Todos os exemplos de hiperinflação de preços envolveram aumentos comparáveis na oferta monetária. No entanto, existem casos de grandes expansões de moeda que ainda não resultaram em aumentos equivalentes
Hoje em dia, quando a mídia ou autoridades governamentais falam em “inflação”, elas querem dizer “o aumento dos preços ao consumidor”. No entanto, originalmente o termo se referia a um aumento na quantidade de dinheiro (incluindo crédito bancário). Veja como Ludwig von Mises, em um discurso de 1951, aborda essa mudança semântica e suas implicações:
“Atualmente, existe uma confusão semântica muito repreensível, e até perigosa, que torna extremamente difícil para o leigo compreender a verdadeira situação. Inflação, como esse termo sempre foi usado em todo lugar, e especialmente neste país [Estados Unidos], significa o aumento da quantidade de dinheiro e de notas bancárias em circulação, bem como da quantidade de depósitos bancários sujeitos a saque por cheque. Mas hoje em dia as pessoas usam o termo “inflação” para se referir ao fenômeno que é uma consequência inevitável da inflação: ou seja, a tendência de todos os preços e salários subirem. O resultado dessa confusão deplorável é que não resta nenhum termo para significar a causa dessa alta de preços e salários. Já não existe mais nenhuma palavra disponível para designar o fenômeno que, até agora, era chamado de inflação. Daí decorre que ninguém mais se preocupa com a inflação no sentido tradicional do termo. E, como não se pode falar sobre algo que não tem nome, não se pode combatê-lo. Aqueles que afirmam estar lutando contra a inflação estão, na verdade, apenas combatendo o que é a consequência inevitável da inflação: a alta dos preços. Seus esforços estão fadados ao fracasso porque não atacam a raiz do mal”[i].
Justamente para evitar confundir os leitores modernos, ao mesmo tempo em que mantemos a capacidade de diagnosticar causa e efeito, neste capítulo usamos os termos mais específicos “inflação monetária” e “inflação de preços”.
Episódios históricos famosos de hiperinflação
Milton Friedman é frequentemente citado por dizer: “A inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário”. Para dar mais contexto, essa citação continua: “[inflação de preços] é e só pode ser produzida por um aumento mais rápido na quantidade de dinheiro do que na produção”[ii]. Embora economistas debatam a precisão da famosa afirmação de Friedman, o registro histórico mostra que episódios de rápida inflação de preços (quase) sempre andam de mãos dadas com uma rápida inflação monetária[iii]. Em outras palavras, quando há uma verdadeira hiperinflação, a impressora do governo está sempre envolvida. Nesta seção, cobrimos três exemplos históricos famosos.
A Guerra Civil Americana
A Guerra Civil dos Estados Unidos (ou Guerra entre os Estados, como alguns preferem chamá-la) testemunhou uma inflação em larga escala tanto na economia da União (Norte) quanto na dos Confederados (Sul), mas ela foi particularmente acentuada na Confederação. Segundo uma estimativa, cerca de um terço da receita do governo confederado veio diretamente da impressora de dinheiro, enquanto apenas 11 por cento foi arrecadado por meio de impostos (com o restante coberto pela emissão de títulos de dívida). Como resultado, os preços nos estados confederados aumentaram rapidamente: do início de 1861 ao início de 1862, os preços ao consumidor dobraram, e em meados de 1863 já haviam aumentado 13 vezes em relação ao início da guerra. Com as derrotas militares em 1864 e 1865 minando a confiança na moeda confederada, seu valor acabou colapsando, com os preços acumulando uma alta de cerca de 9.000% desde o início do conflito, levando os sulistas a recorrerem a outras moedas ou até mesmo ao escambo. No Norte, a situação foi bem menos grave: os preços ao consumidor subiram “apenas” cerca de 75% entre 1861 e 1865[iv].
A República de Weimar
Um dos exemplos mais famosos de hiperinflação foi a experiência da Alemanha entre 1921 e 1923. Devido às suas enormes dívidas (incluindo as pesadas reparações de guerra impostas pelos Aliados, conforme determinado pelo Tratado de Versalhes) após a Primeira Guerra Mundial, o governo alemão recorreu à impressora de dinheiro para pagar suas contas. No entanto, como as dívidas de guerra eram denominadas em “marcos de ouro”, isso resultou em um ciclo vicioso: a cada rodada de inflação monetária, o marco de papel alemão se desvalorizava ainda mais em relação ao ouro (e às moedas estrangeiras), levando os funcionários do governo alemão a imprimir notas com denominações cada vez maiores na tentativa, em vão, de se manter à frente da desvalorização[v]. Durante os dois anos de hiperinflação, o número total de marcos em circulação entre o público aumentou em mais de 7 bilhões de vezes[vi]. Segundo Milton Friedman, a quantidade de dinheiro nas mãos do público aumentou “à taxa média de mais de 300 por cento ao mês durante mais de um ano, e os preços acompanharam o mesmo ritmo”[vii].
