Relatório mostra que proporção de alunos com problemas na alfabetização passou de 15,5% em 2019 para 33,8% em 2021
A alfabetização dos brasileiros durante a pandemia de covid-19 pirou, segundo relatório do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A proporção de alunos com problemas de língua portuguesa passou de 15,5% em 2019 para 33,8% em 2021.
O órgão divulgou o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) na sexta-feira (16). O relatório traz indicadores sobre o desempenho de alunos no ano passado. Serve para nortear políticas públicas de redes de ensino em todos os Estados do Brasil.
A organização não governamental Todos pela Educação afirmou em nota que é preciso ter cautela ao considerar a comparação com a série histórica. No ano passado as escolas ainda passavam por um cenário de restrição ao fluxo de alunos, adotando o ensino à distância ou híbrido. Cada rede de ensino teve uma política diferente para a volta às aulas.
Além disso, havia antes uma preparação prévia em mais redes de ensino para fazer a prova. Em 2021, o teste foi mais desigual. A própria comparação nos Estados pode ser problemática por conta das condições de como cada rede escolar lidou com a pandemia.
Os testes foram aplicados entre novembro e dezembro de 2021 em alunos de escolas públicas do ensino fundamental e do ensino médio.
Também houve aplicação de testes de ciências humanas e ciências da natureza para alunos do 9º do ensino fundamental, tanto em escolas públicas quanto privadas. Os resultados são usados pelos governos para adotar políticas públicas que aprimorem a educação do país.
Educação e isolamento social
Mais de 92% das escolas de educação básica do Brasil adotaram estratégias de ensino remoto ou híbrido.
Em 2021, o 2º ano da pandemia, 8,9% das unidades de ensino básico ajustaram a data de término do ano letivo. A porcentagem foi de 43,1% em 2020. Além disso, 72,3% das escolas recorreram à reorganização curricular. Ou seja, fizeram escolhas de qual parte do conteúdo seria ou não ministrada nas salas de aula.
As provas foram aplicadas de 8 de novembro a 10 de dezembro de 2021. Cera de 5,3 milhões de estudantes de 72.000 escolas públicas e privadas participaram.
O diretor de Avaliação da Educação Básica substituto do Ministério da Educação, Rubens Campos de Lacerda Júnior, disse que a adesão foi significativa e “próxima das edições anteriores” do Saeb. A taxa de resposta caiu em 2022 em todos anos avaliados pelo relatório, o 5º ano do ensino fundamental, o 9º ano do ensino fundamental e o ensino médio. O percentual mais baixo foi do ensino médio (61,4%). Caiu 14,2 pontos percentuais em relação ao documento de 2019.

Reprodução/Ministério da Educação
O diretor de Avaliação da Educação Básica substituto do Ministério da Educação, Rubens Campos de Lacerda Júnior, disse que a participação de 76,6% dos alunos de 5º ano do ensino fundamental foi um “sucesso” pelo contexto de pandemia
Língua portuguesa
A pontuação média do aprendizado em língua portuguesa para alunos de 2º ano do ensino fundamental caiu de 750 pontos em 2019 para 725,5 pontos em 2021. Ou seja, 24,5 pontos a menos.

A coordenadora-geral do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica substituta, Clara Machado da Silva Alarcão, disse que a pandemia de covid-19 deixou “lacunas” para a alfabetização. Afirmou que a queda era esperada pelo contexto.
“A gente sabe que, para essa faixa etária, nessa especificidade da alfabetização, essa mediação presencial é especialmente importante”, declarou.
A proporção de alunos com problemas na alfabetização passou de 15,5% em 2019 para 33,8% em 2021. No gráfico abaixo, são considerados alunos com deficit na língua portuguesa aqueles que são dos grupos “nível abaixo de 1” até “nível 2”.

De acordo com o relatório, 8 Estados ficaram acima da média nacional em língua portuguesa: Ceará, Distrito Federal, Espirito Santo, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo.

Matemática
A pontuação média dos alunos de 2º ano também foi pior em matemática. Saiu de 750 pontos em 2019 para 741 pontos em 2021.

Há 14 Estados que ficaram acima da média. Em contrapartida, 9 unidades ficaram distantes da linha média do país: Amapá, Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rio Grande do Norte, Rondônia, Sergipe e Tocantins.

Ideb
O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) varia de 0 a 10 e é calculado de acordo com o desempenho dos alunos no Saeb e a taxa de aprovação.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, o índice caiu de 5,9 em 2019 para 5,8 em 2021. Já no 9º ano do ensino fundamental, avançou de 4,9 para 5,1 no mesmo período. No ensino médio, o Ideb ficou estacionado em 4,2.

O índice não indica que a educação melhorou na pandemia no caso de alunos do fim do ensino fundamental ou piorou no ensino médio.
Parte das escolas adotaram a aprovação automática de alunos na pandemia, o que pode aumentar artificialmente o índice e prejudica a análise de dados do Ideb. Além disso, a porcentagem de alunos que fizeram a avaliação do Saeb foi mais baixa.
A participação de menos estudantes na avaliação do Saeb por conta da pandemia distorce o resultado. Isso porque, eventualmente, os alunos que conseguiram participar das provas são melhores e os que têm menos condições de estudo podem ter ficado de fora dos testes.
A taxa média de insucesso na educação básica é maior no ensino médio. Chegou a 11,9% no 2º ano nas escolas públicas.

Reprodução/Ministério da Educação
Taxa de insucesso (reprovação+abandono) por série/ano nos ensinos fundamental e médio por rede de ensino em 2021
