O debate da TV Globo seguirá uma dinâmica muito parecida com o que vimos na TV Bandeirantes: os candidatos poderão administrar o próprio tempo em todos os quatro blocos. Serão dois segmentos com temas livres (um perguntando para o outro) e mais dois com assuntos definidos e sorteados pelo âncora, William Bonner.
Esse esquema leva ao extremo a fórmula criada pelo diretor de jornalismo da Band, Fernando Mitre, a estendendo por toda a transmissão. Como vimos duas semanas atrás, o confronto direto trouxe emoção ao programa, mas também provocou um festival de reclamações: os dois candidatos chamaram o oponente de mentiroso várias vezes.
Diante disso, teremos mais propostas ou ataques?
Provavelmente os ataques vão prevalecer durante duas horas, já que a provocação será a tônica dos confrontos. Neste aspecto, quem conseguir desviar rapidamente das balas adversárias e encaixar suas ideias vai seguramente sair ganhando. O desafio, no entanto, será justamente não cair na pressão do concorrente.
Isso pôde ser visto claramente no debate anterior. Jair Bolsonaro cutucou Luiz Inácio Lula da Silva seguidas vezes sobre corrupção. Lula, por sua vez, não percebeu que estava gastando seu tempo além da conta e queimou rapidamente sua participação em um determinado bloco. Bolsonaro, então, teve mais de cinco minutos para descer a lenha no oponente sem interrupções.
É de se esperar, assim, que Lula não caia na mesma armadilha e faça uma gestão de tempo melhor que a anterior. Para isso, terá de seguir a orientação dos assessores de marketing, que passaram boa parte da véspera do debate da Band o preparando para eventuais saias justas. Na hora H, porém, o petista foi ficando irritado e não percebeu a arapuca na qual estava se metendo. Desta vez, ele tem obrigação de se preocupar com este pormenor, pois todos os blocos funcionarão com os candidatos gerindo os minutos que têm à disposição.
Na sexta-feira, os partidos também terão uma ideia mais clara de dois temas importantes para a estratégia a ser adotada durante o programa.
O primeiro é se o surto do ex-deputado Roberto Jefferson teve mesmo algum efeito sobre a candidatura do presidente Bolsonaro. Ele rapidamente disse que Jefferson, diante dos tiros desferidos em direção à Polícia Federal, merecia um tratamento de bandido. E negou proximidade com o líder petebista. “Nem foto comigo tem”, afirmou. Nos dias seguintes, contudo, os órgãos de imprensa publicaram muitas fotografias com os dois e dissecaram o relacionamento da dupla.
Outro ponto será uma visão mais clara do que dizem as pesquisas. Há enquetes que mostram um crescimento de Bolsonaro (algo que vem sendo captado por trackings diários do PL) e outras não. Mas todos os estudos parecem mostrar que Lula cresceu entre o primeiro e segundo turnos, mas ficou um tanto estagnado após esse crescimento inicial. Terá o petista batido em um teto eleitoral?
Diante dessas duas questões, os candidatos poderão traçar estratégias e criar formas de atingir o adversário. Dois pontos são esperados de Bolsonaro: ele tentará se posicionar ao lado de Lula sempre que possível para ressaltar a diferença de altura entre os dois – algo que seu comando de campanha parece achar importante. Outra questão é que ele vai apostar firme nas acusações de corrupção para desestabilizar o adversário.
O ex-presidente, por sua vez, vai privilegiar novamente as questões envolvendo a pandemia e, dependendo do furor gerado pelo episódio de domingo, falar bastante sobre a ligação entre Roberto Jefferson e Bolsonaro.
Quem vai ganhar? Se insistirem em bater muito, acusando o adversário de mentiroso, uma coisa é certa: os eleitores ficarão cansados. E, aí, nem Lula nem Bolsonaro podem vencer o debate.
