Espaço dedicado ao mobiliário moderno brasileiro recupera imóvel de 1908 nos Campos Elíseos e se soma a instituições que vêm redesenhando a vocação da região
Durante mais de oito décadas, um prédio de tijolos nos Campos Elíseos acompanhou a transformação de São Paulo pela janela. Construído em 1908, foi fábrica de vassouras, cestarias e objetos de fibra, viu trens passarem diariamente pelos fundos do terreno e, depois de encerrar as atividades industriais, atravessou anos de abandono.
Agora, o endereço volta a participar da vida do bairro com outra matéria-prima. Madeira, couro, desenho e memória ocupam os cerca de 2 mil metros quadrados da antiga fábrica Cerello, transformada na Galeria Teo Cleveland, novo espaço dedicado ao mobiliário moderno brasileiro.
A abertura amplia um movimento que vem mudando lentamente a paisagem cultural do centro paulistano. Localizada nos Campos Elíseos, a galeria passa a dividir a região com instituições como Pinacoteca, Sala São Paulo e Museu da Língua Portuguesa, acrescentando design e conservação de mobiliário a um território já marcado pela presença das artes e da cultura.
A história do projeto começou de maneira menos ambiciosa. Teo Vilela Gomes, que com a irmã Lis Vilela Gomes comanda a Galeria Teo, procurava apenas um lugar onde pudesse armazenar parte de um acervo que hoje reúne dezenas de milhares de móveis e objetos.
Ao conhecer a antiga fábrica, os planos mudaram.
“Era para ser uma coisa, mas tudo foi caminhando para que se tornasse algo muito maior”, contou Teo à ELLE Brasil. “Não podia deixar isso ficar no privado. Tanta história, design e arquitetura precisa ser compartilhada com a população.”


O prédio também faz parte da coleção
Em vez de apagar o passado industrial para criar uma galeria de aparência impecável, o projeto seguiu no sentido contrário. O escritório Tacoa Arquitetos recuperou elementos do edifício original e manteve visíveis marcas acumuladas ao longo de mais de um século.
Tijolos de barro reapareceram nas paredes e colunas, grandes esquadrias de ferro foram recuperadas e a fachada voltou ao tom ocre característico do período. Em alguns pontos, o pé-direito ultrapassa sete metros.





“Foi sorte não ter sido tudo demolido porque essa construção não é protegida como patrimônio histórico”, afirmou o arquiteto Fernando Falcon, do Tacoa, à ELLE Brasil. “Fizemos tudo para preservar o lado histórico, mas conectando ao presente, ao universo do mobiliário moderno, que é o novo morador.”
A recuperação ganhou contornos quase arqueológicos. A historiadora Fernanda Carvalho, ligada ao acervo do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, pesquisou documentos, máquinas e objetos encontrados na antiga fábrica e procurou descendentes da família italiana responsável pela Cerello.

“Parecia que tudo tinha sido congelado 25 anos atrás, quando a fábrica fechou”, disse Fernanda.
Cerca de 30 máquinas industriais foram preservadas. Algumas convivem diretamente com os móveis expostos; outras foram incorporadas ao jardim.
Do móvel perfeito ao móvel vivido
A Teo Cleveland também propõe uma relação diferente com o mobiliário de coleção.
Parte das peças aparece exatamente como foi encontrada, antes de passar pelo restauro. Couro rasgado, madeira desgastada, pequenas perdas e marcas de uso deixam de ser apenas defeitos e passam a funcionar como pistas sobre a trajetória de cada objeto.
“É um acervo em movimento”, resume Lis Vilela Gomes.
Esse processo pode ser acompanhado dentro do próprio espaço. Oficinas especializadas em marcenaria, estofamento, pintura, acabamento, elétrica e metal ocupam parte do edifício, aproximando o visitante do trabalho normalmente invisível por trás da recuperação de um móvel histórico.

O acervo percorre algumas das décadas mais importantes do design moderno brasileiro e reúne nomes como Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin, Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi, Jean Gillon, Giuseppe Scapinelli, Geraldo de Barros e Michel Arnoult.
O subsolo concentra uma seleção dedicada a Sergio Rodrigues, enquanto outros ambientes recuperam a produção de designers, ateliês e fabricantes que ajudaram a construir uma linguagem brasileira para o mobiliário ao longo do século 20.
A professora e pesquisadora Ethel Leon participa da organização histórica da coleção, produzindo verbetes e uma linha do tempo para contextualizar as peças.
“São peças originais de artistas, ateliês e fábricas que marcaram a história do design nacional”, afirmou Ethel à ELLE Brasil.




Um jardim onde antes havia indústria
Do lado de fora, o passado fabril encontra outra camada do projeto.
A permacultora e ecocozinheira Bia Goll criou um jardim com cerca de 170 espécies entre flores, ervas e folhagens, privilegiando vegetações relacionadas ao bioma original da região.

“Valorizar o bioma original é uma tendência inspiradora. Criamos um minirrefúgio na metrópole”, disse Bia à ELLE Brasil.

A proposta ajuda a suavizar a escala industrial do conjunto sem esconder sua origem. Dos grandes vitrôs ainda é possível observar os trens metropolitanos seguindo em direção às estações Luz e Júlio Prestes, lembrando que a galeria continua profundamente conectada ao lugar onde nasceu.

Cultura como parte da transformação do centro

A escolha dos Campos Elíseos não passa despercebida. O bairro viveu diferentes ciclos ao longo da história paulistana, de endereço da elite no início do século passado a uma das regiões mais associadas à vulnerabilidade social e à antiga concentração da Cracolândia.
A abertura de um espaço dedicado a design, pesquisa e restauro não resolve, evidentemente, os problemas urbanos e sociais que atravessam a região. Mas acrescenta uma nova peça a um eixo cultural que vem se fortalecendo ao redor da Luz, de Júlio Prestes e dos Campos Elíseos.
Nesse contexto, recuperar um edifício existente ganha um significado que vai além da arquitetura. Em vez de demolir e começar de novo, o projeto preserva as diferentes vidas do endereço e devolve ao bairro uma construção que permaneceu fechada durante anos.
Talvez seja justamente essa sobreposição que torne a Teo Cleveland interessante. Uma antiga fábrica não tenta parecer uma galeria recém-construída. Máquinas permanecem ao lado de cadeiras modernistas, cicatrizes convivem com peças de coleção e os trens continuam passando pela janela.
No centro de uma cidade acostumada a substituir rapidamente suas próprias camadas, o novo endereço escolheu fazer o contrário: guardar algumas delas.
Serviço
Galeria Teo Cleveland
Endereço: Alameda Cleveland, 508, Campos Elíseos, São Paulo
Abertura: 17 de agosto
Visitação: sextas-feiras, mediante agendamento
Com informações da ELLE Brasil e de materiais institucionais da Galeria Teo.
