Fundada no Paraguai, empresa virou líder no mercado de etanol de grãos no Brasil. De 2019 a 2024, a receita foi de R$ 376 milhões para R$ 14,9 bilhões – e a projeção é de R$ 24 bilhões neste ano
Motoristas que passam de carro pela BR-230, em Balsas, cidade no interior do Maranhão , veem enormes tanques metálicos, azuis e prateados, refletindo sobre o sol. Com 45 metros de altura cada um, eles fazem parte de uma biorrefinaria capaz de destilar 1,3 milhão de litros de etanol por dia, o suficiente para abastecer 32.500 carros, duas vezes a frota da cidade, de 15.400 veículos. O município, segundo maior produtor agrícola do estado, abriga desde o começo de agosto uma usina de etanol de grãos.
A chegada da biorrefinaria na cidade ilustra o bom momento do setor de biocombustíveis no país, mas, principalmente, o da Inpasa, dona daquela usina. A empresa, criada pelo paulista José Odvar Lopes , cresceu 37 vezes nos últimos cinco anos, ou 3,623%, saindo de um faturamento de 376 milhões em 2019 para 14,9 bilhões de reais em 2024. Para este ano, a expectativa é de outro avanço marcante: atingir 24 bilhões de reais de receita. Com capacidade para processar 2 milhões de toneladas de grãos e produzir 925 milhões de litros de etanol por ano, a unidade de Balsas exigiu investimento de 2,5 bilhões de reais.
“O tamanho que o negócio tomou foi inesperado. Foi um pouco além do normal, mas gostamos de fazer as coisas e são rápidos”, diz Lopes à EXAME, em uma rara entrevista minutos antes da conferência de apresentação em Balsas.
Com discrição, “Seu Zé Lopes”, como é conhecido no mercado, dominou o setor de etanol de milho do Brasil e virou estrela de um setor em franca expansão. Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao governo federal, estima que os biocombustíveis poderão movimentar mais de 1 trilhão de reais entre 2025 e 2034.
“O etanol desempenha um papel central na transição energética brasileira ao oferecer uma alternativa renovável e de baixa intensidade de carbono aos combustíveis fósseis para veículos leves, que ainda consegue por parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa”, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira , à Exame. “Nesse contexto, o etanol de milho tem ganhado protagonismo com o crescimento de sua oferta.”
O Brasil é um dos maiores produtores de etanol do mundo, com uma produção anual de 36 bilhões de litros — 72% provenientes da cana-de-açúcar, e 28%, do milho. Na safra 2024/2025, o país gerou 10,2 bilhões de litros de etanol de milho, com 50% desse total vindo das usinas da Inpasa. O crescimento do etanol de milho impressionante: foram 2,6 bilhões de litros na temporada 2020/2021, um salto de quase quatro vezes na produção em poucos anos.
Tradicionalmente, a produção de etanol no Brasil era dominada pela cana-de-açúcar. Até então, o Brasil não direcionava seus investimentos para o etanol de milho, principalmente por questões logísticas e pelo alto custo de produção, como explica Plínio Nastari , presidente da Datagro Consultoria. “O milho era considerado uma cultura de baixo custo marginal, ou seja, produzido de forma secundária, aproveitando o espaço disponível após a colheita da soja, sem foco na agregação de valor”, afirma Nastari.
Essa dinâmica começou a mudar com o aumento da demanda por etanol em meados da década passada e a constatação de que, em razão do baixo preço do milho, sua produção para a fabricação do biocombustível se tornou economicamente viável. “Esse movimento de industrialização do milho não apenas viabilizou a produção de etanol, mas também posicionou o cereal como uma fonte estratégica de biocombustível no Brasil”, diz Nastari.
Reservado, mas competitivo
A Inpasa domina hoje 10% do mercado total de etanol no Brasil e reflete o modelo de gestão — reservado e modesto, mas competitivo — de Zé Lopes. Nascido em Presidente Bernardes , no interior de São Paulo, o empreendedor acumulou experiência no mercado de commodities, especialmente milho e soja, desde 1990, além de atuar com pecuária extensiva. Com 70 anos, altura mediana, magro e de cabelos brancos, o fundador costuma falar um pouco. “Ele precisa criar confiança. Uma vez que isso acontece, a relação com ele flui”, afirma Gustavo Mariano, vice-presidente comercial da Inpasa, que trabalha há sete anos com o fundador.
