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O que Argentina e EUA podem nos ensinar sobre inflação

Aluizio Falcão Filho
14 de novembro de 2024

Dois exemplos que vêm de fora podem ensinar muito ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Um deles é a eleição de Donald Trump. A vitória inquestionável do republicano ganhou bastante impulso por conta da inflação americana, que tornou o custo de vida muito alto nos Estados Unidos. Outra situação que precisa ser analisada de perto é a da Argentina. O presidente Javier Milei conseguiu baixar o índice inflacionário para 2,7% em outubro – é o resultado mais baixo desde novembro de 2021, quando o país ainda se recuperava dos efeitos recessivos da pandemia de Covid-19.

Vamos deixar de lado, por um instante, a antipatia que figuras como Trump e Milei podem causar. No caso do americano, ele percebeu rapidamente que precisaria mostrar a escalada dos preços como algo que estava impedindo o povo de realizar o típico sonho americano – uma casa própria com um carro na garagem. Tal estratégia pode ser replicada facilmente no Brasil, especialmente se o governo continuar a postergar medidas de contenção dos gastos públicos.

Já o cenário argentino mostra que houve coragem na adoção de medidas que restringiram ao máximo as despesas estatais. Jogou-se o país em uma recessão, é verdade, mas o combate à inflação implica mesmo uma rigidez de princípios para enxugar a liquidez e fortalecer a moeda. Além disso, Milei desafiou as lideranças peronistas ao cortar determinados benefícios concedidos a trabalhadores e a estudantes. Não houve medo de ser impopular – apenas a determinação de fazer a coisa certa, que era reduzir o déficit público e ajustar demanda e oferta.

No Brasil, vivemos uma expectativa de que a espiral inflacionária possa voltar. Em outubro, o índice acumulado em doze meses extrapolou o teto de 4,5% — e a expectativa dos investidores é a de que isso possa piorar sem medidas para reduzir o déficit público. Essa expectativa pode jogar a cotação do dólar para cima. E dólar alto significa inflação em crescimento.

Por isso, a demora em definir uma estratégia clara para o corte de gastos públicos é perniciosa, gerando insegurança e insatisfação. E quando os investidores se sentem inseguros e insatisfeitos, o mercado de câmbio acaba sendo atingido e provocando uma dança indesejável de cotações.

Apesar de aguardado com ansiedade, o conjunto de medidas para reduzir as despesas do governo não deve trazer nenhuma iniciativa bombástica, como desvincular determinadas despesas à correção do salário-mínimo. Fazem parte deste grupo uma parcela significativa dos benefícios pagos pela Previdência, o abono salarial, o seguro-desemprego e o Benefício de Prestação Continuada (conhecido pela sigla BPC).

Trata-se de uma despesa anual que ultrapassa a casa de R$ 1 trilhão – e, de 1997 a 2023, estes desembolsos passaram de 5,4% para 9,8% do Produto Interno Bruto. Isso significa 50% do orçamento federal. Alguns técnicos do Ministério da Fazenda querem mexer neste vespeiro, mas enfrentam a resistência do presidente Lula e de toda a bancada do PT.

Neste pormenor (o de mexer em tabus trabalhistas), o exemplo da Argentina é educativo. Cortaram-se benefícios que pareciam intocáveis, criando uma certa revolta. Mas, com a inflação domada (pelo menos, por enquanto), os opositores de Milei se acalmaram.

No Brasil, o governo precisa entender de uma vez por todas que a inflação é um assunto importante e que faz a diferença nas eleições majoritárias.  E produzir mudanças estruturais, não cosméticas, para reduzir suas despesas. Só assim poderá acalmar investidores, banqueiros e empresários.

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