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Água Doce mira o interior que enriqueceu — e quer um lugar à mesa

Lorena Scavone Giron
23 de abril de 2026
Com cidades em expansão e renda em alta, rede aposta em Mato Grosso para abrir 10 unidades até 2030

O Brasil que cresce longe dos holofotes das capitais começa a chamar atenção, e não só de investidores do agronegócio. Agora, é o setor de alimentação que mira esse movimento. A rede Água Doce decidiu apostar em Mato Grosso como um dos principais vetores de expansão até o fim da década, com planos de abrir 10 novos restaurantes no estado até 2030.

A estratégia não é aleatória. O estado, historicamente associado ao agro, vem se consolidando também como um polo de consumo. Em 2025, o segmento de food service movimentou mais de R$ 646 milhões na região, com crescimento de 22,7% em relação ao ano anterior, um ritmo que chama atenção em um setor altamente competitivo.

Mas o ponto mais interessante está na mudança de comportamento. Cidades como Cuiabá, Sinop e Sorriso já não vivem apenas de produção agrícola. Elas concentram renda, atraem fluxo corporativo e começam a demandar algo que, até pouco tempo, era mais associado a São Paulo ou Rio: experiências gastronômicas estruturadas, com ambiente, marca e proposta clara.

O interior premium

O avanço dessas redes revela uma tese cada vez mais evidente: o “interior premium” deixou de ser exceção. Com urbanização acelerada e aumento do poder de compra, municípios acima de 80 mil habitantes passaram a sustentar modelos de negócio que vão além do básico.

Não por acaso, o plano da Água Doce inclui tanto restaurantes completos, voltados para encontros familiares e consumo mais prolongado, quanto formatos mais enxutos, como operações Express e delivery. A lógica é simples: atender um consumidor que quer conveniência, mas também valoriza experiência.

Segundo Julio Bertolucci (imagem), diretor de franquias da rede, o movimento reflete uma aposta estruturada em mercados regionais. “Mato Grosso reúne características muito relevantes para o nosso modelo de negócio, com cidades em expansão, público com poder de compra e uma cultura que valoriza momentos de convivência”, afirma.

O efeito cadeia (e empregos)

A expansão também carrega impacto relevante no mercado de trabalho. A estimativa da rede é gerar cerca de 200 empregos diretos por unidade, o que, na prática, transforma cada restaurante em um pequeno polo econômico local.

E isso cria um ciclo interessante: mais renda gera mais consumo, que atrai mais negócios, e assim por diante. É o tipo de dinâmica que explica por que grandes franquias estão redesenhando seus mapas de crescimento.

Muito além do prato

Por trás dessa movimentação, há uma leitura estratégica mais ampla. O crescimento fora dos grandes centros não é só uma questão de oportunidade, é quase uma necessidade para redes que já saturaram mercados tradicionais.

Ao mirar regiões com forte identidade cultural e hábitos de consumo ligados à convivência, como é o caso do Centro-Oeste, marcas conseguem se posicionar não apenas como restaurantes, mas como espaços sociais.

Talvez esse seja o ponto mais simbólico dessa história: enquanto o agro segue exportando commodities para o mundo, uma nova economia local vai sendo construída, com pratos compartilhados, mesas cheias e cidades que começam a consumir como gente grande.

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