Durante a sessão extraordinária da Câmara dos Deputados para analisar a chamada “PEC da Blindagem” (PEC 3/2021), que trata das prerrogativas parlamentares, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi captado em um instante que diz mais do que páginas de análises políticas. Na fotografia de Lula Marques (Agência Brasil), o deputado aparece em uma expressão que sintetiza dois traços clássicos do fotojornalismo político: quanto mais pressionado um personagem público está, mais ele se torna alvo de registros constrangedores; e quanto mais acuado, mais as feições traem sua situação.
O clique não mostra apenas uma careta involuntária. Mostra um presidente da Câmara que chega ao posto sem prestígio, sem capacidade de articulação, e com dificuldades em imprimir qualquer marca própria ao mandato. Entre os últimos dez anos, só Severino Cavalcanti, em meados dos anos 2000, parece ter ostentado tão pouco peso político à frente da Casa.
O contraste fica evidente ao observar seus antecessores recentes. Eduardo Cunha (2015-2016) comandava com mão de ferro até a queda, quando foi substituído interinamente por Waldir Maranhão. Rodrigo Maia (2016-2021) atravessou três mandatos seguidos, consolidando influência no Congresso e junto ao mercado. Arthur Lira (2021-2025) foi protagonista de articulações decisivas, tornando-se figura central no tabuleiro de poder em Brasília. Hugo Motta, por outro lado, surge como uma figura pendular, cercada por pressões de todos os lados, mas incapaz de conduzir a Câmara em direção própria.
O flagrante desta semana, portanto, não é sobre uma careta. É sobre um retrato político: o de um presidente da Câmara enredado pelas circunstâncias, tentando sobreviver a um cargo que, historicamente, exige mais força do que ele conseguiu demonstrar até agora.
Foto: Lula Marques/Agência Brasil
