar mal dos ministros do STF. Nem aquele que foi escolhido por Bolsonaro, Kassio Nunes, escapa das críticas – e sofre apupos até mesmo vindos da direita.

O que pensam as Forças Armadas sobre essa obsessão que certos extremistas têm com a intervenção militar? Os militares de hoje são calejados pelo desgaste vivido pelos fardados nos últimos anos de ditadura, quando tivemos economia estagnada, inflação em alta e dívida externa impagável. Generais, almirantes e brigadeiros têm a noção de que a função das Forças Armadas é proteger o país e defender a Constituição – e não possuem ânimo para pretensões golpistas. A elite das Forças Armadas tem mostrado independência em relação ao governo e fidelidade à democracia. O exemplo mais recente foi o depoimento do presidente da Anvisa, o contra-almirante da ativa Antonio Barra Torres, à CPI da Pandemia. Ele fez questão de mostrar opiniões diferentes das do presidente Bolsonaro e foi o responsável por barrar uma eventual mudança na bula da cloroquina (para indicar a droga no combate à Covid-19). Este é o espírito corrente nas Forças Armadas, que rejeitam a ideia de intervenção no governo, seja ele liderado por um capitão ou por um civil.

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