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A revolta dos isentões

Os moderados têm passado maus bocados nos últimos tempos. Aqueles que não desejam votar nem em Jair Bolsonaro ou em Luiz Inácio Lula da Silva acabam comprando briga com muitos amigos e se irritam o tempo todo. Ou, se ficam quietos, engolem sapos tamanho família quando leem algumas barbaridades postadas nas redes sociais.

Para esses desenturmados políticos, cada passeio digital é um tormento. Apoiadores de Bolsonaro e de Lula os desagradam da mesma forma com comentários enviesados e, não raro, postando fake news. Quando estes eleitores independentes, até de uma forma respeitosa, mostram que uma determinada publicação é falsificada, escutam invariavelmente réplicas fulminantes. Quando não há escapatória diante das provas cabais de que se trata de um fake irrefutável, ouve-se uma frase recorrente: “a fonte pode não ser verdadeira, mas concordo com tudo o que está escrito”.

Para piorar, a maioria desses isentões (resgatando um termo que ficou na moda em 2018) não vê com entusiasmo nenhum candidato que se alinhe com a chamada terceira via. Alguns, inclusive, são admiradores de nomes que parecem estar fora do tabuleiro em 2022: Sergio Moro e Luciano Huck.

Outros estão fragmentados entre Ciro Gomes, João Doria, Tasso Jereissati, Eduardo Leite e Luiz Henrique Mandetta. Mas há uma parcela considerável que espera o surgimento de um nome alternativo, que provoque uma reação em cadeia e seja capaz de unir todos os moderados.

Convenhamos: se essa candidatura até agora não apareceu é porque dificilmente surgirá daqui para frente. Volta e meia, alguns nomes são ventilados e expostos a chuvas e trovoadas. Foi o caso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e da presidente do Conselho do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano. Nesses dois casos, os personagens se apressaram em dizer que não tinham interesse em concorrer ao Planalto.

Outros balões de ensaio surgirão? Evidentemente. Algum poderá entusiasmar a turma do Centro? Talvez, mas o tempo está passando. Uma candidatura realmente eficaz precisa entrar em sintonia com o eleitorado com antecedência e criar engajamento na internet. De nada adiantará esperar o horário eleitoral (uma excrecência que poucos assistem) para se trabalhar uma campanha e suas propostas.

A única saída que parece ser possível para o Centro é uma renúncia coletiva em torno de um só nome. Mas há um entrave gigantesco para que essa hipótese se concretize: a vaidade dos candidatos. É possível enxergar Mandetta, Tasso e Leite abrindo mão de suas ambições pessoais para apoiar outro nome.

Mas isso aconteceria com Ciro e Doria? Dificilmente. Esses dois pré-candidatos não trabalham com outra hipótese a não ser a cabeça da chapa. Vão bater o pé até o final e um acabará roubando votos do outro.

Além disso, Ciro deve tratar Doria como um inimigo e vice-versa, embora os dois sejam apenas competidores. Mas, tanto na política como no religião, a dissidência gera intriga, ódio e competição desenfreada.

Uma cena do filme “A Vida de Brian” (foto) define bem esse tipo de situação. No enredo, Brian é um simples e pacato cidadão de Jerusalém no ano 33 D.C., que é confundido como o Messias do povo judaico. Ele nutre um ódio pelos romanos e resolve se unir à resistência do povo judeu a César. Se aproxima, em um determinado momento, de um grupo. Há então, o seguinte diálogo entre Brian e o líder dos resistentes:

– Vocês são a Frente do Povo Judaico?

– Vai se danar! Nós somos a Frente Popular da Judéia.

Depois de uma breve entrevista, Brian é aceito no grupo. Ao final da conversa, eles perguntam se o rapaz sabe quem é o maior inimigo da Frente Popular da Judéia. “Os romanos”, responde o iniciante. Os companheiros, em uníssimo, dizem que não. “Quem é, então?”, pergunta. Todos respondem: “A Frente do Povo Judaico!”.

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