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Nos 150 anos da ‘Revolução Marginalista’, um resumo de suas cruciais constatações

A contribuição de Menger fundou a Escola Austríaca e é o pilar da economia contemporânea

Este ano de 2021 representa o sesquicentenário da chamada “revolução marginalista” na ciência econômica, que suplantou a Escola Clássica e deu origem à escola neoclássica e à Escola Austríaca de Economia.

A efeméride se refere à articulação independente e quase simultânea —por Carl Menger, William Stanley Jevons e Léon Walras— dos princípios da “utilidade marginal decrescente” e da “teoria subjetiva do valor”, pilares centrais da atual economia mainstream (a ciência econômica mais ensinada nas universidades ao redor do mundo).

No entanto, mesmo estes conceitos básicos, porém cruciais, seguem sendo mal compreendidos.

Utilidade marginal decrescente 

Durante milênios, pensadores como Platão, Copérnico e Adam Smith fracassaram em explicar o paradoxo do valor: por que uma garrafa d’água vale menos no mercado do que um quilate de diamante, que é menos importante e útil que a água? 

Os pensadores estavam aprisionados à convicção de que o valor de um bem deveria guardar relação umbilical com sua utilidade.

Menger demonstrou que a satisfação propiciada por uma unidade de um bem é avaliada pelo indivíduo, subjetivamente, segundo a utilidade daquela unidade adicional (a unidade “marginal”) adquirida.

Pense em água e em diamantes e veja o preço de cada. Nós não valoramos a categoria “diamantes” em relação à categoria “água”; não fazemos uma comparação direta entre ambos os produtos, que são distintos não apenas em sua composição, como também em suas finalidades. 

O que realmente fazemos é valorar uma unidade a mais de diamante em relação a uma unidade a mais de água. Este é o conceito de margem. 

Uma unidade a mais de água, tudo o mais constante, não faz diferença nenhuma para você. Já uma unidade a mais de diamante, um bem extremamente mais escasso que a água, faz muita diferença para você. A água é um bem superabundante. Diamantes não. Eis a margem.

Não está em jogo passar a vida toda sem água ou sem diamante, caso em que a água valeria todo o dinheiro do mundo. Na prática do dia a dia, o indivíduo normalmente já tem acesso a água. Portanto, a utilidade de uma garrafa adicional é pequena, ao passo que a utilidade de um diamante pode lhe parecer alta, em particular se não possuir nenhum.

Este conceito de marginalidade é muito importante e muito utilizado na economia. Termos como “custo marginal”, “utilidade marginal”, “produção marginal” são extremamente utilizado.

Uma confusão ortodoxa

Um grande erro corriqueiramente feito pelo mainstream está em confundir “utilidade marginal decrescente” com “saciedade”.

É comum vermos economias convencionais pensando em utilidade marginal em termos de “saciedade” ou “satisfação” (aquele surrado exemplo de o primeiro copo d’água no deserto). 

Em termos técnicos, o mainstrem diz que utilidade marginal é a “quantidade de necessidades que são satisfeitas” quando se incrementa em uma unidade o consumo de determinado produto. Ou seja, o mainstream inventa uma soma que não existe e não faz sentido.

Mas não é assim que funciona. A utilidade marginal não está ligado à saciação, mas sim à valoração de itens homogêneos.

Eis alguns exemplos que ajudam a entender a correta definição de utilidade marginal.

Se um indivíduo possui 5 carros idênticos, os quais satisfazem completamente todos os seus desejos, então o valor de cada carro será determinado pela importância que esse indivíduo atribui ao quinto carro que ele possui (no sentido de que há um ranking de preferências pelos carros, e supondo que o quinto carro é o menos importante para ele). 

Assim, se ele por exemplo perder esse quinto carro, o valor de um carro aumentaria de acordo com a satisfação que ele agora tira do quarto carro no seu ranking de importância.

Caso ele perdesse quatro carros, ficando com apenas um, o valor desse único carro restante aumentaria enormemente, e o indivíduo agora passaria a valorizá-lo de acordo com a importância que esse único carro tem para ele na satisfação de todos os seus afazeres diários.

Por outro lado, caso ele ganhasse em um sorteio 100 carros iguais — um número que excede em muito a hipótese inicial de que 5 carros o satisfazem completamente —, então a utilidade marginal e o valor de cada carro agora seria de zero, pois a satisfação de todos os seus desejos automobilísticos não dependeria da posse de um centésimo carro — aliás, não dependeria nem mesmo de um sexto carro.

