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A noite que Cristina Kirchner viu a morte

Da redação
3 de setembro de 2022

MONEY REPORT escolheu como Imagem da Semana a captura do momento que poderia mudar a história da Argentina contemporânea, com a tentativa fracassada de atentado contra a ex-presidente e atual vice, Cristina Kirchner (69), na noite desta quinta-feira (1º). O ataque tumultuou mais ainda o cenário político, pressionado por uma alta inflação, déficit fiscal, ausência de investimentos e governo dividido. Nesta sexta-feira (2), argentinos saíram às ruas para apoiar Kirchner e o presidente Alberto Fernández, após a decretação de feriado nacional. Desde a volta da democracia, em 1983, este é um dos momentos mais sensíveis, talvez superado só pelos levantes militares de 1987, 1988 e 1990, contra o julgamento e a condenação de assassinos e torturadores que agiram na Guerra Suja (1974-1983) da Ditadura Argentina (1976-1983).

Cristina Kirchner era recebida por militantes e admiradores nas proximidades de sua residência, no bairro da Recoleta, em Buenos Aires, quando câmeras de celulares captaram quando o motorista de aplicativo Fernando André Sabag Montiel, de 35 anos, se aproximou e apontou a poucos centímetros do rosto da vice uma pistola Bersa, calibre 32, tentando disparar no mínimo duas vezes.

A cena durou poucos segundos. A se deparar com o cano da arma, Cristina se abaixou assustada e levou uma das mãos ao rosto, em gesto de defesa – mas só depois de a pistola falhar. O perpetrador foi contido pelo público imediatamente e preso pela polícia federal argentina, que o investiga. Logo depois a oposição ao governo lançou um comunicado pedindo uma investigação e condenado o ato.

Não se sabe a motivação. Fernando Sabag Montiel nasceu no Brasil, em São Paulo, filho de pai chileno e mãe argentina. Ele reside na Argentina desde os 6 anos, de acordo com informações do Itamaraty. Os jornais argentinos apuraram que em 2021 ele foi detido na rua portando uma faca de 35 centímetros que seria usada “para defesa pessoal”. Pela legislação argentina, se trata de um caso de porte ilegal de arma. Considerado “inconstante” e “propenso a dizer tolices” pelos vizinhos, nas redes sociais se autodenomina Fernando “Salim” Montiel nas redes sociais segue grupos que pregam ódio e conspirações, como “Comunismo Satânico”, “Ciências Ocultas Herméticas” e “Coach Antipsicopata”. Em um dos braços ele tem tatuado um Sol Negro, símbolo ligado às runas nórdicas que chegou a ser cogitado para substituir a suástica por grupos de extrema direita que misturam ocultismo com neonazismo. A representação mais conhecido do símbolo é o Mosaico de Wewelsburg, no piso de um salão do castelo usado pelo líder das SS, Henrich Himmler. Sabag Montiel também tinha o hábito de ficar esperando músicos famosos na frente de hotéis.

Por alguma razão ainda não esclarecida, os disparos falharam. As mais prováveis seriam a ausência de uma cápsula na câmara de disparo, indicando que arma com um carregador para cinco disparos deixou de ser engatilhada, ou munição deteriorada. Esse modelo da Bersa é pequeno, ideal para ser ocultado nas roupas e empregado com precisão a curta distância, daí seu calibre de baixa potência. Exatamente as condições do atentado fracassado. Ao vasculhar a casa do criminoso, a polícia encontrou mais indícios e cerca de 100 munições para pistolas 9 mm, calibre proibido para civis no país.

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