Empresas mostram força no exterior e disciplina operacional, mas o Brasil ainda pesa no balanço da indústria
Os balanços do terceiro trimestre de 2025 de três gigantes brasileiras, Vale, Gerdau e Marcopolo, ajudam a desenhar um retrato do momento da indústria nacional. Os números mostram negócios sólidos, com resultados em alta, mas sustentados, sobretudo, por desempenho internacional, eficiência de custos e diversificação.
Em comum, as três companhias revelam uma realidade dupla: força fora do país e cautela em casa. O mercado doméstico continua pressionado por juros altos, crédito restrito e concorrência de importados, enquanto o cenário global oferece oportunidades que exigem fôlego e disciplina.
Vale: minério firme, metais de transição em alta
A mineradora registrou receita líquida de US$ 10,4 bilhões, um avanço de 9% em relação ao mesmo período de 2024. O ebitda pró-forma alcançou US$ 4,4 bilhões de dólares, crescimento robusto de 28% na base anual, impulsionado por maiores volumes vendidos, redução de custos e preços mais favoráveis do minério de ferro e do cobre.
O lucro líquido atribuível aos acionistas foi de US$ 2,7 bilhões , alta de 78%. O destaque foi o segmento de metais para transição energética, com salto de mais de 170% no ebitda, reflexo da operação mais eficiente e do aumento dos preços de cobre e níquel.
Segundo o analista João Daronco, da Suno Research, o desempenho superou as expectativas e reforça a percepção de uma Vale ajustada ao novo ciclo das commodities. As ações também refletiram essa confiança, com valorização de cerca de 30% desde junho, passando de R$ 50 para R$ 64.
Gerdau: América do Norte segura o aço
A Gerdau reportou ebitda ajustado de US$ 2,7 bilhões e margem de 15,2%, com lucro líquido de US$ 1,1 bilhão. A receita líquida foi de 18 bilhões, sustentada pelo desempenho da operação na América do Norte, que teve o melhor resultado dos últimos dois anos.
O CEO Gustavo Werneck atribuiu o bom trimestre à resiliência do mercado norte-americano e destacou que o modelo de negócios diversificado geograficamente permite atravessar diferentes cenários macroeconômicos com flexibilidade e segurança.
No Brasil, o ambiente segue desafiador. A penetração de aço importado chegou a 25% nos primeiros nove meses de 2025, pressionando margens e volumes locais.
A companhia investiu R$ 1,7 bilhão de reais em CAPEX no trimestre, sendo 59% voltados à expansão e atualização tecnológica, e anunciou a liquidação antecipada de um bond de US$ 498 milhões. O movimento reduzirá a dívida bruta para cerca de R$ 14 bilhões até o fim do ano. O CFO Rafael Japur afirmou que a decisão reforça a saúde financeira e a disciplina de capital da empresa.
Dividendos também foram confirmados: R$ 0,28 por ação na Gerdau S.A. e R$ 0,19 por ação na Metalúrgica Gerdau S.A., com pagamento previsto para dezembro.
Marcopolo: a força do exterior e o impulso elétrico
A fabricante de carrocerias Marcopolo encerrou o trimestre com receita líquida de R$ 2,5 bilhões, alta de 8,2% na comparação anual. O lucro líquido foi de R$ 329,6 milhões, com margem de 13,2%, e o ebitda chegou a R$ 419,8 milhões, com margem de 16,8%.
O motor do crescimento veio das operações internacionais, que avançaram 26,2% em produção, enquanto o mercado brasileiro recuou 5,1%. A empresa reforçou sua liderança nacional, com 48,7% de market share em carrocerias, e ampliou as exportações de modelos rodoviários e urbanos de maior valor agregado.
Entre os destaques do trimestre estão as 64 carrocerias elétricas entregues no Brasil e a expansão do programa federal Caminho da Escola, que somou 631 unidades produzidas.
O CFO Pablo Motta afirmou que o equilíbrio entre as operações domésticas e externas assegura resiliência mesmo diante de um cenário local adverso. Para os próximos trimestres, a companhia prevê manutenção do bom ritmo de exportações para Chile, Argentina e Peru, além da homologação de novos modelos na Europa. A empresa também aposta em propulsões alternativas e descarbonização, temas que destacará na COP30, em Belém (PA).
Padrões que se repetem
A leitura dos três balanços evidencia uma mensagem comum. O Brasil ainda é um terreno difícil para a indústria, e a internacionalização deixou de ser uma vantagem para se tornar uma necessidade.
Enquanto Vale e Gerdau encontram sustentação em mercados externos e ganhos de produtividade, a Marcopolo transforma exportação e desenvolvimento tecnológico em escudo contra a desaceleração doméstica.
Nos três casos, eficiência e disciplina financeira aparecem como antídotos à volatilidade econômica e às incertezas de juros, câmbio e demanda global. O investimento em inovação, energia limpa e digitalização também mostra que o setor está buscando um novo patamar de competitividade.