Portanto, o valor que um indivíduo atribui a uma unidade de uma determinada quantidade de bens é igual à importância que ele dá à satisfação da necessidade menos importante propiciada por essa unidade.

Se você está com fome e tem centenas de cédulas de 10 reais, perder uma cédula não lhe fará diferença alguma. Por outro lado, se você, estando com a mesma fome de antes, porém tendo agora apenas uma cédula de 10 reais, perder essa cédula, isso pode significar a diferença entre comer e morrer de fome. 

Logo, sua utilidade marginal para a cédula de 5 reais é nula no primeiro caso e, no segundo caso, possui o valor de sua vida.

Este é o verdadeiro conceito de utilidade marginal.

Resumindo: uma unidade adicional de um bem (oriundo de uma oferta de bens homogêneos) terá para você um valor que equivale à importância que você dá à satisfação da necessidade menos importante propiciada por este bem adicional.

Um copo d’água a mais para quem já está sem sede nenhuma não tem valor algum. Já um diamante a mais para um milionário ainda terá muito valor.

Por outro lado, imagine esta mesma situação para um indivíduo completamente perdido em um deserto inóspito. A valoração será totalmente inversa.

Deve-se sempre pensar em termos de valor subjetivo.

Quando você entende isso, percebe que não faz sentido nenhum, por exemplo, a ideia de valor-trabalho. E perceberá que a única explicação para o valor das coisas é a subjetividade dos indivíduos.

As consequências

A adoção do subjetivismo e do individualismo metodológicos descritos acima inverteu a seta causal defendida pela Escola Clássica. 

Na visão do clássico David Ricardo, a causalidade no valor dos bens se dava no mesmo sentido que a produção. Recursos naturais (por exemplo minério de ferro e carbono) são usados para produzir bens intermediários (por exemplo, aço e alumínio), que, por sua vez, são transformados em um bem final (por exemplo, smartphone) que atende às necessidades do consumidor.

Para Ricardo, o valor dos recursos naturais determinava o valor dos bens intermediários, que, por sua vez, determinava o valor do bem final que o consumidor comprava. Derivou daí a errada teoria ricardiana de que o valor é atrelado ao custo de produção, a qual Karl Marx adotou para sua teoria do valor-trabalho — um erro que mudou o mundo para sempre.

Ambas as teorias foram refutadas pela revolução marginalista. Em 1871, em seu livro Grundsätze der Volkswirtschaftslehre (“Princípios de Economia Política“), Menger demonstrou que a seta causal era a oposta: a partida do processo é a determinação (inter)subjetiva do valor do bem final pelos consumidores.

Em outras palavras, o valor não tem a ver com o custo, com o trabalho envolvido, ou com as propriedades inerentes do bem, mas é determinado por sua utilidade marginal para o consumidor. 

A partir daí, os preços dos bens intermediários e dos recursos naturais são derivados (ou “imputados”), sucessivamente ao longo da cadeia, de trás para a frente, a partir da avaliação do bem final pelo consumidor.

Esta constatação de que os preços dos bens de consumo dependem da valoração dos consumidores, e não dos custos de produção, possui consequências cruciais para coisas como empreendedorismopolíticas de controle de preçosteoria da exploração do trabalho e mais-valia.

No final, caminhos distintos

No nascimento, em 1871, a Escola Austríaca e a escola neoclássica pareciam dividir a mesma forma de ver o mundo. Com o tempo, ficou aparente que o ramo neoclássico considera a economia uma ciência exata e a Escola Austríaca julga o ser humano, imperfeito e temperamental, como ponto primeiro e central de todo o processo econômico.

São visões irreconciliáveis, refletidas em diferentes métodos para conduzir a ciência. Boa parte das contribuições da Escola Austríaca foi incorporada ao mainstream. Mas a diferença de visões persiste e não foi totalmente resolvida.

Apesar de a Escola Austríaca ser minoritária comparada aos neoclássicos, é a escola econômica mais antiga e a que mais cresce no mundo desde a falência da Curva de Phillips, nos anos 1970, processo acelerado a partir da crise financeira de 2008.

Os conceitos nucleares da economia austríaca contemporânea (ação humana, meios e fins, valor subjetivo, análise marginal, individualismo metodológico e estrutura temporal da produção), junto com a teoria austríaca do valor e dos preços, que formam a alma da análise austríaca — tudo isso advém da obra pioneira de Menger. 

Depois de 150 anos da “Revolução Marginalista”, Menger vive, e seu método para as ciências sociais ainda procura uma refutação.

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Helio Beltrão

Publicado anteriormente em: cutt.ly/PvoUsph

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