Tecnologia inspirada em instalações museográficas reproduz plantas em escala real e adiciona uma nova camada à experiência de compra
Comprar um apartamento na planta sempre exigiu uma dose de imaginação. O consumidor olha o desenho, percorre um decorado que nem sempre reproduz exatamente a unidade escolhida e tenta calcular, mentalmente, se a mesa cabe na sala ou qual será a sensação de estar naquele espaço.
A Habitare quer reduzir essa distância entre projeto e realidade com uma tecnologia que leva para o mercado imobiliário recursos mais associados a museus e exposições imersivas.
Batizada de cubOH!, a estrutura utiliza projeções audiovisuais em paredes e pisos para reproduzir apartamentos em escala real antes que o empreendimento seja construído. A ideia é permitir que o comprador caminhe pela planta, perceba proporções e entenda a relação entre os ambientes de uma forma que uma maquete ou uma imagem renderizada dificilmente consegue reproduzir.
A aposta sinaliza uma mudança interessante no setor: vender um imóvel que ainda não existe está deixando de ser apenas um exercício visual e passando a incorporar experiências sensoriais.
Da maquete à experiência
Durante décadas, o roteiro comercial do mercado imobiliário mudou pouco. Plantas baixas ganharam versões em 3D, maquetes ficaram mais sofisticadas e os tradicionais apartamentos decorados passaram a incorporar telas, vídeos e realidade virtual.
Agora, a próxima fronteira está em aproximar a apresentação do imóvel de uma experiência imersiva.
No espaço criado pela Habitare, projeções mapeadas ajudam a simular elementos como iluminação, distribuição dos cômodos e atmosfera do projeto. A referência, segundo a incorporadora, vem das instalações audiovisuais utilizadas em exposições e experiências museográficas.
A tecnologia busca atacar um problema antigo da venda de imóveis na planta: a dificuldade de transformar metros quadrados em percepção de espaço.
“O desafio é fazer o cliente entender como um prédio que ainda não existe vai funcionar na vida dele. Onde ele vai circular, como os ambientes se relacionam, o que ele vai enxergar da janela, como vai receber alguém”, afirma Roberto Coutinho, CEO e fundador da Habitare.
Quando 60 metros quadrados deixam de ser abstratos
A diferença pode parecer pequena, mas é relevante em uma compra de alto valor.
Saber que uma sala tem determinada metragem não significa necessariamente conseguir imaginar seu tamanho. Caminhar por uma representação em escala real permite testar visualmente distâncias, circulação e disposição dos espaços.
É justamente nesse ponto que a tecnologia pode ganhar relevância comercial. Quanto maior o valor da compra e mais distante estiver a entrega do empreendimento, maior tende a ser a necessidade de tornar o produto palpável para o consumidor.
A mudança também acompanha a valorização da experiência como parte da decisão de consumo. Em vez de limitar o contato com o empreendimento ao catálogo e ao discurso do corretor, incorporadoras passam a investir em ambientes capazes de aproximar o cliente do imóvel antes mesmo de as paredes existirem.
O decorado vai acabar? Não tão rápido
A experiência imersiva dificilmente representa o fim imediato do apartamento decorado. Materiais, acabamentos, textura dos móveis e outros elementos físicos ainda cumprem um papel importante na decisão de compra.
Mas ela pode mudar a função desses espaços.
Em vez de construir diferentes unidades decoradas para representar várias plantas de um mesmo empreendimento, por exemplo, sistemas de projeção podem permitir que um único ambiente reproduza diferentes configurações.
Para as incorporadoras, isso abre espaço para apresentações mais flexíveis. Para o consumidor, pode diminuir uma das maiores abstrações envolvidas na compra na planta: tentar imaginar como será viver em um lugar que, naquele momento, ainda existe apenas no papel.
“Não queremos tecnologia pela tecnologia. Queremos utilizá-la para tornar aquilo que projetamos mais compreensível, próximo e tangível”, diz Coutinho.
No mercado imobiliário, talvez esteja aí a mudança mais relevante. Depois de aprender a vender localização, metragem e acabamento, o setor começa a experimentar uma nova mercadoria: a sensação de morar no imóvel antes mesmo de ele existir.
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