Aquisição da Ice Fresh dá musculatura industrial para nova marca Super, enquanto empresa avança em personal care, amplia logística e aposta em influenciadores para ganhar escala no consumo diário
A Cimed começou 2026 com um movimento que reforça sua guinada para além do balcão das farmácias: a companhia anunciou nesta segunda-feira (2) a compra da Ice Fresh, fabricante de produtos de higiene bucal localizada em Bauru (SP). A aquisição faz parte do plano estratégico “Nova Era”, que tem como objetivo dobrar o tamanho da empresa e atingir R$ 10 bilhões em faturamento anual até 2030.
A fábrica adquirida será usada inicialmente para a produção da Super, nova marca de cuidados pessoais da companhia, focada em higiene oral — com itens como cremes dentais e enxaguantes bucais. O valor da transação não foi divulgado.
Segundo João Adibe Marques, presidente da Cimed, a empresa está em uma fase de transformação clara, puxada pela entrada em categorias de consumo recorrente.
“A Cimed sai do DNA de uma indústria farmacêutica para se tornar uma empresa também de consumo”, afirmou o executivo.
Hoje, o portfólio da companhia já reflete essa transição: 55% está concentrado em produtos “dentro do balcão” (medicamentos e farmacêuticos), enquanto 45% corresponde a itens “fora do balcão”, ligados ao consumo e ao dia a dia.
Fábrica verticalizada e produção para escalar nova fase

A Ice Fresh tem 7 mil m² de área total, com operação 100% verticalizada, incluindo produção própria de tubos, tampas e embalagens, o que reduz dependência de fornecedores e dá velocidade para ganhos de escala. Em capacidade máxima, a unidade pode produzir até 100 milhões de produtos por ano, operando em três turnos.
Além da mudança industrial, a compra também reposiciona a operação: a produção da linha de higiene bucal, antes concentrada em Pouso Alegre (MG), deve migrar para Bauru já a partir de fevereiro, segundo a companhia.
“Esse movimento reforça o momento de transformação da Cimed. Estamos ampliando nossa presença em categorias estratégicas, fortalecendo nossa estrutura industrial e criando as bases para um crescimento sustentável de longo prazo”, disse Adibe.
Personal care vira motor da ambição de dobrar faturamento
O crescimento acelerado da Cimed tem um “vilão do bem” bem definido: personal care. A empresa aposta que essas linhas vão ser o motor para alcançar a meta de R$ 10 bilhões até 2030 — e a higiene bucal está no centro desse desenho.
Segundo Adibe, a expectativa é que a categoria de higiene oral gere cerca de R$ 1 bilhão em sell-out já em 2026, consolidando a ofensiva da companhia em um mercado muito mais amplo que o tradicional farmacêutico.
“Hoje, o mercado farma que a gente disputa é um mercado de R$ 130 bilhões. Agora, entrando nessas novas categorias, esse mercado sai de R$ 130 bilhões para R$ 400 bilhões”, afirmou.
Com a criação da marca Super, a empresa mira ampliar sua presença no cotidiano do consumidor, com um mix que vai além de medicamentos.
“Antes, você via a Cimed dentro da tua casa quando estava doente. Agora vai estar no dia a dia com desodorante, escova de dente e shampoo. A Cimed passa a fazer parte do estilo de vida”, disse o executivo.
A Super é a segunda marca criada dentro da joint venture firmada entre a Cimed e a Globo para desenvolver marcas de consumo. O apresentador Luciano Huck também participa da sociedade.
Carmed expande: maquiagem entra no radar em 2026
Além da Super, o plano “Nova Era” também passa por fortalecer e expandir a Carmed, marca que virou fenômeno em redes sociais com seus hidratantes labiais e collabs com nomes como Fini, Ana Castela e Coca-Cola.
Agora, a estratégia é aumentar a presença da marca no território de beleza.
A companhia planeja uma entrada mais estruturada no segmento de maquiagem ainda em 2026, como parte de uma segunda fase de expansão da Carmed. A tese é aproveitar a “comunidade fiel” construída nos últimos anos e transformar engajamento em categoria recorrente no varejo.
De acordo com o CEO, a Carmed já atingiu 60% de market share no segmento infantil de oral care — com enxaguantes bucais e pastas de dente — em apenas um ano.