A história da companhia começa em 2006, na cidade de Nova Esperança, no Paraguai . Surgiu ali a Indústria Paraguaia de Álcool SA, cujo nome seria abreviado para Inpasa. Na época, o Brasil não fabricava etanol de milho, ainda que o país produzisse 42,7 milhões de toneladas de cereal por ano — hoje, está perto das 130 milhões de toneladas. Lopes tinha fazendas de milho no Paraguai, além de uma exportadora de cereais, o que fez do país vizinho uma escolha certamente.
A ideia de investir no setor surgiu após uma visita aos Estados Unidos — o principal produtor do biocombustível no mundo. Em 2025, o país deve renovar o recorde de produção de etanol de milho e deve atingir 63 bilhões de litros, segundo projeções da Datagro. A aposta dos EUA no biocombustível ocorreu por uma combinação de fatores econômicos e estratégicos, especialmente relacionados à segurança e à independência energética do país.
A partir de 2007, com a Lei de Energia de 2007 (RFS2), os EUA definiram metas ambiciosas para a produção de etanol de milho, envolvendo não apenas a redução da dependência de combustíveis fósseis, mas também ao fortalecimento da indústria agrícola interna. Foi nesse contexto que Lopes desembarcou no país, e conheceu de perto algumas das principais fábricas de lá.
Nos Estados Unidos, o fundo Summit Agricultural Group controla a FS , que seria pioneira na produção de etanol de milho no Brasil. A FS viria ao Brasil em 2017 — e virou uma das principais concorrentes da Inpasa. Inicialmente, a fábrica paraguaia foi construída com partes de outras unidades, “graças à criatividade e à confiança de alguns engenheiros” que foram projetadas para enfrentar o desafio de construir uma indústria do zero, diz Lopes.
O “cientista”, como diz o fundador, por trás disso é Wagner Langner , vice-presidente industrial da Inpasa. “No início, estávamos bastante defasados e não havia mão de obra entregue disponível no país. Hoje, conseguimos fazer isso de forma muito mais fácil, pois nossas próprias unidades já geram mão de obra para nós”, afirma Langner.
O projeto levou dois anos para começar a gerar lucro. Em 2018, tendo duas plantas no Paraguai, Lopes decidiu que era hora de olhar para o Brasil. A escolha para receber a primeira usina brasileira foi o município de Sinop, no norte de Mato Grosso, um dos principais polos produtores de grão do país. Trata-se da maior unidade de produção de etanol de milho do mundo: mais de 2,1 bilhões de litros por ano. Hoje, com 3.500 funcionários, a empresa destila 4,7 bilhões de litros de etanol de milho por ano e planeja chegar a 5,6 bilhões de litros quando todas as unidades estiverem em operação, em 2026.
Neste ano, a companhia concluiu a construção de duas novas fábricas e já iniciou a construção de sua sexta unidade na cidade de Luís Eduardo Magalhães , na Bahia, com expectativa de começar a operação em 2026 e potencial de adicionar mais 500 milhões de litros de capacidade à produção de etanol. Além dela, mais uma biorrefinaria está prevista para ser construída em Goiás, que ainda depende de negociações com o governo local.
Os fatores do sucesso
As razões para o sucesso da Inpasa passam por quatro fatores: eficiência operacional, matéria prima abundante, apetite pelo risco e regulamentações federais, que estimulam o consumo de etanol e criam um mercado com demanda estável para o produto.
O etanol de milho tem algumas vantagens em comparação ao de cana. Uma delas é que o cereal pode ser transportado por distâncias maiores, o que permite fábricas mais distantes das plantações. Mas o pulo do gato traz rentabilidade: 1 tonelada de cana gera 89,5 litros de etanol, enquanto 1 tonelada de milho produz 407 litros de combustível.
Além disso, a empresa se beneficiou de 567 milhões de reais em incentivos fiscais, de acordo com dados da Controladoria-Geral da União (CGU), a maioria deles como parte de um programa da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que dá 75% de desconto no Imposto de Renda para empresas que investem em setores considerados prioritários para o desenvolvimento regional. Desde sua instalação no Brasil, a companhia já investiu 13 bilhões de reais no país — cada biorrefinaria exige um investimento médio de cerca de 2,5 bilhões de reais.
