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Quem foi Jesse Jackson, o precursor de Obama elogiado por Reagan

André Vargas
17 de fevereiro de 2026
Pastor batista que tentou a presidência dos EUA duas vezes morre aos 84 anos. Seu legado foi meio século de não violência no combate ao racismo e busca por oportunidades aos afro-americanos

Ele foi aquele que tentou e abriu portas quando os Estados Unidos estavam fechados sobre si, imersos na crise de confiança gerada pela derrota no Vietnã, a espionagem de Watergate, a renúncia de Nixon e o fracasso prematuro da integração social e dos direitos civis preconizados por Kennedy e Lyndon Johnson. Coroando o pacote, os assassinatos de Martin Luther King Jr., Malcom X e a radicalização dos Panteras Negras. Neste cenário surgiu o pastor batista Jesse Jackson, figura onipresente no Partido Democrata dos anos 1970 ao início dos anos 2000. Ele morreu aos 84 anos, informou sua família em comunicado nesta terça-feira (17). Ele foi diagnosticado com Mal de Parkinson em 2017.

Líder dos direitos civis, colaborador de Luther King, orador eloquente e otimista, abriu espaço no Partido Democrata empurrando os conservadores contrariados com a integração até alcançar relevância nacional e depois, de forma inédita, propôs que afro-americanos também se aproximassem do Partido Republicano. Em 1984 lançou sua pré-candidatura democrata para enfrentar Ronald Reagan na reeleição. Foi batido pelo insosso Walter Mondale, que acabou atropelado nas por Reagan. Um de seus méritos foi anteceder Barack Obama em 24 anos. Em 88, foi derrotado na prévias pelo ainda mais apático Michael Dukakis. Não que tivesse reais chances de vitória. Mas sua presença significava que algo deveria mudar para parte da população.

No cenário doméstico, Jackson foi um líder ativo e integrador desde a década de 1965, quando participou dos protestos não violentos em Selma e Montgomery em favor do exercício do direito ao voto no Sul dos EUA, contribuindo para a aprovação do Voting Rights Act, uma das grandes conquistas civis para os afro-americanos. No ano seguinte foi um dos líderes da Operação Breadbasket, que preconizava boicote em massa a empresas de brancos que não contratassem pretos, assim como o consumo em maior escala possível de bens e serviços em empresas de pretos para desenvolver a economia das comunidades. Parece óbvio hoje, mas mudou vidas naquele tempo.

Com uma agenda discretamente integrativa, defendia que a questão racial também era também um questão social que envolvia brancos e outras minorias. “Quando transformarmos o problema racial em uma luta de classes entre os que têm e os que não têm, então teremos um novo jogo”, disse ele. Por estas declarações, passou a ser visto por parte da classe política como um potencial radical, o que nunca foi. Em quase oposição, foi criticado por atuar demais com a classe média afro-americana e ter um ideal de unidade racial visto como inatingível.

No cenário internacional, foi mais diplomático que Departamento de Estado em mais de uma ocasião, atuando como emissário informal. Em 1984 ajudou a libertar um piloto americano abatido pelos sírios sobre o Líbano, arrancando rasgados elogios de Reagan. Em 1991, às vésperas da primeira Guerra do Golfo, obteve a libertação de cidadãos estrangeiros que seriam usados como escudos humanos por Saddam Hussein. Em 1999, sem apoio do governo Bill Clinton (com quem manteve relações tensas por muito tempo), manteve um encontro com o líder sérvio Slobodan Milosevic, negociando a libertação de três soldados americanos capturados na fronteira da Macedônia, durante missão de paz das Nações Unidas.

Aos poucos distanciado da política partidária, se manteve relevante em todos os movimentos e protestos que acabaram cristalizados no Black Lives Matter, contra a violência racial policial nos EUA. Também defendeu no voto de negros para negros no Reino Unido e foi contra a segunda invasão do Iraque.

Em um país marcado pelo racismo, a atuação de Jackson junto aos afro-americanos pode ser condensada pelo trecho de seu discurso na campanha das prévias de 1988: “Onde quer que você esteja esta noite, você consegue. Mantenha a cabeça erguida, estufe o peito. Você consegue. Às vezes escurece, mas a manhã chega. Não se renda. O sofrimento gera caráter, o caráter gera fé. No final, a fé não vai decepcionar”. Ele sabia o que estava falando.

Nascido em 1941, em Greenville, na Carolina do Sul, filho de uma relação de um homem casado de 33 anos com um jovem de 16, viveu a segregação e a falta de oportunidades das Leis Jim Crow. Ao sair do ensino médio, em 1959, trocou um contrato para jogar beisebol por uma vaga na Universidade de Illinois para jogar futebol. Barreiras racistas veladas o fizeram trocar de curso. Formado em sociologia em 1964, estudou teologia e, em 1966, antes da conclusão do mestrado, mergulhou no movimento dos direitos civis.

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