PATROCINADORES

O mundo precisa de Malala, Waris, Nojood e Maria da Penha

O sofrimento das ucranianas é o mais recente aos olhos da opinião pública. Ainda bem que existem mulheres extraordinárias

Agora, exatamente, em todos os cantos e nações do mundo, uma mulher está sendo agredida, menosprezada e obrigada a fazer o que não deseja em nome das vontades de alguma figura masculina dominante que age, na maioria dos casos, com aval da sociedade em que vive. Não é preciso viajar à Ucrânia, mas de lá surgem os casos recentes de maior impacto na opinião pública. Além da misoginia, há o complemento do racismo. Estudantes estrangeiras, mães imigrantes e refugiadas de outras guerras no Oriente Médio e África são impedidas de embarcar nos trens que levam civis às fronteiras europeias. No conflito entre russos e ucranianos, as mulheres e suas crianças, principalmente as de peles mais escuras estão no nível mais baixo da degradação, ampliando a precariedariedade de uma condição que já é de tragédia humanitária.

Há situações piores mundo afora, mesmo onde não ocorrem conflitos militares abertos. As ucranianas são apenas as vítimas da vez. Uma das imagens do painel abaixo, divulgada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mostra apenas mulheres atravessando um posto de fronteira. Dos 44 milhões de ucranianos, mais de 2 milhões já fugiram após 15 dias de conflito. Desses, 70% são mulheres e crianças.

Refugiadas

Entre todas as violências, as mais antigas são as sexuais. Em campos de refugiados (no destaque, um no Afeganistão) há relatos de casamentos forçados, estupros coletivos e mutilações. Mas não é preciso ir longe. No Norte do Brasil, um pedido por informação em estrada ou venda pode facilmente terminar com um sussurado “Me tira daqui”. O choque da resposta vem seguida de informações: “Meus pais me venderam”, “Ele casou com minha irmã que deixa ele me pegar”, “Quero fugir para estudar”. Sempre seguido de uma tentativa de negociação: “Eu cuido de você e da sua família”, “Eu vou sempre te respeitar” e “Só não vou aceitar se você me bater”. Até para fugir da violência, há submissão e desespero relativamente perto de nossas casas.

Felizmente há histórias que ajudam a mudar o destino de milhões. A paquistanesa Malala Yousafzai, hoje com 25 anos, foi baleada no rosto aos 15 anos por querer estudar e inspirar outras meninas por meio de seu blog. Sofrendo com sequelas, ela insistiu e venceu. Aos 17 foi agraciada com o Nobel da Paz e se tornou um exemplo para milhões de mães e garotas que desejam progredir pelo estudo. A iemenita Nojood Ali foi forçada a casar aos 10 anos de idade com um homem 20 anos mais velho. Estuprada e violentada, ela fugiu e procurou um tribunal, contrariando sua família. Acolhida pela defensora Shada Nasser, ambas mudaram as leis tribais que vigoravam em seu país, que segue devastado por conflitos. Hoje, aos 24 anos, é uma militante contra o casamento forçado nas sociedades muçulmanas. Infelizmente seus planos para estudar não avançaram.

A ex-top model somali Waris Dirie, de 56 anos, teve seus genitais mutilados. Autora de “Flores do deserto“, ela luta contra essa pratica abominável que atinge 98% das mulheres entre 15 e 49 anos na Somália. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef, a Guiné tem o segundo maior índice de mutiladas: 96%. Djibouti e Egito têm, respectivamente, 93% e 91% da população dessa faixa etária afetada. A campanha de Dirie dá resultados lentos. No Sudão, a prática foi proibida, mas enfermeiras e parteiras ainda o fazem em meninas em troca de dinheiro.

Maria da Penha

São histórias tão terríveis e extraordinárias quanto a de Maria da Penha Maia Fernandes, a cearense hoje com 77 anos que lutou para colocar seu marido na cadeia após sucessivas agressões que a deixaram numa cadeira de rodas. Sua jornada forçou a promulgação da Lei Maria da Penha, que pune os perpetradores de violência doméstica e familiar no Brasil. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), há mais de um milhão de casos de violência contra mulheres para serem julgados no Brasil. E todos os dias o noticiário mostra uma moça assassinada por alguém próximo, geralmente um parente ou companheiro rejeitado.

E não há riqueza capaz de gerar proteção suficiente aqui ou em qualquer lugar do mundo. Filha de uma família próspera, a paquistanesa Noor Muqaddam, de 27 anos, foi assassinada e decapitada em 2017, após ser matida em cativeiro, espancada e estuprada por Zahir Zakir Jaffer, um conhecido de sua família a qual ela teria rejeitado. Condenado, ele será decapitado.

No Brasil, apesar de tudo, as coisas mudam para melhor. Aos poucos, a sociedade e as autoridades estão mais atentas. Toda a semana são divulgadas gravações de mulheres que ligam à polícia com denúncias, enquanto fingem fazer um pedido de comida delivery – é o pizza denúncia, na gíria da PM. Em bares e restaurantes, mostrar um x na palma da mão aos atendentes é um código que funciona e costuma terminar com uma viatura na porta do estabelecimento para levar o sujeito até uma delegacia. Mas ainda falta muito. Há tantos casos em que as vítimas sequer percebem que são agredidas, pois os ataques e abusos também podem ser psicológicos, patrimoniais e morais. Ainda precisamos. A caminhada será lenta e dolorosa, mas libertadora.

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