As eleições de 1982 foram estaduais. E, em São Paulo, ficaram polarizadas (para usar um termo que não estava na moda no início dos anos 1980) entre o senador André Franco Montoro (imagem) e o ex-prefeito Reynaldo de Barros. As forças que se antepunham, na época, eram o PMDB de Montoro e o PDS (ex-Arena) de Reynaldão.
O país estava em processo de redemocratização, embora ainda vivesse sob o regime militar. Havia muita expectativa em torno daquele pleito. Afinal, durante o regime de exceção, os governadores eram escolhidos pelo presidente da República e referendados pelas assembleias legislativas. Uma revista semanal capturou esse interesse nacional e trouxe uma reportagem de capa em janeiro daquele ano com os dizeres: “Os governadores do PMDB”. Na foto, os senadores Montoro, Marcos Freire (Pernambuco) e Pedro Simon (Rio Grande do Sul).
Freire e Simon foram derrotados, mas Montoro venceu e ali estabeleceu as bases de poder paulista que se estenderam por governos tucanos como Mario Covas e Geraldo Alckmin (recentemente, João Doria e Rodrigo Garcia). Houve um hiato com Orestes Quércia e Luiz Fernando Fleury, é verdade, mas foi o senador a primeira semente do PSDB no estado. Ele seria reconhecido como um político que colocou a democracia e os partidos nos quais atual à frente da vaidade.
Lembro de um comício no Vale do Anhangabaú, de encerramento dessa campanha. O público estava exaltado. Montoro entrou por último e foi esfriando a massa, pois receava alguma intervenção da polícia militar, sob controle do governador Paulo Maluf. Movimentando as mãos para baixo como se quisesse acalmar a multidão, disse que as pesquisas garantiam a sua vitória (o que de fato aconteceu) e que faria um governo democrático ao Palácio dos Bandeirantes, em uma fala monótona, com tom de voz monocórdio. Somente depois de empossado é que explicou o anticlímax provocado por ele no último comício de campanha.
A emoção que senti quando marquei um X na cédula foi intensa. Era como se a minha vida adulta, de fato, começasse naquele momento – e que a democracia, até então uma esperança, seria uma realidade daqui para frente. Só iria votar para presidente seis anos mais tarde. Mas aquela sensação de dever democrático cumprido foi inesquecível.
Winston Churchill disse que “a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as demais formas que têm sido experimentadas ao longo da história”. Portanto, ainda não inventaram nada melhor que o voto direto. Às vezes, a maioria concorda conosco. Em outras ocasiões, não. Quando estamos em maioria, a sensação é fantástica. Mas nem sempre isso acontece – e precisamos aceitar o resultado da vontade popular.
Hoje, é um dia especial. Vá à seção eleitoral e exerça seu direito de eleitor. Ajude a escolher o presidente da República. Não se omita – ajude a democracia.
