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A sucessão patrimonial virou jogo de estratégia

Luis G. Ferreira, Matheus Scremin Santos,
para MR
9 de abril de 2026
Para famílias empresárias, sucessão é definição de comando, proteção patrimonial, liquidez, governança e continuidade

A sucessão patrimonial deixou de ser um tema restrito à intimidade das famílias. Tornou-se uma questão estratégica para a governança empresarial, para a preservação de patrimônio e para o próprio futuro das instituições financeiras que atendem grandes fortunas.

O que está em curso não é apenas a transferência de ativos entre gerações. É uma mudança mais profunda, que envolve poder, comando, continuidade e confiança. Em muitos casos, a sucessão definirá não só quem receberá o patrimônio, mas também quem saberá preservá-lo, organizá-lo e conduzi-lo.

A escala do movimento ajuda a explicar sua relevância. A Capgemini estima que US$ 83,5 trilhões serão transferidos globalmente a herdeiros de alta renda até 2048. Ao mesmo tempo, a EY mostra que metade dos investidores se sente despreparada para essa transição, enquanto 81% dos herdeiros de alta renda pretendem trocar a instituição usada por seus pais em até dois anos após a herança.

Esse dado revela duas realidades. A primeira é que muitas famílias ainda tratam a sucessão como um evento futuro, e não como uma construção do presente. A segunda é que bancos, advisors, escritórios e family offices correm o risco de perder a próxima geração se continuarem a oferecer apenas soluções fragmentadas.

Para famílias empresárias, sucessão nunca foi apenas partilha. É definição de comando, proteção patrimonial, liquidez, governança e continuidade. Quando esses elementos não são coordenados, o custo se manifesta de várias formas: conflitos entre herdeiros, estruturas frágeis, perda de eficiência, desalinhamento societário e dificuldade para sustentar decisões de longo prazo.

O componente tributário tornou esse debate ainda mais sensível. A Emenda Constitucional nº 132/2023, ao tornar obrigatória a progressividade do ITCMD, reforçou a necessidade de planejamento em um ambiente regulatório mais complexo, sobretudo para famílias com ativos ou estruturas em mais de uma jurisdição. Adiar decisões, nesse contexto, deixou de ser prudência. Em muitos casos, passou a ser um risco.

Há ainda uma mudança importante no perfil do herdeiro. A nova geração tende a exigir mais transparência, mais personalização e maior integração entre a estratégia de investimento, a proteção jurídica e o planejamento sucessório. O vínculo histórico com a instituição, por si só, já não garante permanência.

A grande transferência de riqueza, portanto, não está apenas mudando a titularidade dos patrimônios. Está redefinindo a forma como famílias e instituições se relacionam. Na próxima década, o diferencial não estará apenas em administrar ativos, mas em coordenar transições. Porque, em patrimônio, tão importante quanto acumular riqueza é saber transferi-la com ordem, visão e continuidade.

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Luis G. Ferreira é CIO do EFG para as Américas

Matheus Scremin Santos é CEO e founder da Matheus Santos Advogados, da Scremin Global Advisors e da Scremin Financial Office

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