Presidente dos EUA lança órgão para Gaza com poder concentrado, propõe reconstrução do território e levanta temor de enfraquecimento das Nações Unidas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesta quinta-feira (22), em Davos, o chamado Conselho da Paz, iniciativa criada por seu governo para supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza e atuar em futuros conflitos internacionais. O anúncio foi feito durante o Fórum Econômico Mundial, na Suíça, e veio acompanhado de críticas diretas à Organização das Nações Unidas.
Segundo Trump, o novo órgão terá ampla autonomia e poderá “fazer praticamente tudo o que quisermos”, inclusive em coordenação com a ONU — embora diplomatas e analistas vejam o conselho como uma tentativa de criar uma estrutura paralela que esvazie o papel do organismo multilateral. O presidente afirmou ainda que nunca teve diálogo direto com a ONU, apesar de reconhecer seu “potencial tremendo”.
O Conselho da Paz nasce com foco inicial em Gaza, que Trump descreveu como um território a ser “desmilitarizado e lindamente reconstruído”. O estatuto prevê que o próprio presidente americano seja o dirigente vitalício do órgão, com poder de veto e controle sobre convites e exclusões. Países interessados em assentos permanentes poderão contribuir com US$ 1 bilhão, valor que será administrado pelo governo dos EUA.
Cerca de 30 líderes participaram da cerimônia de lançamento, entre eles o presidente da Argentina, Javier Milei, e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. O presidente brasileiro foi convidado, mas ainda não respondeu.
Durante o evento, o secretário de Estado Marco Rubio classificou o conselho como “um órgão não apenas da paz, mas da ação”. Já o plano de reconstrução — apelidado de “Nova Gaza” — foi apresentado por Jared Kushner, que exibiu mapas prevendo áreas residenciais, polos turísticos, zonas de negócios e infraestrutura portuária, com arranha-céus à beira-mar.
A proposta, no entanto, enfrenta resistência internacional. Governos europeus e especialistas em relações internacionais alertam para a concentração de poder em uma única liderança e para o risco de o conselho se tornar uma “ONU paralela”, subordinada aos interesses de Washington. Também há incerteza sobre a participação efetiva de representantes palestinos no novo órgão, o que levanta dúvidas sobre sua legitimidade e eficácia.
Apesar das críticas, a Casa Branca afirma que ao menos 25 países já aceitaram integrar o Conselho da Paz, enquanto outros avaliam o convite. O lançamento em Davos reforça a estratégia de Trump de reposicionar os EUA como protagonista direto na mediação de conflitos, mesmo que isso signifique tensionar as estruturas tradicionais da diplomacia internacional.
