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A ceramista que começou aos 70 anos e deixou um legado em Minas

Lorena Scavone Giron
11 de agosto de 2026
Criado pela neta Nao Yuasa, espaço no Vale da Serra da Moeda preserva a memória da artista e reúne projetos de arte e comunidade

Toshiko Ishii chegou do Japão ao Brasil em 1931. Décadas depois, já aos 70 anos e vivendo no Vale da Serra da Moeda, em Minas Gerais, encontrou cerâmicas antigas nas terras da fazenda da família e decidiu aprender o ofício por conta própria.

Foi assim que começou uma trajetória tardia, mas marcante. Toshiko se dedicou ao Bizen, técnica tradicional japonesa de cerâmica queimada a lenha e sem esmalte, na qual as cores e marcas surgem da própria ação do fogo. Seu trabalho acabou influenciando uma geração de ceramistas brasileiras.

Agora, sua história ganha continuidade em um espaço que leva seu nome. Nos dias 22 e 23 de agosto, será apresentado ao público o Instituto Toshiko Ishii, criado por sua neta, a designer Nao Yuasa.

Sem fins lucrativos, o instituto reúne projetos ligados à cerâmica, ao bordado e ao esporte para jovens da região. A inauguração acontece no Moinho do Vale da Serra da Moeda, a cerca de uma hora de Belo Horizonte, com entrada gratuita.

Cerâmica de Toshiko Ishii, produzida a partir da técnica japonesa Bizen | Foto: Arquivo pessoal



Uma memória que começa no cotidiano
Toshiko Ishii durante o trabalho com cerâmica | Foto: Arquivo pessoal

Nao cresceu passando as férias com a avó no Vale. Mais do que uma técnica ou um ofício, o que ficou dessa convivência foi uma maneira de olhar para as coisas simples.

“O que me marcou na convivência com a minha avó é que o dia a dia dela, de dona de casa, era muito prazeroso. Ela costurava bem, cozinhava bem e tudo o que fazia, fazia do jeito dela”, conta.

Para Nao, não havia uma divisão clara entre trabalho, criação e vida doméstica. “Podia estar fazendo o almoço ou fazendo cerâmica, era tudo misturado, tudo divertido.”

Essa atenção aos gestos cotidianos também atravessou sua própria trajetória. “Nem sempre precisa acontecer algo especial. Basta prestar atenção no que você está fazendo naquele momento. É a preciosidade dos pequenos atos, do dia a dia”, diz.

Nao chegou a estudar agronomia com a intenção de retornar à fazenda, mas acabou seguindo pela arquitetura, pelo paisagismo e pelo design. Hoje, trabalha entre arquitetura, joalheria e criação de objetos para a casa, sempre mantendo a proximidade com o fazer manual.

Obra em cerâmica de Toshiko Ishii | Foto: Arquivo pessoal



A casa reaberta depois de dez anos
Nao Yuasa na casa da família, no Vale da Serra da Moeda | Foto: Bernardo Silva

O retorno ao Vale também passa por um endereço afetivo. A antiga casa da família, que permaneceu fechada durante dez anos, foi restaurada e será transformada na sede do Instituto Toshiko Ishii.

“Reabrir esta casa sempre foi um sonho da nossa família, e é o que estamos realizando agora”, afirma Nao.

Parte dos projetos que passam a integrar oficialmente o instituto já existia antes de sua criação. A ideia, segundo ela, é preservar uma relação antiga com a comunidade local.

“Estamos oficializando o Instituto, mas como atividade ele já existe há anos. A ideia é manter essa relação de troca com a comunidade, um crescimento dos dois lados, uma continuação do tempo em que a minha avó estava aqui.”

Mais do que preservar a obra de Toshiko Ishii, o novo espaço pretende manter vivo o modo como ela entendia criação, trabalho e cotidiano: como partes de uma mesma coisa.

Obra em cerâmica de Toshiko Ishii | Foto: Arquivo pessoal



Serviço

Instituto Toshiko Ishii
Data: 22 e 23 de agosto
Horários: sábado, das 11h às 19h; domingo, das 11h às 16h
Local: Moinho do Vale da Serra da Moeda, Minas Gerais
Entrada: gratuita

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