Painel no Fin4She Summit 2026 discutiu liderança feminina, independência financeira e o papel das mulheres na construção de um futuro mais diverso e conectado ao impacto social
A construção do futuro passa, cada vez mais, pelas decisões tomadas por mulheres. Essa foi a principal mensagem do painel “Quando Mulheres Decidem, o Futuro Muda”, realizado durante o Fin4She Summit 2026.
Mediado por Carolina Cavenaghi, CEO da Fin4She, o debate reuniu Viviane Elias, sócia e head da XP Investimentos, Monique Hara, sócia da Stoxos, e Fernanda Camargo, sócia fundadora da Wright Capital, para discutir liderança, legado, dinheiro, consumo e o papel das mulheres em um momento de transformação na gestão de patrimônio global.
Rótulos não definem mulheres
Viviane Elias abriu sua participação falando sobre trajetória, pertencimento e os limites impostos às mulheres desde cedo. Mulher negra e criada na periferia da zona leste de São Paulo, ela relembrou que uma das decisões mais importantes de sua vida foi não aceitar que expectativas externas definissem seu destino.
“Eu acho que foi o dia em que eu decidi que rótulos não poderiam me definir. Sou uma mulher preta, periférica, com muito orgulho, nasci e fui criada na Zona Leste de São Paulo. Quando eu tomei essa decisão, muito pela educação da minha mãe e do meu pai, entendi que rótulos não poderiam me definir”, afirmou.
A executiva contou que essa percepção nasceu ainda na escola, quando ouviu de uma professora uma previsão limitada sobre seu futuro. Para Viviane, a lembrança se transformou em impulso para construir uma trajetória própria.
“Hoje, olhando para a minha jornada, aos 46 anos, posso provocar que rótulos não definem nenhuma das mulheres que estão aqui hoje”, disse.
Olhar para dentro antes de falar para fora
A conversa avançou para o papel das escolhas estratégicas e da coragem de recalcular rotas. Monique Hara compartilhou os desafios de assumir a segunda geração da Shoulder, empresa fundada por seus pais há mais de quatro décadas.
Segundo ela, um dos momentos mais importantes da marca foi decidir olhar para dentro antes de buscar validação externa.
“Eu me lembro de um momento em que olhei para a Shoulder e comecei a ver que a gente estava olhando muito para fora e perdendo essa visão do backstage. Resolvi que a gente precisava olhar para dentro. Foi uma decisão bastante corajosa, porque era o auge das blogueiras e, praticamente, para existir, você tinha que estar nessas mídias”, afirmou.
Naquele momento, a empresa optou por interromper a busca por exposição até reencontrar sua essência.
“Eu cheguei e falei: enquanto a gente não souber quem a gente é, ninguém mais vai falar sobre nós. Foi um momento muito importante da nossa trajetória. A gente começou a olhar de novo para esse backstage com muita seriedade, entender nossa essência, entender quem a gente era, para depois voltar a falar para fora”, contou.
Princípios acima do dinheiro
No mercado financeiro, Fernanda Camargo relatou uma virada marcada por princípios. Depois de anos em tesourarias de grandes bancos, em um ambiente predominantemente masculino, ela contou que enfrentou uma decisão difícil ao discordar dos rumos de uma negociação corporativa.
“Parecia que tudo o que eu tinha aprendido, que era preservar a transparência, os valores e realmente cuidar do patrimônio pensando no cliente, estava indo para o caminho contrário. A decisão era muito difícil, porque tinha um valor muito grande a receber e, na época, eu não tinha uma economia. Mas cheguei à conclusão de que eu ia abrir mão e sair com zero”, disse.
Fernanda afirmou que foi questionada por abrir mão de dinheiro em nome de princípios, mas considera a escolha uma das mais importantes de sua vida. Anos depois, a experiência serviu de base para a criação da Wright Capital, gestora voltada a investimentos de impacto e sustentabilidade.
“Quando me disseram que nunca tinham visto alguém abrir mão de tanto dinheiro, eu pensei: vocês nunca conheceram alguém que preza tanto pelos princípios. Eu vou ficar com os princípios e vou ter que abrir mão. Olhando para trás, foi uma das melhores decisões que fiz na vida”, afirmou.
Mulheres, dinheiro e poder
O painel também trouxe para o centro da conversa a relação entre mulheres e dinheiro. Carolina Cavenaghi lembrou que o mundo vive um movimento de transferência de riqueza para mulheres e novas gerações, o que deve alterar não apenas o mercado financeiro, mas também consumo, investimentos e relações de poder.
“É impossível falar sobre mulheres decidindo sem falar sobre dinheiro. A gente vive em um mundo extremamente capitalista, em que quem manda é quem tem dinheiro, quem tem poder é quem tem dinheiro. E nós, mulheres, temos uma história recente com o dinheiro, recente, porém prestes a ser transformada”, afirmou Carolina.
Para Monique, essa mudança já aparece na forma como marcas se relacionam com mulheres reais. Ela destacou que a Shoulder nasceu acompanhando a evolução feminina, especialmente a entrada das mulheres no mercado de trabalho.
“A Shoulder sempre olhou para a evolução feminina. Lá atrás, a marca nasceu fazendo roupa para a mulher trabalhar. Minha mãe sempre teve esse olhar de perceber quando o comportamento feminino estava mudando e quando essa mulher precisava se vestir de outro jeito para ocupar novos lugares”, disse.
A base também precisa decidir
A discussão sobre dinheiro abriu espaço para uma reflexão sobre acesso ao capital. Viviane Elias defendeu que falar sobre riqueza feminina exige considerar recortes de raça, território, idade, deficiência e outras desigualdades que ainda definem quem chega aos espaços de poder.
“A gente precisa ouvir mais quem é o beneficiário. Tem que ter recorte de raça, de vivência e de sobrevivência para quem recebe essa transferência de capital. Existem mulheres invisibilizadas, que o tempo inteiro precisam provar que são mulheres: mulheres 50+, mulheres trans, mulheres negras, periféricas, mulheres com deficiência e tantos outros marcadores de diversidade”, afirmou.
Para ela, o futuro não pode ser construído apenas a partir dos holofotes. É preciso reconhecer as mulheres que sustentam as trajetórias profissionais e pessoais nos bastidores.
“Não existe futuro sem base. A gente tem tanto backstage perto da gente que esquece do nosso dia a dia e ilumina a fumaça. Às vezes, quem está trazendo resultado são as pessoas que estão no cotidiano, na base, no bastidor”, disse.
Liderança feminina como transformação coletiva
Ao final, as participantes defenderam que liderança feminina não se resume a ocupar espaços de decisão, mas a transformar esses espaços em ações concretas.
Em comum, as falas apontaram para um futuro em que dinheiro, consumo, carreira e legado sejam pensados de forma mais integrada, diversa e consciente.
Como resumiu Fernanda Camargo, a escolha por uma trajetória alinhada aos próprios valores muda também a forma de viver o trabalho.
“Fazer o que você ama e ter certeza de que está no caminho certo traz uma leveza. Isso não tem preço.”
