A confusão que se armou em torno do comando da FIESP mostra o quando os industriais paulistas não pensam duas vezes antes de agir. O ex-presidente da entidade, Paulo Skaf, escolheu Josué Gomes da Silva para ser seu sucessor. Empossado, o novo chefão apoiou um manifesto defendendo a democracia. A iniciativa pegou mal entre vários sindicatos, que interpretaram essa atitude como uma crítica ao presidente Jair Bolsonaro e um apoio velado à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.
Uma pergunta sobre o caso: alguma surpresa? Josué é filho do primeiro vice-presidente que Lula teve à frente do governo. Por acaso alguém imaginou que o atual presidente da FIESP fosse apoiar Bolsonaro contra Lula?
Ao tentar derrubar Josué da federação que congrega as maiores indústrias do país, cerca de 80 sindicatos patronais criaram uma pendenga com alguém que foi convidado para ser o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — e é muito próximo do poder.
Mas vamos discutir uma outra das razões pelas quais Josué é criticado: trata-se, dizem, de um presidente omisso. Trocando em miúdos: ele dá expediente em sua empresa e não encara a presidência da FIESP como um trabalho de tempo integral.
Certa vez, conversando com um grande industrial de São Paulo, perguntei por que a FIESP era comandada por Skaf durante tanto tempo. A resposta: “ele é o único de nós que pode dedicar todo o seu tempo para a Federação”. Isso mostra que, pelo jeito, só há dois jeitos de comandar a instituição: ser acionista minoritário de uma indústria ou membro de um conselho de administração.
Mas atrás dessa briga talvez esteja a vontade de Paulo Skaf de voltar ao poder, seja direta ou indiretamente. Já faz muito tempo que o ex-presidente da FIESP tenta emplacar um cargo público e não consegue. Já foi candidato algumas vezes, mas nunca venceu. Provavelmente ele tenha percebido que sua verdadeira vocação é a política empresarial e queira, agora, voltar ao ninho original.
Em um desfecho improvável para imbróglio, Josué recusou o convite de Lula e disse que razões de compliance o impediam de deixar a administração de suas empresas. Para aumentar o suspense, o presidente da FIESP foi viajar para a Europa com a família e convocou uma assembleia para discutir os problemas da entidade no dia 16 de janeiro. A possibilidade de ser derrubado neste encontro é razoavelmente alta. Neste caso, ele não ocupará a cadeira de ministro, mas seguramente contará com a simpatia de quem for o titular da pasta. Portanto, não se deve esperar uma lua de mel entre o novo governo e uma FIESP sem Josué.
Mas não será a primeira vez que Brasília terá um relacionamento difícil com a Federação de São Paulo. Durante o governo de José Sarney, por exemplo, o congelamento de preços promovido pelo Plano Cruzado criou dificuldades astronômicas para todos os industriais, incluindo os paulistas. O ministro da Fazenda, Dilson Funaro, foi fazer uma palestra na sede da instituição e ouviu pesadas críticas durante duas horas seguidas. Ao final, disse que iria nomear um dos dirigentes da FIESP para ser seu interlocutor junto à entidade.
Afirmou que iria escolher alguém com grande representatividade entre os sindicatos e nomeou Paulo Francini, alguém que frequentava muito as páginas dos jornais, para essa função. Só que, alguns meses antes, Luiz Eulálio de Bueno Vidigal, que encerrava seu mandato, fez uma enquete para saber quem seria o melhor nome para sucedê-lo, se Mario Amato ou Paulo Francini. Houve dez por cento de abstenções e uma maioria esmagadora para Amato. Francini levou apenas um voto – o dele mesmo.
Resultado: o diálogo entre governo e FIESP continuou engasgado.
