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Lula vai do estadista ao populista no mesmo discurso

André Vargas
10 de março de 2021

Poderia ter sido mais breve. Em seu primeiro pronunciamento público transmitido ao vivo em mais de cinco anos, a partir da sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o ex-presidente Lula começou em tom comedido e escorregou para um discurso populista de teor nacionalista e intervencionista na economia. Ele também foi revanchista contra a imprensa, o ex-juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava-Jato, depois que suas condenações foram anuladas, na segunda-feira (10), o que obrigará novos julgamentos. Ele se diz alvo da “maior mentira jurídica contada em 500 anos de história [do Brasil]”. Mas omite que as anulações são provas cabais que seu direito de defesa se manteve.

De saída, passou álcool em gel nas mãos e explicou que estava distante dos demais, o que lhe permitia tirar a máscara. Na primeira parte, criticou pesadamente o presidente Jair Bolsonaro pela condução da crise da pandemia. “Não é saber se tem dinheiro ou não [para vacinas]. É saber se ama a vida ou a morte”, disse. A seguir, direcionou mensagens e agradecimentos a líderes internacionais, como o papa Francisco, o presidente argentino Alberto Fernández, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, o democrata americano Bernie Sanders, e o ex-presidente boliviano, Evo Morales.

Foi o lado estadista e conciliador. Lula disse que o Brasil precisa se reconectar ao mundo para voltar a crescer. Acenou para policiais, afirmando que são eles quem precisam de armas para enfrentar a criminalidade e agradeceu ao profissionais da saúde.

A seguir, na parte mais longa do pronunciamento, atacou os Estados Unidos de Trump, o liberalismo econômico, a livre concorrência, a grande imprensa – novamente -, a alta dos combustíveis, os ministros Paulo Guedes e Eduardo Pazuello, o isolamento diplomático que o país vive e explicou que foi vítima de um complô que transformou o ex-juiz Moro e o procurador Deltan Dallagnol em heróis. Também questionou o ministro Edson Fachin por ter demorado tanto tempo para analisar os argumentos de sua defesa.

Ao empresariado, reservou pouco tempo, afirmando que quando governava, havia diálogo aberto, o que não ocorre mais, ocasionando problemas como a saída da Ford do Brasil. No campo político, defendeu a criação de uma frente de partidos de esquerda nas eleições presidenciais de 2022 – mas teve o cuidado de não se apresentar como pré-candidato.

A questão que fica é onde ele está de fato, caso seja inocentado nos novos julgamentos – se ocorrerem antes das eleições.

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