Varejista estreia com valuation bem abaixo do auge e enfrenta pressão crescente de tarifas e concorrência
A Shein estreou nesta terça-feira (1º) na Bolsa de Hong Kong com uma recepção morna dos investidores. A varejista de fast-fashion levantou US$ 1,7 bilhão em sua oferta pública inicial, mas viu as ações caírem até 10% durante o pregão antes de recuperar parte das perdas e encerrar o dia praticamente estáveis.
Os papéis fecharam a 48,50 dólares de Hong Kong, ligeiramente abaixo dos 48,56 dólares de Hong Kong definidos na oferta. Com isso, a empresa passou a ser avaliada em cerca de US$ 26,3 bilhões, bem abaixo dos quase US$ 100 bilhões alcançados em rodadas privadas de financiamento em 2022.
A abertura de capital encerra uma tentativa de quatro anos da companhia de chegar à bolsa. Antes de Hong Kong, a Shein tentou listar ações em Nova York e Londres, mas enfrentou obstáculos regulatórios e maior escrutínio sobre suas práticas comerciais.
A recepção cautelosa reflete uma mudança na percepção do mercado sobre a empresa. Além do crescimento mais lento, a Shein passou a enfrentar custos maiores com tarifas e impostos nos Estados Unidos e na Europa, justamente mercados importantes para um modelo baseado em preços baixos e envio direto de pequenos pacotes.
Nos Estados Unidos, a retirada de isenções tarifárias para encomendas de menor valor atingiu diretamente a operação. Na Europa, novas cobranças sobre importações de baixo valor também aumentam a pressão. A França começou ainda nesta terça-feira a aplicar um imposto sobre itens de moda ultrarrápida, em mais um sinal de endurecimento regulatório.
O impacto já aparece nos resultados. A Shein lucrou US$ 2,06 bilhões em 2025, mas registrou prejuízo de US$ 99 milhões no primeiro trimestre de 2026.
“A fraqueza inicial da cotação sugere que os investidores querem provas, não apenas promessas”, afirmou à AFP Han Lin, diretor para a China da consultoria The Asia Group. Segundo ele, o mercado passou a enxergar a Shein como uma varejista em processo de amadurecimento, sujeita a tarifas, regulação e concorrência crescentes.
A mesma cautela apareceu na demanda pela oferta. A parcela destinada aos investidores de varejo foi subscrita 5,63 vezes e a internacional, 2,59 vezes, níveis modestos em comparação com outros IPOs recentes de grande repercussão em Hong Kong.
Mesmo assim, nomes relevantes participaram da operação, entre eles o family office Willett Advisors, ligado a Michael Bloomberg, Microsoft, SoftBank Vision Fund e Reliance. Os investidores-âncora ficaram com cerca de um quinto da oferta.
A Shein afirma que os recursos levantados serão usados para ampliar investimentos em tecnologia e fortalecer sua presença internacional. A empresa também tenta reposicionar sua identidade depois de transferir a sede para Singapura em 2021 e, mais recentemente, voltar a destacar suas raízes chinesas.
No fim de 2025, a plataforma tinha média de 156 milhões de usuários ativos mensais na Europa, colocando-se entre os maiores nomes do comércio eletrônico no continente. A questão agora é se essa escala será suficiente para sustentar crescimento e rentabilidade em um ambiente bem menos favorável do que aquele que levou a companhia a valer quase US$ 100 bilhões quatro anos atrás.
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