Incapazes de agir em tempo real, para se protegerem burocratas decidem com antecedência estabelecer juros que são ou muito altos ou muito baixos
Nota do editor:
Na semana passada, o Banco Central do Brasil decidiu pela manutenção da taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, em 15%. Hoje, o Bacen publica a ata do Copom, onde justifica a decisão de maneira mais detalhada. Independentemente da justificativa usada para a decisão, o fato é que a lógica das decisões de política monetária é a mesma, de maneira geral, em todos os países.
Uma característica em comum nas reuniões dos diferentes comitês de política monetária mundo afora é a crença de que os diretores do banco central têm capacidade de identificar uma taxa de juros “neutra” na economia, isto é, uma taxa de juros que não vai acelerar nem reduzir o ritmo da atividade econômica. Mais grave é a própria intervenção dos bancos centrais em um dos preços mais importantes da economia – a taxa de juros.
O artigo a seguir questiona a arrogância dos banqueiros centrais tanto em supostamente identificarem a taxa de juros neutra quanto em definir a taxa de juros básica da economia. Como qualquer política de controle de preços, os efeitos são deletérios sobre a sociedade.
As taxas de juros deveriam ser determinadas pelo mercado, de acordo com suas próprias necessidades, para operar de modo eficiente e distribuir de forma eficaz os recursos financeiros da sociedade, alocando capital entre diferentes agentes conforme os resultados de seus investimentos. Por exemplo, um empreendedor que obtém uma TIR (Taxa Interna de Retorno) de 10% estaria disposto a pagar 5% de juros para expandir seu negócio, atraindo aqueles investidores que não conseguem obter 5% por seu capital em outras oportunidades.
E, claro, é a própria sociedade — o mercado — que, no fim das contas, determina onde investir. Por exemplo, se mais sapatos são necessários, a demanda aumenta, provocando uma elevação nos preços que permite uma TIR maior para os fabricantes. Esse mecanismo natural virtuoso faz com que as necessidades mais básicas e, portanto, as mais demandadas — como alimentação, saúde etc. — sejam as primeiras a serem atendidas da forma mais eficiente possível. Eficiência aqui é entendida como a melhor oferta com a melhor relação qualidade/preço.
Mas hoje, as taxas de juros são basicamente determinadas por agências estatais — muitas vezes por razões puramente políticas — como os bancos centrais, responsáveis pelas suas respectivas moedas, que são monopolísticas pelo simples fato de necessitarem desse monopólio para se financiar e sobreviver.
De fato, se os estados competissem no mercado como qualquer empresa privada, eles acabariam desaparecendo, indo à falência, dada a sua ineficiência intrínseca em todas as suas atividades. Essa ineficiência decorre do fato de que eles não obtêm ganhos ao servir melhor o público, oferecendo produtos e serviços de melhor qualidade, nem correm o risco de quebrar em razão de um desempenho ruim. Em vez disso, eles obtêm coercitivamente (por meio da taxação) todos os recursos que desejam. Ironicamente, quando um imposto é reduzido, isso é chamado de “custo fiscal”.
De todas as taxas do mundo, a mais importante é, sem dúvida, aquela estabelecida pelo Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos, dada a hegemonia do dólar no cenário internacional como consequência de sua posição como principal potência econômica.
Atualmente, o chamado nível “neutro” — um parâmetro teórico que não estimularia nem prejudicaria a atividade econômica — para as taxas de juros estaria em torno de 4%, aproximadamente em linha com o patamar definido pelo Fed em sua última reunião, segundo muitos analistas.
Por sua vez, autoridades do Fed estimaram que o nível “neutro” é de 3% e projetaram uma queda para esse patamar até 2028. O banco central reduziu sua taxa básica de juros [conhecida como federal funds rate] em 25 pontos-base, para uma faixa alvo entre 4,00% e 4,25% no início de setembro, realizando seu primeiro corte desde dezembro.
Durante essa última reunião do FOMC (o Comitê Federal de Mercado Aberto do Fed), a decisão não foi unânime. O recém-nomeado diretor Stephen Miran registrou o único voto dissidente, argumentando a favor de um corte maior, de 50 pontos-base. Seu chamado “ponto” (dot) na projeção de taxas do Fed foi o mais agressivo, estimando juros tão baixos quanto 2,875% até o final de 2025, muito abaixo do consenso de seus colegas.
As projeções atualizadas divulgadas após a reunião mostraram que a maioria dos formuladores de política monetária espera mais dois cortes de juros em 2025, destacando a mudança de orientação do Fed em direção a apoiar um mercado de trabalho em esfriamento, enquanto mantém atenção sobre a inflação persistente (mais precisamente, o aumento do Índice de Preços ao Consumidor – CPI).
Em sua coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que a política monetária do banco central continua restritiva apesar do corte recente, referindo-se a uma postura monetária que busca conter a atividade econômica e reduzir a inflação.
Em outras palavras, esses burocratas — incapazes de atuar em tempo real — decidem com antecedência estabelecer taxas que são ou muito altas ou muito baixas, como uma forma de se proteger, causando ou uma recessão ou um aumento acentuado na inflação de preços. Aqueles que negam que o mercado seja necessariamente um “mecanismo” que opera naturalmente em tempo real não conseguem explicar o fato de que os preços nada mais são do que transmissores de informação.
Em resumo, as projeções do Fed mostraram que a maioria dos formuladores de política monetária assume que a economia crescerá 1,6% neste ano, acima da previsão de junho. A taxa de desemprego no final do ano está projetada para 4,5% e a inflação subjacente (o aumento do CPI, para ser preciso) para 3,1%. E agora, espera-se que os aumentos de preços não desacelerem para a meta de 2% do Fed até 2028.
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Por Alejandro A. Tagliavini