Para Lucas Correia , analista sênior de crédito da agência de classificação de risco Moody’s , a experiência no segmentos, a baixa alavancagem financeira, além da tecnologia de ponta aplicada nas usinas explicam o avanço rápido. “A empresa se destaca pela sua cultura voltada para a eficiência operacional e pela estrutura financeira conservadora, o que lhe permite navegar com sucesso por ciclos econômicos e de commodities voláteis, além de aproveitar as vantagens do mercado competitivo de milho no Brasil”, afirma Correia.
No seu último relatório de crédito, em maio, a Moody’s afirmou que a Inpasa mantém “uma rentabilidade e geração de caixa sólida, mesmo diante da volatilidade intrínseca do seu setor de atuação”. Na visão do analista, a posição de mercado da Inpasa traz um grande poder de negociação, o que facilita a obtenção de contratos competitivos.
Entre os indicadores, chama a atenção o endividamento controlado. Em 2024, a relação da dívida bruta sobre a margem de lucro Ebtida da companhia estava em 1,8, uma alavancagem relativamente controlada, mesmo em um contexto de forte expansão — naquele ano foram investidos 5 bilhões de reais para construir usinas. O valor mostra que, para cada 1 real de Ebtida, a Inpasa tem aproximadamente 1,80 real de dívida bruta, um patamar considerado saudável para companhias em crescimento no setor agroindustrial.
Em contrapartida, a Inpasa tem uma geração de caixa menor do que a mídia do setor. Isso não gera problemas de liquidez, diz o analista da Moody’s, mas é um ponto de atenção, pois a companhia tem uma dívida de curto prazo superior à sua caixa, o que a coloca em situação menos favorável do que a de empresas similares, diz Correia.
Fernando Alfini, CFO da Inpasa, conta que a empresa optou no começo por captar recursos de curto prazo para financiar o capital de giro. A decisão, embora eficaz no curto prazo, de fato expôs a empresa a possíveis flutuações no preço das commodities e no refinanciamento da dívida, o que chamou a atenção das agências de rating. A partir do final de 2025, a estratégia da Inpasa acompanhará a dívida para melhorar a liquidez. “Veremos uma mudança completa. Estamos zerando a dívida de curto prazo e, no final do ano, vamos ver um balanço com quase nada de dívida desse tipo”, afirma.
As projeções da Moody’s mostram que a relação dívida/Ebitda da Inpasa deverá cair para a faixa entre 1,3x e 1,5x nos próximos 18 meses. Uma das razões é que não serão criadas mais unidades e o foco é potencializar as usinas já existentes. “Nosso projeto é finalizar o investimento em Luís Eduardo Magalhães, e não temos projetos novos agora”, afirma Alfini.
Na parte operacional, padronização e logística favorável estão no centro da estratégia. Ao instalar usinas em regiões que são grandes produtoras de grãos, como Sinop, Dourados e Balsas, cidade maranhense que abre esta reportagem, a empresa reduz custos com logística, uma das principais dores do agronegócio. “Eles são extremamente eficientes, se posicionaram com economia de escala e grandes volumes. Isso reduz custo”, afirma Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).
A empresa utiliza a mesma tecnologia e equipamentos em todas as suas usinas, o que garante uniformidade nos produtos, afirma Luciane Hermes de Alencar, diretora industrial da empresa. “O modelo facilita o treinamento das equipes, o que acelera o crescimento interno da companhia”, diz a diretora. O modelo da Inpasa ajuda a proteger os riscos comuns em negócios agrícolas, como clima e volatilidade de preços. Uma queda no valor do açúcar, por exemplo, levaria os usuários a aumentar a produção do etanol de cana, que passaria a competir de forma mais intensa com o álcool de milho. A logística, embora bem azeitada, poderá ser um desafio futuro. “A Inpasa tem conseguido manter a agilidade e as entregas, mas se aumentar muito a produção pode ter alguma dificuldade de escoamento”, diz Correia, da Moody’s.
