Apesar dos juros, incertezas políticas e insegurança regulatória, país concentra mais da metade das fusões e aquisições da América Latina. Destaque para a força do investidor local. Aos estrangeiros, atração deve ser acompanhada de planejamento
Fazer negócios sempre exigiu analisar com atenção riscos e incertezas quando se trata da América Latina, mas esta condição não é proibitiva, conforme indicam os resultados. Para Alexandre Pierantoni, head de Finanças Corporativas Latam e Brasil da Kroll, a volatilidade faz parte do cenário, mas as diferenças de graduação mudam de país para país, de acordo com a maturidade econômica. “Historicamente, esse desafio muitas vezes é associado com questões políticas”, afirma.
No Brasil, segundo ele, a mudança estrutural começou no fim dos anos 1990, com a abertura da economia, a desregulamentação e o controle da inflação. “Esse processo criou oportunidades mais consistentes para o setor bancário e de investimentos”, diz.
Mesmo diante das questões atuais, o país segue resiliente. “O Brasil continua demonstrando dinamismo, mesmo com uma taxa básica de juros elevada, hoje em torno de 15%”, afirma Pierantoni. Tanto que em 2025, foram registradas cerca de 1,4 mil operações de fusões e aquisições, com destaque para logística, mineração, infraestrutura e concessões. Embora o setor de tecnologia lidere o volume de negócios, respondendo por cerca de 15% das operações, as oportunidades estão espalhadas por praticamente toda as atividades produtivas.
Pierantoni destaca a força do mid-market e do lower mid-market, segmentos em intensa atividade. “Há uma mudança relevante, com empresas médias e menores liderando processos de consolidação”, afirma. Em contraste, o mercado de capitais segue travado. “Não houve IPOs no Brasil nos últimos três anos, e os follow-ons continuam restritos”, diz.
Se no passado o câmbio era a principal preocupação, hoje o foco mudou. “A insegurança jurídica passou a ser o maior risco, especialmente em setores altamente regulados”, afirma. A possibilidade real de mudanças retroativas nas regras tributárias reforça esse temor, que tende a ganhar complexidade com a entrada em vigor da Reforma Tributária. “Algum sacrifício no curto prazo é necessário para ganhos estruturais no longo prazo”, avalia.
Ainda assim, a região segue relevante. “A América Latina representa cerca de 6% do M&A mundial, com o Brasil respondendo por 55% desse total”, diz Pierantoni. Tanto que os interessados variam, Em 2025, investidores europeus lideraram, seguidos por Estados Unidos, enquanto a China ampliou investimentos em agronegócio, mineração e óleo e gás.
Outro ponto relevante é a força do investidor local. “Cerca de 80% das transações no Brasil envolvem apenas agentes brasileiros”, afirma. Para ele, esse protagonismo reflete o amadurecimento do mercado e a maior escala dos grupos nacionais.
Todavia, mesmo com capital disponível, Pierantoni ressalta que operar por aqui exige preparo. “Questões tributárias e trabalhistas tornam os processos de diligência mais complexos do que em mercados como Estados Unidos e Europa”, diz. Por isso, a recomendação é clara. “Presença local e conhecimento profundo do mercado fazem toda a diferença”, conclui.
