CEO da Alpargatas, Liel Miranda vê expansão internacional como uma das principais avenidas de crescimento da marca brasileira
Durante a hiperinflação que acometeu o Brasil nos anos 1980, os chinelos de borracha foram enquadrados pelo governo como um item de primeira necessidade, ao lado de produtos como o arroz e o feijão. “A Havaianas já fazia parte da cesta básica do brasileiro”, afirma Liel Miranda, CEO da Alpargatas, companhia dona da marca de chinelos.
O canal alimentar, que reúne supermercados, mercearias e atacarejos, ainda é uma das bases da operação da Havaianas no Brasil e concentra a maior parte da presença da marca no mercado nacional. Nesse segmento, a companhia ainda mantém uma posição dominante, com cerca de 80% de participação de mercado. E no segundo trimestre de 2026, a Havaianas ganhou ainda 2,1 pontos percentuais de market share nesse canal.
A força da marca no segmento também está ligada à sua capilaridade, com a marca presente em mais de 250 mil pontos de venda no Brasil e em mais de 95% dos lares brasileiros.
Historicamente, a Havaianas consolidou sua presença nos supermercados com modelos básicos e com um tíquete modesto que dificilmente alçaria a marca ao que ela é hoje.
“Sem diferenciação, absolutamente não chegaríamos onde chegamos. Continuar ofertando produtos diferenciados é parte da estratégia para continuar crescendo”, afirma Miranda, sem menosprezar a tradicional sandália azul e branca, que vai continuar existindo nas gôndulas.
Até o início dos anos 2000, a Havaianas estava concentrada nos modelos tradicionais, associados a um produto funcional e acessível. A mudança de posicionamento começou com o lançamento da linha Top, com modelos coloridos, que transformou o chinelo em um acessório que combinava com diferentes estilos e ocasiões.
Segundo o executivo, esse movimento chegou a dobrar o tamanho do negócio na época.
Para além da ‘cesta básica’
A estratégia de diversificação também foi determinante para a expansão internacional, importante frente estratégica de crescimento da Havaianas.
Fora do Brasil, a marca não cresceu baseada em produtos baratos, mas na percepção da marca como um item de moda, vendido em canais especializados e lojas de departamento de prestígio.
A linha “família Brasil”, com a bandeira brasileira, tornou-se um dos principais símbolos dessa expansão e atualmente é o modelo mais vendido da marca na Europa, associada à “autenticidade brasileira”, surfando na onda do movimento Brazil Core.
“Tem uma lista das grandes tendências no mundo da moda, a The Lyst Index. A Havaianas alcançou o topo dela em 2025. Isso mostra que a marca tá de fato na moda não só no Brasil”, diz Liel Miranda.
A marca brasileira cravou o primeiro lugar na categoria de Hottest Products (Produtos Mais Desejados do Mundo) no relatório do terceiro trimestre de 2025, referente ao modelo clássico Havaianas Top. Foi a primeira vez que um produto brasileiro liderou o ranking, que analisa o comportamento de compra, buscas globais, engajamento em redes sociais e vendas de mais de 200 milhões de usuários. O chinelo brasileiro de menos de R$ 40 desbancou itens de grifes consagradas.
Não à toa o desempenho internacional da Alpargatas no segundo trimestre de 2026 foi recebido com entusiasmo pelo mercado, com as ações tocando alta de 11% na B3 na sexta-feira, 7. “A ALPA4 apresentou novamente resultados melhores do que o esperado, agora com as operações internacionais liderando a melhora”, afirmou o XP em relatório após o balanço da companhia.
No segundo trimestre de 2026, a receita líquida internacional da Havaianas alcançou R$ 406 milhões, alta de 12% no volume de pares vendidos, que totalizou 7,7 milhões de unidades. Lá fora, o foco está principalmente no canal especializado e em lojas de departamento de luxo, posicionando a marca mais próxima do universo de moda.
Na Europa, uma das principais regiões estratégicas para a expansão global da marca, o volume cresceu 21%, para 4,4 milhões de pares. Segundo a Alpargatas, o avanço reflete uma execução comercial mais ajustada e a retomada da confiança dos clientes.
Nos Estados Unidos, a operação da Havaianas segue em fase de transição para um novo modelo de negócios. No segundo trimestre de 2026, foram exportados apenas 600 mil pares para o mercado americano, queda de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo a companhia, o desempenho por lá foi impactado por mudanças na sazonalidade decorrentes da implementação de um novo modelo de operação de distribuição no país.
Apesar disso, a empresa destacou um “ritmo encorajador de abertura de portas”, o que contribuiu para que o acumulado do primeiro semestre de 2026 registrasse um crescimento de 40% em volume no mercado americano, totalizando 1,8 milhão de pares vendidos no período
Já nos mercados distribuidores, que incluem Ásia-Pacífico, Oriente Médio, África e América Latina, o volume avançou 12%, com exceção de alguns mercados do Oriente Médio afetados por eventos geopolíticos, como a guerra no Irã.
O Ebitda da operação internacional alcançou R$ 117 milhões, com margem Ebitda de 29%, retornando ao melhor nível histórico da companhia para um segundo trimestre.
O resultado reflete uma estrutura internacional mais enxuta e eficiente, mas não só.