A aposta da Inpasa no milho vem na esteira de um movimento muito maior que envolve o cereal. A produção de espigas ganhou grande destaque no Brasil nos últimos anos pela razão de uma série de fatores, como a integração de cadeias produtivas, a industrialização do grão e o aumento da produtividade, diz Nastari, da Datagro. Uma dessas mudanças foi a consolidação da “safrinha” — termo hoje quase irônico —, o plantio de milho feito entre safras de soja, para aproveitar o adubo e os defensivos agrícolas que ficam no solo. No começo dos anos 2000, o valor do milho plantado assim, no entanto, era baixo, especialmente no Centro-Oeste, onde os custos de logística eram maiores.
A partir de meados da década passada, com o crescimento da produção de etanol de milho, essa realidade começou a mudar. “O aumento da produção de etanol e seus coprodutos trouxe estabilidade para o preço do milho e impulsionou a área plantada”, diz Nastari. “Ao mesmo tempo, os produtores aumentaram o investimento em tecnologia, maquinário e práticas agrícolas mais eficientes, o que resultou em maior produtividade, mesmo com uma área de cultivo reduzida.”
Além disso, uma lei de 2005 permitiu o uso de sementes transgênicas e deu impulso à redução de custos. “Ganhamos competitividade para exportar o grão, e isso gerou mais investimentos em inovação”, afirma Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e Pecuária e atualmente coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o milho de segunda safra no país deve chegar a 104,5 milhões de toneladas na safra 2024/2025. Se confirmado, será um aumento de 16% em relação ao ciclo anterior. “Hoje, a segunda safra passou a ser uma grande colheita, responsável por mais de 75% da produção anual do país”, diz Rodrigues.
Além disso, a Inpasa se beneficia de uma onda global que busca reduzir o consumo de combustíveis fósseis para conter o aquecimento do planeta e é estimulada — ou ordinária — por vários governos. Os estímulos públicos ao uso do álcool como combustível no Brasil surgiram em 1975, com o Proálcool, criado em meio à crise do petróleo. Na década de 2000, o álcool passou a ser chamado comercialmente de etanol e era aceito em todos os carros novos, equipados com motores flex. Ao mesmo tempo, o percentual de etanol obrigatório na gasolina foi ampliado. Nos anos 1970, era de 10% no Brasil. Em 1º de agosto deste ano, o número aumentou para 30% de etanol na gasolina e 15% de biodiesel no diesel. Esses índices poderão subir para 35% e 25%, respectivamente, nos próximos anos.
O avanço foi determinado pela Lei Combustível do Futuro , sancionada em 2024, que traz vários estímulos para o avanço de produtos menos poluentes e buscar ajudar o país a cumprir metas de descarbonização. “Ao aumentar de forma permanente e previsível a demanda por etanol anidro, a medida proporciona um sinal claro ao mercado, estimulando novos investimentos, expansão de capacidade e verticalização produtiva nas usinas”, disse o ministro Silveira. Para ele, o avanço dos combustíveis verdes é uma forma de estimular o desenvolvimento regional, para aumentar o acesso a combustíveis em áreas sem refinarias e criar novos negócios, como o acrônimo DDGS.
No processo produtivo, o amido presente no milho é transformado em combustível, e as partes restantes formam os grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS), outra aposta da Inpasa. Com alto valor nutricional, o material é usado para produzir ração para bois, frangos e porcos, e pode aumentar a produtividade dos animais, o que reduz o preço final da carne.
Segundo a companhia, vacas alimentadas com DDGS produzem, em média, 1,4 litro a mais de leite por dia. Na safra 2024/2025, o Brasil produziu 4 milhões de toneladas de DDGS, segundo a Unem. Desse total, a Inpasa produziu 47%. Para a temporada 2025/2026, a expectativa da Unem é de que o Brasil produza 4,8 milhões de toneladas de DDGS — a capacidade produtiva da Inpasa para este ano é de 3 milhões de toneladas que abastecerão o mercado doméstico e 12 países.
Novos ares
Enquanto atua em várias frentes, a Inpasa vive um processo de sucessão. No evento em Balsas, a companhia anunciou que seu fundador se prepara para deixar o cargo de CEO e assumir a presidência do conselho de administração. A função de CEO cabe a Eder Lopes , seu filho e, então até, presidente da companhia no Paraguai. Com perfil semelhante ao do fundador — discreto e reservado —, o sucessor começou a se envolver gradualmente com os negócios no Brasil em janeiro, para garantir uma “continuidade tranquila”, diz Renato Teixeira, diretor de marketing e comunicação da Inpasa.
