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Doria não terá vida fácil no PSDB

O PSDB, ontem, mostrou que não vai facilitar a vida de João Doria e deve atrapalhar seu sonho de ser candidato à presidência da República. A executiva nacional do partido rejeitou a proposta do governador para as prévias que decidirão o nome da agremiação para concorrer ao Planalto. A ideia de Doria era igualar o peso do voto de todos filiados do partido. Contudo, pelas regras aprovadas, os filiados representarão 25 % dos votos. Os 75 % restantes virão de deputados estaduais e federais, senadores, prefeitos, vice-prefeitos, governadores e vices, além de ex-presidentes e dirigentes partidários.

Esta decisão nos leva a algumas conclusões.

Em primeiro lugar, é possível perceber que Doria controla apenas cerca de um terço da Executiva, uma vez que sua proposta foi derrotada por 21 votos a 11. Caso seu projeto tivesse sido aprovado e todos os votos das prévias tivessem o mesmo peso, ele poderia se considerar candidato tucano por antecipação, pois os paulistas são a maioria entre todos os filiados. Mas percebe-se que há uma má vontade dentro do PSDB em relação ao governador paulista. A Executiva votou alinhada com o que propuseram o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o senador Tasso Jereissatti – os rivais diretos do atual ocupante do Palácio dos Bandeirantes.

Isso quer dizer que Doria perderá as prévias? Não necessariamente. Daqui a novembro, muita água vai rolar – e o governador paulista ainda poderá convencer os filiados de que ele é o melhor candidato à presidência.

Ao mesmo tempo, essa decisão reforça a ideia de que o PSDB é um partido elitista. Ao conferir pesos diferentes aos seus delegados nas prévias, os tucanos passam a ideia ao público de que há filiados de primeira e de segunda classe – pompa e circunstância, assim, somente para quem exerce mandato ou estão no Olimpo tucano. Para os demais, a lei.

Nos Estados Unidos, existe no Partido Democrata a figura do superdelegado. Este é o nome dos filiados que detém mandatos ou possuem cargos de direção na agremiação. O que os diferencia dos delegados normais? Eles podem votar em quem bem entender para escolher o candidato dos democratas. Já os delegados comuns têm de seguir as determinações feitas pelas convenções estaduais e municipais. Só que, na hora de somar os resultados dos pré-candidatos, cada voto vale um voto, vindo ou não dos superdelegados.

No fundo, a maioria dos caciques tucanos parece não acreditar no potencial de João Doria, embora o governador seja, hoje, o nome que mais antagoniza com o presidente Jair Bolsonaro e que, no passado, também fez severas críticas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além disso, Doria tem uma narrativa nacional muito simples de entender – a sua luta pela vacinação em massa no Brasil.

Apesar disso – especialmente quando observamos que o presidente Bolsonaro durante muito tempo apostou em um discurso anti-vacina – o governador não consegue deslanchar nas pesquisas. Seu nome não está entre os primeiros colocados nas pesquisas e mesmo entre os candidatos alinhados com o Centro não exerce nenhuma liderança.

Quem está dentro das entranhas peessedebistas acredita que Doria angariou a antipatia da máquina tucana porque atropelou, no passado, Geraldo Alckmin e já tentou obter mais poder junto ao partido através de manobras rejeitadas pelos mandachuvas do PSDB.

A estratégia do governador, daqui para frente, será a de ofuscar Tasso e Leite e se viabilizar como o único nome capaz de fazer sombra a Bolsonaro, Lula e Ciro. Conseguirá? Talvez ainda seja cedo para julgar. Mas a data limite já está marcada: 21 de novembro, quando ocorrem as prévias tucanas.

O governador vai apostar na linha Margaret Thatcher, que não fazia questão de ser querida nem pelos assessores mais próximos (foi por conta deste comportamento, aliás, que seu mandato como primeira-ministra terminou antes da hora, por decisão do próprio partido). Ela dizia: “Se você quer ser gostado, tem de se preparar para ceder em qualquer coisa e em qualquer momento. E, desse jeito, corre o risco de não conquistar nada”.

Se Doria perder a indicação, haverá tempo suficiente para ele se dirigir à porta da rua e buscar abrigo em outra sigla. Isso mexerá com as forças partidárias, provocará negociações e interferirá na sucessão ao Bandeirantes. O governador teria coragem de procurar um partido menor para satisfazer seu apetite presidencial?

Ser candidato à presidência pelo PSDB, tirando o caso de Fernando Henrique Cardoso, nunca foi tarefa simples. Mesmo sem disputas na convenção, o partido sempre mostrou suas insatisfações nas entrelinhas em relação a diversos postulantes ao Planalto. Nota-se, aqui, uma mudança significativa. O jogo de rejeição a Doria é pelo menos praticado às claras, sem fingimentos ou dissimulações. Resta ao governador paulista analisar profundamente seus adversários, deixar o orgulho de lado e conquistar o número necessário de desafetos – se quiser mesmo abiscoitar a indicação tucana.

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