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Henrique Meirelles será o José Alencar 2.0?

Nesta semana, circularam boatos de que Henrique Meirelles, secretário de Fazenda de São Paulo, é cogitado para ser o companheiro de chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Esta seria a forma de tentar deixar Lula mais palatável aos eleitores de Centro e tentar desconstruir a narrativa de que o candidato do PT seria um dos extremos ideológicos no próximo pleito.

Tratar-se-ia, como diria o ex-presidente Michel Temer (um vice que ascendeu ao poder), da reedição do truque já utilizado em 2002, quando o PT colocou o empresário José Alencar para ocupar o segundo posto da chapa presidencial. Dono de uma grande indústria têxtil, a Coteminas, Alencar foi o fiador, durante a campanha, de que os petistas, uma vez no poder, não promoveriam nenhuma aventura socialista, como prometia a “Carta aos Brasileiros”.

Já eleito, Lula percebeu que precisaria elevar seu cacife junto ao empresariado e ao mercado financeiro. Foi neste momento que entrou em campo Meirelles, recém-consagrado nas urnas goianas como o deputado federal mais votado do estado. Lula o convidou para assumir a presidência do Banco Central. Meirelles aceitou o convite e teve de renunciar a seu mandato legislativo, ficando oito anos à testa do BC. Neste período, ele conseguiu aplacar os receios do empresariado e pilotou a política monetária com discrição e competência.

Por enquanto, essa possibilidade parece ser um grande balão de ensaio. “Eu trabalhei com o então presidente Lula por oito anos, no período em que o Brasil cresceu de forma extraordinária. Por outro lado, estou trabalhando muito bem com o governador [João] Doria”, disse Meirelles. “Acho que tudo isso é muito prematuro, vai depender, inclusive, da terceira via, do resultado das prévias do PSDB”.

Há um outro detalhe: o ex-ministro é filiado hoje ao PSD. Essa negociação terá de passar por Gilberto Kassab, que já andou conversando com Lula. Enquanto esse suposto namoro não vira noivado ou coisa mais séria, a versão oficial é a de que o titular da Fazenda paulista será candidato ao Senado por Goiás, seu estado natal.

Meirelles, se aceitar a vice de Lula, poderia acalmar um mercado traumatizado pela gestão de Dilma Rousseff, de uma inépcia ímpar na condução econômica. Ele representaria a promessa de que o PT respeitaria as regras de mercado e não enveredaria pela heterodoxia fazendária. Além disso, poderia ajudar a recuperar a imagem do petista lá fora, seriamente arranhada pelas denúncias de corrupção que foram escancaradas pela Operação Lava-Jato.

Mesmo que possa amainar a desconfiança ou aplacar a rejeição que hoje reinam entre a elite econômica, a eventual adesão de Henrique Meirelles dificilmente teria efeitos práticos em relação à má imagem que resultou do apetite do PT por propinas e caixa dois.

A esse ponto, soma-se outro – o de que um vice-presidente não manda nada no governo. Os dois últimos vices que tivermos, Hamilton Mourão e Temer, são exemplos fortes de figuras até admiradas, mas totalmente decorativas. O próprio José Alencar, já falecido, veio a público algumas vezes para se queixar dos juros altos praticados pelo governo e decididos pelo Comitê de Política Monetária (presidido na época por Meirelles, diga-se).

Nos Estados Unidos, o papel de vice não se restringe a alguém que fica apenas no banco de reservas, como ocorre no Brasil. Lá, o vice-presidente também é presidente do Senado e, assim, ele tem outras atribuições além de esperar alguma eventualidade para calçar as chuteiras.

Ao contrário da tradição americana, aquele que ocupa a vice-presidência no Brasil raramente é sucessor do mandatário. Por aqui, o cargo de vice é preenchido para estabelecer algum tipo de contrapartida na composição do jogo político ou então se criar uma combinação regional de forças.

Se, nos estados, vemos com frequência um vice suceder o governador, no âmbito nacional isso quase não ocorre. Nos últimos anos, inclusive, houve duas ocasiões em que o vice chegou ao poder, com Itamar Franco e Michel Temer. Mas os dois ascenderam por conta de processos de impeachment contra os titulares originais, Fernando Colllor e Dilma.

Diante desta possibilidade, ficam algumas dúvidas: Henrique Meirelles deixará o ninho de João Doria para se abrigar nas hostes petistas? Haverá alguma possibilidade de entendimento entre o governador paulista e o ex-presidente Lula? Doria permanecerá no PSDB se perder as prévias presidenciais?

Não deixa de ser irônico. O cenário político parece estar, para muitos, definido entre o presidente Jair Bolsonaro e Lula. Mas vivemos um panorama no qual imperam as dúvidas e os movimentos de certas peças no tabuleiro é acompanhado com um interesse descomunal.

Esses nós não serão desatados tão cedo. Portanto, sejamos pacientes.

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