“Ele [ Eder ] chega com muita energia, mantendo uma cultura focada em simplicidade, inovação, pessoas, sustentabilidade e desenvolvimento do negócio. O objetivo é que ele dê continuidade à trajetória estabelecida.” Além disso, a chegada de Eder Lopes deverá trazer uma abertura maior na relação à comunicação da própria companhia. A Inpasa reestruturou toda a área e a estratégia é se aproximar — ainda mais — da imprensa. Além da troca de comando, a empresa passou por uma reestruturação de governança nos últimos meses. Nesse processo, Rafael Ranzolin, que ocupou o cargo de vice-presidente da empresa no Brasil por seis anos, e Daniel Sarmento, da área comercial, deixaram a companhia.
Para os próximos anos, a empresa planeja avançar em outros tipos de biocombustíveis e cereais, como o sorgo, e em mais negócios no exterior. “Embora o etanol de milho seja o foco, estamos de olho em outras possibilidades. A produção de biocombustíveis avançada, como o bioquerosene (SAF) para a aviação, está sendo evidências à medida que a tecnologia e a demanda global se expandem”, diz Mariano, VP de vendas da Inpasa.
Em março, a empresa obteve certificações internacionais para produção SAF, item muito procurado pelas empresas aéreas, mas ainda com produção baixíssima. A SAF deverá responder por grande parte do aumento da demanda global de líquidos biocombustíveis nos próximos anos, e o Brasil está apontado como um possível grande fornecedor.
Para Danilo Severian, especialista do Observatório Nacional da Indústria, ligado à Confederação Nacional da Indústria (CNI) , o país tem vantagens para avançar na área. “Nem todos os países conseguirão produzir combustíveis limpos, e o Brasil pode se destacar por estar em uma posição muito vantajosa”, diz. O país tem grandes áreas disponíveis para plantações e ainda consegue produzir mais sem ampliar a área cultivada, como mostra o avanço da “safrinha”.
O avanço do etanol, em que a Inpasa é protagonista, é um exemplo ainda de outra transformação mais profunda e que traz ganhos ao Brasil: expandir a indústria agrícola, o que gera mais ganhos e ganhos do que mantém apenas a exportação de produtos in natura .
Um exemplo dessa disparidade vem do algodão. Em média, o quilo de algodão bruto é exportado a 83 centavos de dólar, de acordo com dados da CNI. Quando o produto é exportado em fios, o valor sobe para 3 dólares por quilo. No entanto, 98% do algodão exportado pelo Brasil é bruto, e menos rentável. Dados da CNI mostram que, em 2024, de cada 100 dólares exportados pela agro do Brasil, 55 foram de produtos agroindustriais. O valor é maior do que o registrado em 2023, quando os itens industriais representaram 50,7 dólares desse total, mas bem menor do que em 1997, quando esse índice atingia 74 de cada 100 dólares importados pelo setor agro. Em 1997, segundo dados da Embrapa, o Brasil exportou 2,4 bilhões de dólares em grãos de soja, em valores da época. Em 2024, esse montante foi de 42,9 bilhões de dólares.
“A desindustrialização no Brasil foi severa. Estamos nos especializando cada vez mais em produtos brutos em vez de agregar valor”, diz Severian. Para reverter esse caminho, o especialista aponta a necessidade de coordenação assertiva e de crédito bem direcionado e com boas taxas. “Temos expertise, mas estamos em um ciclo de juros muito elevados, o que prejudica a produção”, afirma.
O avanço da Inpasa é, ao mesmo tempo, motor e exemplo do avanço da transição energética e de como ela pode trazer ganhos. Marcos Fava, diretor da Harven Business School, uma escola voltada para o agronegócio, avalia que a nova instalação em Luís Eduardo Magalhães, por exemplo, “vai revolucionar o oeste da Bahia”. “Quando uma indústria de etanol de milho se instala, ela empodera aquela região”, afirma.
Além do desenvolvimento regional, a expansão dos combustíveis verdes ajuda a reduzir a poluição do planeta, uma meta que ainda tem um caminho longuíssimo pela frente. Casos como o da usina de Balsas e a trajetória da Inpasa mostram que há muitas recompensas ao seguir por essa estrada.
__________________________________________________
Por César H. S. Rezende e Rafael Balago
Publicado originalmente em: encurtador.com.br/booC8
