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A manobra do STF para tornar Moro suspeito

Aluizio Falcão Filho
23 de março de 2021

No mundo da publicidade, há alguns anos, existia um trâmite normal para se fazer uma campanha. A área de planejamento de uma agência ouvia o briefing do cliente e fazia algumas pesquisas de mercado para entender melhor suas necessidades. Com base nisso, elaborava um documento que era enviado à criação. Mas, às vezes, os redatores apareciam com uma ideia genial, mesmo sem briefing ou insights do planejamento. O que acontecia? A área de planejamento estudava a ideia e criava uma narrativa que retroativamente justificaria a campanha. E, se cliente gostasse, todos viviam feliz para sempre. Evidentemente, não são todas as agências que trabalham assim e nem sempre o final dessa aventura era feliz.

Esse malabarismo de se criar uma narrativa retroativa guarda semelhanças com o que aconteceu hoje no Supremo Tribunal Federal, na sessão da Segunda Turma na qual o ex-juiz Sergio Moro foi considerado suspeito no processo julgado em Curitiba sobre o apartamento triplex no Guarujá. Com essa decisão, que ainda precisa ser corroborada pelo plenário do STF, as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva foram anuladas e os processos não devem ser julgados pela corte de Brasília, como pretendia o ministro Edson Fachin.

Os magistrados que votaram a favor da suspeição sabiam que não poderiam basear suas decisões no conteúdo hackeado das conversas entre Moro, promotores e agentes no aplicativo Telegram. Como essas provas foram obtidas ilegalmente, fizeram um esforço para encontrar no passado elementos que pudessem corroborar a versão de que o ex-ministro fora parcial em seus julgamentos. Um exemplo disso foi o vazamento do áudio da conversa entre os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, além de casos de condução coercitiva sem amparo legal.

Mas, claramente, esses juízes usaram os elementos vistos nos arquivos hackeados como o guia mestre para tomar suas decisões. Curiosamente, a parcialidade de Moro era um segredo de Polichinelo. Todos nós sabíamos que o ex-juiz tinha um lado claro neste processo. Sua enorme popularidade, inclusive, veio justamente da percepção popular de que ele estava ao lado dos promotores e dos policiais federais. Esse comportamento tendencioso, quando revelado, o colocou na berlinda e possibilitou a virada de jogo.

Caso tivesse ficado distante da promotoria, sem trocar mensagens frequentes, e mantido suas convicções, as condenações de Lula jamais teriam sido anuladas. Mas a ansiedade de Moro para que os processos andassem rápido foi o que causou essa derrota.

O caso, agora, deverá ser validado por todo o plenário. Alguém arrisca um palpite? Eu não.

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