Gigante chinesa do fast fashion aposta no varejo tradicional para ampliar presença na Europa, onde enfrenta resistências de concorrentes e autoridades
Varejista conhecida por vender roupas a preços baixos pela internet, a chinesa Shein anunciou nesta quinta-feira (2) que abrirá em novembro suas primeiras lojas físicas permanentes no mundo. A estreia acontecerá na França, em parceria com a Société des Grands Magasins (SGM), proprietária de diversas lojas de departamento no país.
A primeira unidade será inaugurada no icônico BHV Marais, no centro de Paris, com outras cinco previstas para Dijon, Reims, Grenoble, Limoges e Angers. Até hoje, a empresa havia se limitado a realizar “pop-ups” temporárias em várias cidades do mundo, usadas principalmente como estratégia de marketing.
Nova estratégia e mudança de modelo
A aposta no varejo físico representa uma mudança significativa na estratégia da Shein, cujo modelo de negócios foi construído com base em vendas online diretas de fábricas chinesas para consumidores globais. Essa estrutura permite preços extremamente competitivos — vestidos por cerca de 12 euros e jeans por 20 euros — e reduz o acúmulo de estoque.
Com lojas físicas, no entanto, a empresa precisará manter inventário e lidar com custos operacionais mais altos. A mudança ocorre em um momento de adaptação ao cenário global: nos Estados Unidos e na União Europeia, estão em curso mudanças nas regras alfandegárias que devem encerrar a isenção de tarifas para pacotes de baixo valor — uma das bases do modelo de negócios da marca.
Reações e polêmicas
A expansão da Shein para o varejo tradicional não foi bem recebida por todos. As Galeries Lafayette, que venderam lojas à SGM sob contrato de franquia, afirmaram que a iniciativa viola o acordo e pretendem barrá-la. “As práticas dessa marca de ultra fast fashion contradizem nossa oferta e nossos valores”, declarou o grupo em comunicado.
Concorrentes e autoridades francesas também criticam o plano. A Federação Francesa do Prêt-à-Porter acusou a Shein de prejudicar marcas locais e inundar o mercado com produtos descartáveis. “Depois de destruir dezenas de marcas francesas, agora pretende inundar ainda mais o mercado com fast fashion”, disse o presidente da entidade, Yann Rivoallan.
Além das críticas do setor, políticos franceses apoiam um projeto de lei que poderia restringir severamente a atuação da empresa, incluindo a proibição de publicidade.
Impacto no setor e desafios
O avanço da Shein ocorre em um momento delicado para o varejo de moda francês, que já enfrentava forte concorrência de gigantes como Zara e H&M. A pressão adicional levou empresas locais de fast fashion, como Jennyfer e NafNaf, a entrarem em processos de insolvência em 2025.
A empresa, que emprega cerca de 16 mil pessoas e faturou US$ 23 bilhões em 2022, afirma que a expansão também tem como objetivo revitalizar centros urbanos franceses e criar até 200 empregos diretos e indiretos. O CEO, Donald Tang, destacou ainda que a Shein é particularmente popular em regiões provinciais e rurais, onde as opções de moda são mais limitadas.
A primeira loja será inaugurada no início de novembro, marcando o início de uma nova fase na estratégia global da marca – e de um embate direto com reguladores, concorrentes e consumidores europeus.
