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O Congresso com um pé em cada canoa

Aluizio Falcão Filho
17 de junho de 2025

O Congresso Nacional, hoje, é uma casa com um pé em cada canoa. Em primeiro lugar, está no governo e na oposição ao mesmo tempo. Há partidos que apoiam o Planalto, controlam ministérios, mas não garantem a aprovação das medidas desenhadas pela equipe econômica. É o que os editorialistas do jornal “O Estado de S. Paulo” chamam de “governismo de oposição”. Essa dualidade, diga-se, não é necessariamente ruim para o país. Em casos como o recente pacote fiscal, a revolta dos parlamentares foi até boa, já que forçou o Executivo a sair de sua zona de conforto, querendo apenas arrecadar mais com a majoração de tributos.

Mas não é apenas nesta questão em que reside a dualidade dos congressistas. Deputados e senadores falam que o governo precisa ter responsabilidade fiscal e gastar menos – o que é a pura e indiscutível verdade. Mas, de outro lado, o Parlamento não está disposto a abrir mão das verbas que distribui através das chamadas emendas de relator. Ou das novas vagas de deputados que a Câmara Federal acaba de criar. Ou dos supersalários que existem em determinados cargos na burocracia da Câmara e do Senado.

É preciso ter coerência. Se o discurso dos parlamentares está calcado em moderação nos gastos públicos, esse mote não deve valer apenas para o Poder Executivo, mas também para o Legislativo e para o Judiciário. Portanto, não se pode falar em tolher o déficit público através de um torniquete que funciona apenas na máquina federal. Os congressistas precisam também dar o exemplo.

No centro dessa discussão está o presidente da Câmara, Hugo Motta. Nas últimas semanas, ele parece ter trocado de personalidade. Antes, poderia ser visto como um colaborador do governo. Nos últimos dias, porém, está usando um discurso oposicionista.

No passado recente, vimos dois tipos de presidentes da Câmara se revezando no poder: aqueles que dizem aos deputados o que eles precisam fazer e os que dão ao grupo aquilo que eles querem. O primeiro tipo é um líder; o segundo é um porta-voz. Motta se assemelha mais à segunda categoria, pois está simplesmente seguindo o clamor do Baixo Clero.

Aqui está um dos grandes problemas políticos do Brasil – o poder que emana da união dos deputados sem grande expressão. Um dos primeiros sinais dessa força pôde ser vista ainda no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, quando um deputado inexpressivo e visivelmente despreparado chegou à presidência da Câmara em 2005: Severino Cavalcanti foi eleito porque o Baixo Clero se revoltou contra a candidatura de Luiz Eduardo Greenhalg, patrocinada por Lula.

Cavalcanti renunciou ao cargo após sete meses, alquebrado por denúncias de corrupção. De lá para cá, nenhum presidente da Câmara foi eleito sem um entendimento prévio com o grupo que surgiu do congraçamento de forças destes parlamentares baixocleristas, o Centrão.

O Centrão não tem exatamente uma linha ideológica clara, embora esteja mais alinhado ao conservadorismo. Mas já se emparelhou a governos de esquerda, com o PT, de centro, como o de Michel Temer, e de direita, como o de Jair Bolsonaro. Os centristas têm um instinto de sobrevivência agudo e procuram sempre turbinar as próprias verbas, sem exatamente uma preocupação com os gastos públicos.

Portanto, esse súbito interesse pela responsabilidade fiscal tem outra razão do que uma eventual vocação para o liberalismo. Qualquer que seja esse motivo, no entanto, é preciso dar o exemplo – e oferecer algum corte na própria carne em vez de exigir medidas de economia apenas do Executivo. A regra deve valer para todos. Chega de viver sob o estigma de “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

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Comentários

Uma resposta

  1. Perfeito, caro Aluízio. Temos, hoje, infelizmente – tiradas as devidas (e poucas) exceções – o pior conjunto de políticos. Gente com baixa formação intelectual, cultural e, em alguns casos, até cognitiva. A ignorância, má fé e pouca consonância com a importância de seus cargos é assustadora, deprimente e totalmente desanimadora. Percebe-se, facilmente, que o volume de políticos despreparados para discutir, com isenção, temas importantes para o país é muito grande. Não são poucos os que estão ali para se escudarem na abjeta “imunidade parlamentar”. Ou para “mamar nas benesses” , verbas, emendas, etc. Patriotismo efetivo é algo completamente fora do cardápio. Salvo de alguns demagogos oportunistas. Vivemos, seguramente, um dos piores e mais tóxicos momentos da nossa política. E, com isso, nosso país, mais uma vez, vai perdendo o trem da história e a oportunidade de crescer de forma efetiva, de “arrumar a casa”, de gastar com o que realmente precisa ser gasto. O problema é que, além de tudo, a “miséria” está em todas as camadas sociais deste país. Assim como tem muita gente que prefere ficar recebendo a esmola do Bolsa Família e não trabalhar, tem muita gente da ponta da pirâmide que cobra que se mexa em benefícios, diminua impostos, DESDE QUE ninguém mexa “no deles”. Fora outras tantas mazelas que só fazem este nosso Brasil “patinar, patinar, sem sair do lugar”. A real é que estamos extremamente carentes de “patriotas de verdade”, que estejam preocupados com o futuro dos nossos filhos e netos.

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