Na abertura da 67ª Cúpula do Mercosul, presidente brasileiro defende multilateralismo, cobra regras internacionais e expõe divergências com Javier Milei sobre a crise venezuelana
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu neste sábado (20), em Foz do Iguaçu (PR), a 67ª Cúpula dos Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados com um discurso marcado por alertas geopolíticos, defesa da democracia e críticas ao avanço de forças militares na América do Sul. A reunião contou com a presença dos presidentes Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai) e Yamandú Orsi (Uruguai), e marcou a transferência da presidência pro tempore do bloco do Brasil para o Paraguai.
Em cerca de dez minutos de fala, Lula citou avanços obtidos no último semestre, mas concentrou-se em temas sensíveis: a tensão entre Estados Unidos e Venezuela, a defesa do multilateralismo e o adiamento da assinatura do acordo comercial com a União Europeia. O pacto, que criaria um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, foi postergado para janeiro a pedido da Itália, que busca salvaguardas para seu agronegócio.
Apesar da frustração com o adiamento, Lula afirmou que o Mercosul seguirá ampliando negociações. “Diversificar parcerias é chave para a resiliência da economia”, disse, destacando que o bloco conduz mais de dez tratativas comerciais que podem avançar durante a presidência paraguaia.
Venezuela e segurança regional
A crise entre Estados Unidos e Venezuela dominou parte do discurso. Sem citar diretamente Washington, Lula afirmou que a soberania dos países é ameaçada por “guerras, forças antidemocráticas e crime organizado”, não pela integração regional. Ele comparou o momento atual à Guerra das Malvinas, nos anos 1980, e alertou para o risco de uma intervenção armada. “Os limites do direito internacional estão sendo testados. Uma intervenção na Venezuela seria uma catástrofe humanitária e um precedente perigoso para o mundo”, afirmou.
Democracia, crime organizado e feminicídio
Ao abordar democracia, Lula citou a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 no Brasil como exemplo de resistência institucional. Defendeu cooperação regional contra o crime organizado transnacional, com ações conjuntas contra o tráfico de drogas e recuperação de ativos ilícitos. “A liberdade é a primeira vítima de um mundo sem regras”, disse, ao anunciar a proposta de um encontro entre ministros da Justiça e da Segurança Pública da região.
O presidente também destacou o avanço do feminicídio na América Latina. Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a região registra, em média, 11 assassinatos de mulheres por dia, sendo a mais letal do mundo para mulheres.
Divergência com Milei
As tensões ficaram evidentes após a fala de Lula. Em seu discurso, Milei elogiou a “pressão” dos Estados Unidos sobre a Venezuela e classificou o governo de Nicolás Maduro como uma “ditadura atroz e inumana”. “O tempo da timidez acabou”, afirmou o presidente argentino, alinhando-se ao discurso do presidente dos EUA, Donald Trump.
O contraste também apareceu no protocolo: o cumprimento entre Lula e Milei foi breve e frio, em comparação ao gesto caloroso do brasileiro com Santiago Peña, que assume a presidência rotativa do Mercosul em janeiro.
🇦🇷🇧🇷 | El frío saludo entre Lula da Silva y Javier Milei en la cumbre del Mercosur.
— Alerta News 24 (@AlertaNews24) December 20, 2025
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