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PATROCINADORES

O risco ignorado do selo verde subprime

A busca por soluções ESG captura a atenção dos investidores por ser associada às boas práticas empresariais e à luta pela minimização dos efeitos do aquecimento global. Só que os incentivos que o mercado de capitais oferece ainda desconsideram o risco do greenwashing, o exagero nas credenciais verdes. A falta de auditoria ambiental (o E de “environmental” do ESG) pode criar condições para fraudes de difícil comprovação. Afinal, uma bem-intencionada seguradora ou uma empresa de logística urbana não têm como facilmente checar se o trecho de Cerrado, Mata Atlântica ou Floresta Amazônica que pagam para zerar suas emissões com créditos de carbono não foi vendido duas ou três vezes por aí – ou não está para virar pasto depois da última temporada de queimadas.

Ninguém é contra as boas práticas, que deveriam ser mantidas com ou sem investimentos. Só que na corrida pelo selo verde – ou social ou de governança – faltam clareza e critérios para direcionar as decisões das empresas. Aí entram as perguntas de bilhões de dólares. Qual o tamanho ou a escala produtiva de uma companhia para que seja considerada ambientalmente amigável? Qual o limite da aplicação de um selo verde para quem atua na economia marrom, como uma petrolífera? Quem está capturando mais ou menos carbono? Além dos rendimentos, como os fundos podem garantir seus papeis? Como medir impactos positivos? E o compliance disso tudo? São dúvidas que mal batem nas reuniões de conselho.

Há uma discussão entre economistas americanos sobre a não desvinculação da sigla, ou seja, as empresas precisariam vender o todo e não apenas uma letra para se caracterizarem como ESG, não adiantando ter governança e contribuir para o aquecimento global.

Caixa preta

Diante dessas incertezas, em 26 de julho reguladores globais deram um primeiro passo para desbloquear a chamada “caixa preta” das classificações ESG. A Organização Internacional de Comissões de Valores Mobiliários (Iosco, na sigla em inglês), que agrupa reguladores de mercado dos Estados Unidos, Europa e na Ásia, sugere uma supervisão formal do setor, que canaliza trilhões de dólares. De acordo com a entidade, os avaliadores e os provedores de dados ESG são amplamente desregulados, carecem de transparência em seus métodos, oferecem cobertura desigual e abrigam potenciais conflitos de interesse.

Há quem reclame, mas estão frescos na memória os estragos da crise financeira global de 2008, com a condução frouxa e oportunista das agências de classificação de crédito (CRAs, na sigla em inglês). Após o colapso do subprime que arrastou o banco americano Lehman Brothers e levou outros menores de roldão, a regulação do mercado de investimentos americanos se tornou mais rigorosa. Agora, com o afluxo de investimentos que o ESG capta, o temor é que uma bolha verde surja. Por isso, abrir a caixa e criar algum nível de regulamentação seria uma forma de dar mais solidez e segurança a quem aporta recursos e aposta nestas práticas, recomenda a Iosco. O mercado e o meio ambiente vão lucrar.

Movimento caro e regulado, mas com grandes possibilidades

  • Despesas: se propor a ser ESG é contrair despesas, sobretudo administrativas. Para garantir o cumprimento das metas, as companhias precisam contratar mais auditores fiscais, criar departamentos de compliance e desenvolver mecanismos de comunicação com investidores;
  • Inflexibilidade: empresas que presam por mais liberdade e querem o selo ESG precisarão se adequar à agenda global;
  • Oportunidades: todavia, com mais auditoria pode ser mais fácil desenvolver e apresentar soluções inovadoras que não tenham ares milagrosos;
  • Afinidades: há um generalismo. Se novas regras entrarem em vigor, as empresas podem mais facilmente adotar soluções e investimentos ambientais onde produzam efeitos diretos, suavizando seus impactos até em termos institucionais. Empresas de logística podem adotar combustíveis alternativos; frigoríficos e indústrias do agro, conservariam florestas; fabricantes de bebidas se comprometeriam em preservar mananciais e grandes reservatórios.

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