Na última semana, a Havaianas levou à passarela da Copenhagen Fashion Week, na Dinamarca, um chinelo de dedo com salto. A novidade chancela a estratégia que já vem sendo usada pela marca para se alçar ao patamar de item de moda, e não apenas de primeira de cesta básica.
Segundo Liel Miranda, CEO da Alpargatas, a iniciativa também acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. “A categoria chinelo voltou a ficar na moda e as pessoas estão usando mais… Ela deixou de ser um calçado apenas para praia ou piscina. Agora as pessoas estão usando no seu dia a dia, então a categoria está se beneficiando disso”, opina o CEO.
A principal ambição de Miranda para a expansão internacional da Havaianas é fazer com que as vendas fora do Brasil alcancem o mesmo patamar do mercado doméstico.
No longo prazo, isso significaria vender cerca de 210 milhões de pares por ano no exterior — número vendido no Brasil em 2025. Hoje, porém, existe uma diferença relevante entre as operações. No mesmo período, os mercados internacionais somaram cerca de 25 milhões de pares.
Para reduzir essa distância, a companhia aposta no potencial do mercado global de calçados abertos.
Segundo Miranda, esse segmento movimenta cerca de 1 bilhão de pares por ano no mundo, o que representa uma oportunidade significativamente maior do que o volume atualmente capturado pela marca fora do Brasil.
“A grande oportunidade da companhia é acelerar no mercado internacional. Tomara que um dia a gente chegue a vender 210 milhões de pares fora do Brasil…”, afirma Miranda.
Recuperação da Alpargatas
A Alpargatas encerrou o segundo trimestre de 2026 com o melhor resultado para o período em sua história. A companhia registrou Ebitda de R$ 286 milhões, impulsionada principalmente pela recuperação da operação da Havaianas, que combinou crescimento no Brasil, retomada internacional e expansão das margens.
A receita líquida consolidada da marca alcançou R$ 1,2 bilhão, alta de 11% na comparação anual. O volume vendido cresceu 9%, para 53,3 milhões de pares no Brasil e no exterior. Além disso, a companhia registrou lucro bruto de R$ 691 milhões, avanço de 14,6%, com margem bruta de 56,3%, expansão de 1,6 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior.
O resultado reflete uma recuperação operacional após um período de ajustes na companhia.
Segundo o CEO Liel Miranda, a Alpargatas enfrentou desafios em 2023 e 2024 relacionados principalmente ao excesso de estoques na cadeia, à complexidade do portfólio e a problemas logísticos.
Um dos pontos de inflexão foi a mudança de foco do sell-in — venda para distribuidores e varejistas — para o sell-out, ou seja, o acompanhamento da demanda real do consumidor final. O modelo anterior levou clientes da companhia a acumularem estoques, reduzindo novos pedidos em 2023.
A empresa também revisou seu portfólio após um período de forte expansão de produtos. A tentativa de ampliar a diferenciação entre 2020 e 2021 resultou em uma variedade considerada excessiva, chegando a 15 versões de Havaianas brancas, o que aumentou a complexidade industrial e dificultou a gestão dos estoques.
“A recuperação passou por uma simplificação da oferta e por melhorias operacionais. Reduzimos o número de produtos, ganhamos produtividade fabril e passamos a trabalhar com maior precisão na reposição dos itens mais demandados”, afirma o CEO.
No Brasil, principal motor do resultado do trimestre, a receita líquida da Havaianas cresceu 17% na comparação anual, impulsionada pelo aumento de volume e por um mix de produtos mais rentável. O volume vendido no país chegou a 45,6 milhões de pares, alta de 9%, enquanto a receita por par avançou 7%.
O desempenho comercial também ganhou força. As vendas ao consumidor final cresceram 13%, enquanto a Havaianas ampliou sua participação de mercado em 2,1 pontos percentuais no canal alimentar, que inclui supermercados e atacarejos que comercializam produtos não alimentares. Segundo a companhia, o avanço foi favorecido pela introdução de uma nova coleção, que acelerou a demanda e ajudou a otimizar os estoques na cadeia.
A rentabilidade da operação brasileira atingiu níveis recordes para um segundo trimestre, com margem bruta de 48% e margem Ebitda de 20%. O resultado veio da combinação entre eficiência operacional, disciplina de despesas e produtividade fabril, que compensaram o aumento dos investimentos em marketing, incluindo ativações relacionadas à Copa do Mundo.
Outro ponto de melhoria foi a logística. Em 2023, o indicador OTIF (On-Time-In-Full), que mede a entrega no prazo e na quantidade correta, estava em níveis baixos, com apenas três de cada dez pedidos chegando conforme o esperado. No segundo trimestre de 2026, esse índice alcançou 83,5%, contribuindo para o aumento do giro dos produtos e para o crescimento das vendas ao consumidor.
A operação internacional também apresentou sinais de recuperação, com uma estrutura mais enxuta e eficiente. No exterior, a Havaianas alcançou margem Ebitda de 29%, o melhor nível histórico da companhia para um segundo trimestre.
Além da reorganização operacional, a Alpargatas ampliou investimentos em marca, com iniciativas como a campanha “Molho Brasileiro”, estrelada por Vini Jr., e colaborações com nomes da moda e da cultura pop. A estratégia busca reforçar a percepção da Havaianas como uma marca global, além do tradicional posicionamento de produto funcional.
Por Letícia Furlan
