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A popularidade de Bolsonaro começa a ratear

Pesquisa do Instituto Atlas divulgada ontem mostra que o presidente Jair Bolsonaro lidera as intenções de votos para o primeiro turno. Em compensação, perde várias disputas na segunda etapa das eleições. Segundo a simulação, Bolsonaro seria derrotado por Luiz Henrique Mandetta, Luiz Inácio Lula da Silva e Ciro Gomes. Ficaria em empate técnico com Fernando Haddad, João Doria, Marina Silva e Sergio Moro. O único candidato que sairia abatido pelo presidente, no estudo, é Luciano Huck, mesmo assim por uma margem apertada.

Já em pesquisa divulgada hoje pela revista EXAME, Bolsonaro seria reeleito com vantagem de sete pontos para Lula ou Huck no segundo turno. Mas há um detalhe importante. Perguntados se o presidente merecia ser reeleito, 48 % disseram que não, enquanto 42 % responderam afirmativamente (10 % não souberam responder). No quesito impopularidade, o campeão é Lula: 42 % não votariam nele de jeito nenhum; mas Bolsonaro não fica muito atrás: ele é rejeitado por 38 % dos entrevistados.

Este aumento de impopularidade pesquisa reflete, antes de mais nada, a irritação do eleitorado com o comportamento apresentado pelo presidente durante a pandemia. Nos últimos meses, com a disparada no contágio e no número de mortes, o coronavírus trouxe cada vez mais sofrimento. Nesta altura do campeonato, todos os brasileiros têm pelo menos alguém próximo que morreu ou que sofreu efeitos tenebrosos da Covid-19. A possibilidade de boa parte desses cidadãos e cidadãs ter reservas em relação ao conjunto da obra comportamental do mandatário nesse um ano de crise sanitária é altíssima.

O presidente falhou – e falhou feio – ao não perceber essa mudança de percepção e insistiu em sua retórica negacionista, patrocinando uma estratégia claudicante de investida contra o coronavírus. Despertou, primeiramente, com o discurso de Lula na quarta-feira. E agora deve compreender definitivamente que diminuir a importância da pandemia poderá não o reconduzir ao Planalto em 2022.

O principal indício de que a Covid-19 está no centro desse enredo é a performance do ex-ministro Mandetta na pesquisa. Num primeiro turno, ele obtém apenas 4,3 % dos votos. Mas colocado em um confronto mano a mano com Bolsonaro, a vitória é acachapante: 46,6 % contra 36,9 %. Neste caso, indecisos, nulos e brancos somam 16,5 %.

A vantagem de Mandetta mostra que há grande reprovação de Bolsonaro em relação ao panorama sanitário nacional. Mandetta foi ministro do presidente e saiu brigado do governo. Postou-se imediatamente como uma das vozes discordantes da tática de Eduardo Pazuello, que hoje ocupa a pasta da Saúde. Cometeu alguns erros em frente ao Ministério, sempre é bom lembrar, mas marcou sua posição como antípoda do presidente. Como bônus, sua condição de médico faz dele alguém que discordou de Bolsonaro tecnicamente e sem interesses políticos envolvidos. O problema do ex-ministro, no entanto, é chegar ao segundo turno, pois suas intenções de voto ainda são pequenas.

Bolsonaro, até pouco tempo atrás, ganhava de qualquer candidato no segundo turno. Não é mais o caso. Na enquete do Atlas, além de Mandetta, Lula e Ciro Gomes também derrotam o presidente. Lula obtém 44,9 % diante de 38,8 % (16,3 % para ninguém); já Ciro tem uma dianteira de 44,7 % contra 37,5 % (17,8 % de indecisos, nulos e brancos).

Essa pesquisa também mostra o capital eleitoral de Lula fora do PT. Em um dos dois cenários pesquisados, Lula tem no primeiro turno 27,4 % dos eleitores. Quando ele é retirado do páreo e substituído por Fernando Haddad, os votos petistas caem para 15,7 %. De onde vem essa diferença próxima a dez pontos percentuais? Surge de todos os candidatos, o que mostra apelo nos mais variados espectros ideológicos. De Bolsonaro (0,4 % ponto) a Ciro (4,1 pontos), praticamente todos perdem alguma coisa. O caso mais bizarro é o de Sergio Moro, o algoz de Lula na Operação Lava-Jato. Como os dois são inimigos, a expectativa é a de que não existisse eleitor que cogite votar em Lula ou Moro. Mas, na prática, não é assim. Quando Lula é candidato, Moro tem 9,7 % dos sufrágios; quando o candidato do PT é Haddad, as intenções de voto do ex-juiz vão a 10,4 %. Ou seja, cerca de 0,7 ponto percentual dos eleitores do ex-ministro da Justiça migrariam para o ex-presidente caso ele esteja na disputa.

Ainda temos um longo caminho até o pleito presidencial e, até lá, Jair Bolsonaro deverá repensar sua abordagem junto ao eleitorado. No fundo, ele enfrenta uma situação parecida com a de Donald Trump, que foi derrotado ao tentar a reeleição nos Estados Unidos. Até a pandemia, todas as pesquisas mostravam Trump na frente da corrida à Casa Branca. Seu comportamento durante a pandemia, no entanto, decepcionou os americanos, que entregaram o cargo a Joe Biden (vamos deixar de lado aquele blábláblá sobre fraude nas urnas, muito comentada pelo ex-presidente e nunca comprovada).

Bolsonaro, até há pouco, estava indo pelo mesmo caminho, negando a importância da pandemia e até debochando das circunstâncias. A pesquisa da Atlas é um sinal de que existem manifestações de reprovação em curso. E, caso não exista uma correção de rota, a situação do presidente pode até piorar.

Entretanto, ontem, em sua tradicional live de quintas à noite, o presidente continuou espinafrando o lockdown, dizendo que “usam o vírus para oprimir, para quebrar a economia”. Defendeu remédios sem eficácia comprovada e previu que “teremos problemas sérios pela frente”. Do quê exatamente estamos falando? “Não quero falar que problemas são esses porque não quero que digam que estou estimulando a violência”, afirmou.

O Bolsonaro de ontem foi razoavelmente diferente daquele de quarta-feira. Essa, por sinal, deve ser uma regra daqui para frente. Deveremos enxergar no presidente uma personalidade pendular por algum tempo, até que ele encontre uma posição fixa e por lá fique. Somente então saberemos a quem Bolsonaro resolveu seguir: seus assessores mais moderados ou os “yes men” que querem apenas agradar o presidente.

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