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Kinea coloca juros e ajuste fiscal no centro da tese para destravar valorização das ações brasileiras

Lucas Andrade
17 de setembro de 2026
Desconto da bolsa está nos juros, não nas empresas, diz gestora, que prepara carteira para qualquer cenário eleitoral

A bolsa brasileira parece barata, mas a principal questão para o investidor não está nos múltiplos das empresas e sim no elevado patamar dos juros de longo prazo. Essa é a principal conclusão da Kinea Investimentos no relatório batizado de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”.

Segundo a gestora, o Ibovespa negocia perto de 8 vezes os lucros projetados, abaixo da média histórica de aproximadamente 10 vezes. Ainda assim, o desconto não seria necessariamente um sinal de oportunidade. A avaliação da Kinea é que o mercado brasileiro convive com juros reais próximos de 8% ao ano, o que reduz o valor presente das empresas e torna a renda fixa um concorrente muito forte para os investimentos em ações.

O relatório aponta que o problema vai além do valuation. Nos últimos anos, o crescimento dos lucros das empresas brasileiras ficou atrás de outros mercados relevantes, com desempenho especialmente fraco nos setores voltados à economia doméstica. De acordo com a Kinea, o avanço dos resultados se concentrou principalmente nas companhias de commodities, enquanto empresas mais dependentes do consumo e do crédito sofreram os efeitos prolongados dos juros elevados.

Para a gestora, as eleições de 2026 representam um ponto de inflexão para os mercados porque podem definir a trajetória fiscal do país e, consequentemente, o comportamento dos juros de longo prazo. Em um cenário de maior responsabilidade fiscal, a expectativa é de queda das taxas reais, expansão dos múltiplos das ações, melhora das condições de crédito e aceleração dos lucros corporativos. Já em um cenário de deterioração fiscal, os juros permaneceriam pressionados, limitando o potencial de valorização da bolsa.

Mesmo diante da incerteza eleitoral, a recomendação da Kinea é que os investidores não aguardem a definição do pleito para se posicionar. A casa defende uma estratégia baseada em duas frentes complementares. A primeira reúne empresas consideradas mais resilientes, com geração de caixa previsível, receitas mais estáveis e menor dependência do ciclo econômico. Nesse grupo estão utilities, empresas ligadas à infraestrutura e construtoras voltadas ao programa Minha Casa, Minha Vida.

A segunda frente é composta por setores que podem se beneficiar de forma mais intensa de uma eventual queda dos juros. Bancos, varejo e empresas industriais aparecem entre os principais nomes dessa cesta, por serem áreas que enfrentaram forte pressão ao longo do ciclo de aperto monetário. A Embraer surge como uma exceção dentro desse grupo por ter sua tese de crescimento mais ligada à demanda global do que ao cenário econômico doméstico.

Na visão da gestora, a principal pergunta para o mercado nos próximos anos não é se a bolsa está barata, mas se o Brasil conseguirá construir um ambiente que permita uma redução estrutural dos juros reais. O comportamento da economia, do crédito e dos lucros das empresas dependerá diretamente dessa resposta.

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