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Nem tudo é o que parece no jornalismo

Aluizio Falcão Filho
18 de setembro de 2022

Nos anos 1980 (ou nos 1990 – confesso que não me lembro ao certo), a revista Time publicou uma extensa reportagem sobre canhotos. No texto, se explorava habilidades que aqueles que escrevem com a mão esquerda teriam a mais que os destros – e também o contrário. Na reportagem, eram retratados canhotos famosos, como o cientista Albert Einstein e o jogador de baseball Babe Ruth. A matéria também falava do preconceito que havia no passado sobre os “lefties” e uma pretensa ligação entre canhotismo e a magia oculta.

Em média, 10 % da população é canhota. Ou seja, aqui no Brasil teríamos hoje um pouco mais de 20 milhões de pessoas com essa condição. Nos Estados Unidos, em 1989, havia cerca de 250 milhões de habitantes (hoje são em torno de 300 milhões). Portanto, teríamos entre as décadas de 1980 e 1990 cerca de 25 milhões de pessoas que usam a mão esquerda em vez da direita.

A matéria foi mal-recebida entre a comunidade “leftie”. A redação de Time recebeu várias cartas criticando o texto, acusando-o de preconceituoso contra os canhotos de propagar lugares-comuns sobre essas pessoas. Provavelmente, a maioria dos autores das missivas encaminhadas à revista era formada por canhotos que se sentiram atingidos pela reportagem, dizendo que o texto apenas disseminava uma visão errônea sobre o canhotismo e prejudicava a imagem dos “lefties”.

Na semana seguinte, a revista publicou algumas das correspondências em sua seção de cartas, que reclamavam contra a visão distorcida e preconceituosa de quem havia escrito a reportagem. Abaixo dessas cartas raivosas, a resposta da revista era uma fotografia do jornalista que tinha sido autor do texto: ele aparecia vestido para jogar tênis. Com um detalhe: a raquete repousava na mão esquerda do repórter – uma maneira sutil de dizer que o autor da matéria era canhoto..

Alguns anos atrás, quando dirigia a revista Época, confesso que tinha um prazer secreto: falar mal do presidente da Câmara, cargo ocupado pelo deputado Severino Cavalcanti. Político folclórico e muito prolífico em falar coisas sem pé nem cabeça, Cavalcanti era uma vítima perfeita, não só por conta das idiotices que falava, mas também pela enorme quantidade semanal de sandices que saíam de sua boca.

Depois de publicar uma reportagem de capa sobre esse político, recebemos inúmeras cartas. Todas criticavam o texto que havia publicado na seção “Carta ao Leitor”. Para esses leitores, a minha visão era errada e cheia de preconceitos contra um nordestino, como Cavalcanti. “Visão típica de um paulistano dos Jardins”, escreveu um dos críticos.

Lembrei-me daquela matéria sobre os personagens canhotos e da foto do jornalista segurando uma raquete com a mão esquerda. Publicamos algumas cartas que acusavam o signatário de preconceito contra nordestinos. Abaixo de quatro cartas que repetiam essa ladainha (que minha implicância com Severino era prejulgamento de sulista), publiquei o seguinte: “Aluizio Falcão Filho, diretor de redação de ÉPOCA, nasceu na maternidade do Derby, em Recife, Pernambuco”.

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