Logística: R$ 100 milhões em centros de distribuição
O crescimento acelerado também exigiu reforço de bastidores. A companhia investiu cerca de R$ 100 milhões em dois centros logísticos em Pouso Alegre (MG), que somam 45 mil m².
O primeiro já foi inaugurado em dezembro e o segundo deve ser finalizado em março. A ampliação ocorre após um ano considerado pesado nos custos logísticos da operação.
“Foi um toque de caixa”, disse Adibe, ao comentar o impacto da logística em 2025 e a decisão de acelerar investimentos na área.
Toguro entra como head de comunicação e Cimed aposta em storytelling digital

No front da comunicação, a Cimed também chamou atenção ao anunciar o influenciador Thiago “Toguro” como novo head de comunicação. A contratação gerou barulho no mercado — e faz parte do reposicionamento para uma comunicação mais rápida e conectada à cultura digital.
Segundo o presidente da companhia, a decisão está alinhada ao momento da empresa.
A própria chegada do influenciador já foi marcada por um discurso de aproximação com o público:
“Agora minha missão é levar a marca para toda a população, fazendo o certo e com muito pés no chão”, declarou Toguro em suas redes sociais.
Com forte presença no universo fitness e do entretenimento digital, Toguro soma cerca de 20 milhões de seguidores considerando TikTok, Instagram e YouTube. O influenciador ficou ainda mais conhecido pelo meme do “sabor energético”, relacionado ao lançamento de um drink pronto no mercado.
Embora a empresa não detalhe todas as atribuições do novo cargo, a movimentação reforça um caminho: usar influência e cultura digital para acelerar distribuição, presença de marca e conversão em vendas.
Antirressaca e novos produtos: apostas para 2026
Além da comunicação, a estratégia também passa por ampliar o portfólio com novos itens de consumo. Entre os projetos em desenvolvimento está um produto voltado ao segmento de antirressaca, associado ao universo em que Toguro já circula.
De acordo com o CEO, o produto ainda está em fase de testes e validações, mas a expectativa é de lançamento ainda em 2026. A empresa já possui um item do tipo no portfólio, mas vê dificuldade na forma como esse tipo de produto é comunicado ao consumidor.
“Já temos um produto antirressaca no portfólio, mas a comunicação sempre foi um desafio. Ninguém quer pensar em ressaca quando está se divertindo”, disse.
Nos lançamentos previstos para o ano, Adibe também adiantou a entrada da marca Super em novas linhas: shampoo e condicionador no próximo trimestre e, no segundo semestre, protetor solar.
“Caneta verde e amarela”: Ozempic nacional segue no pipeline
Mesmo com a prioridade no crescimento de consumo e personal care, a empresa mantém um projeto simbólico no radar: a tentativa de viabilizar uma alternativa nacional aos medicamentos para emagrecimento, no embalo da discussão sobre quebra de patentes.
Adibe afirmou que a chamada “Caneta Verde e Amarela” está no pipeline regulatório e faz parte do crescimento orgânico da companhia, junto com outros itens em análise na Anvisa.
“Elas fazem parte do nosso crescimento dentro de outras categorias”, afirmou.
Crescimento com contratação e escala
A expansão projetada também aparece na estrutura interna. Segundo Adibe, a companhia pretende ampliar o quadro de funcionários entre 10% e 15%, acompanhando a escala industrial, a logística e as novas frentes de operação.
“Todo mundo fala em crescimento, mas ninguém fala em contratação. Crescer para quê, se você não contrata gente?”, afirmou.
“Para sair de R$ 5 bi para R$ 10 bi, eu tenho que fabricar mais, dobrar o número de funcionários e lançar produto. É o básico.”
Mercado maior e concorrência pesada
A Cimed foi fundada em 1977 e hoje figura entre as maiores farmacêuticas do país, com mais de 6 mil funcionários e cerca de 600 produtos no catálogo. A companhia é forte em segmentos como antigripais, vitaminas e medicamentos isentos de prescrição (MIPs).
No mercado, disputa espaço com empresas como Hypera Pharma, Eurofarma, EMS (Grupo NC) e Sanofi Medley — e agora amplia sua ambição ao mirar também categorias de consumo massivo.
“Concorrência faz parte do setor. A nossa resposta sempre foi ganhar no mercado, com produto, preço justo e escala”, disse Adibe.