No pior mês isolado da hiperinflação alemã, outubro de 1923, os preços ao consumidor (segundo uma estimativa) subiram 29.500 por cento, ou quase 21 por cento ao dia[viii]. A inflação era tão severa que trabalhadores entregavam seus salários imediatamente às esposas, que corriam ao mercado para tentar trocar o papel-moeda em rápida desvalorização por bens “reais” que melhor preservassem seu valor de mercado. Foi essa hiperinflação da República de Weimar que nos deu a imagem icônica de trabalhadores sendo pagos com carrinhos de mão cheios de dinheiro, embora esse detalhe específico possa ser apócrifo. De todo modo, é certamente verdade que o cotidiano mudou radicalmente, por exemplo, clientes de restaurantes tentavam pagar a conta logo ao chegar, em vez de ao final da refeição, pois os preços podiam subir durante o próprio almoço[ix].
Zimbábue
Um caso mais recente (e severo) de hiperinflação ocorreu no Zimbábue, entre 2007 e 2009. No pior mês, novembro de 2008, os preços aumentaram mais de 79 bilhões por cento, ou 98 por cento ao dia. Como em outras hiperinflações, no Zimbábue também era evidente a conexão entre a inflação monetária e a inflação de preços:

Assim como no episódio alemão, no Zimbábue as autoridades continuaram aumentando as denominações das cédulas. É por isso que professores de economia ao redor do mundo conseguem (a baixo custo) adquirir grandes notas do Zimbábue no eBay, para mostrar a seus alunos os perigos da hiperinflação:

A Equação da Troca: MV = PQ
É comum que os economistas tratem a relação entre o dinheiro e os preços por meio da equação da troca, atribuída a Irving Fisher, que atualmente[x] costuma ser escrita da seguinte forma:
MV = PQ
onde M representa a quantidade de dinheiro na economia, V é a “velocidade de circulação”, ou seja, o número médio de vezes que uma unidade monetária “muda de mãos” durante o período em questão[xi], P é o “nível médio de preços”, e Q é a quantidade total de produção real gerada no período.
O lado esquerdo da equação expressa o total de dinheiro (dólares, no caso dos Estados Unidos) que é gasto durante o período. Por exemplo, se M é de 3 trilhões de dólares e uma cédula é usada, em média, quatro vezes por ano em transações, então o total de gastos anuais em bens e serviços seria de 12 trilhões de dólares. (Vale notar que a ponderação é importante ao calcular V: quando uma nota de cem dólares é usada em uma transação, ela contribui cem vezes mais para V do que uma nota de um dólar).
Ao mesmo tempo, o lado direito da equação representa o total de dólares recebidos ao longo do ano. Por exemplo, se o “preço médio” dos bens e serviços (P) for de 2 dólares por unidade, e o total da produção real (Q) durante o ano for de 6 trilhões de unidades de bens e serviços, então o valor total recebido com a venda desses bens e serviços será de 12 trilhões de dólares. De qualquer forma que façamos o cálculo, o resultado deve ser o mesmo, porque o total de dólares gasto durante o ano precisa ser igual ao total de dólares recebido. Uma forma comum de descrever a equação é dizer que os gastos nominais (lado esquerdo) são iguais à renda nominal (lado direito), sendo esta última expressa como o “nível de preços” (P) multiplicado pelo “PIB real” (Q).
Tecnicamente, a equação da troca é uma tautologia ou uma identidade; dadas as definições das quatro variáveis, ela é necessariamente verdadeira. Na prática, no entanto, ela é frequentemente usada para ilustrar a chamada teoria quantitativa da moeda, que, como o próprio nome sugere, é uma teoria que pode estar errada. Existem diferentes formulações da teoria quantitativa da moeda, mas uma versão simples afirma que mudanças na quantidade de moeda caminham proporcionalmente com mudanças no nível de preços. Para ilustrar essa afirmação usando a equação da troca, poderíamos dizer: “Se M dobrar, enquanto V e Q permanecerem constantes, então P também deve dobrar”.
O que há de errado com MV = PQ?
Economistas da tradição austríaca têm criticado a equação da troca[xii]. Em primeiro lugar, ela busca explicar fenômenos econômicos de maneira mecanicista, como se um engenheiro estivesse redigindo uma equação para descrever o fluxo de água em um cano.
Em contraste, os austríacos geralmente seguem a abordagem de Mises, utilizando as preferências subjetivas de um indivíduo para explicar sua demanda por manter um determinado saldo em dinheiro. Em qualquer momento, não existe algo como “dinheiro em circulação”, como a equação da troca nos leva a acreditar. Na realidade, cada unidade monetária está sempre mantida no saldo de caixa de um indivíduo ou organização, e os austríacos normalmente adotam essa perspectiva ao abordar os problemas da inflação monetária e da inflação de preços. Esse método “micro” pode então ser ampliado para se chegar à demanda de mercado por manter dinheiro, que interage com a oferta total para explicar o poder de compra da moeda. Nesse aspecto, a abordagem austríaca para explicar o “preço” do dinheiro é a mesma teoria do valor subjetivo usada para explicar o preço de maçãs.
À luz do método austríaco, as variáveis da equação da troca são pouco úteis, ou até mesmo sem sentido. Nenhum indivíduo toma decisões com base na “velocidade média de circulação” (V) do dinheiro. A noção de um nível geral de preços (ou índice), P, também é questionável, pois leva à falsa ideia de que mudanças na quantidade de moeda afetam todos os preços de forma uniforme. No entanto, na realidade, quando novo dinheiro entra na economia, ele não é “neutro”, mas faz com que alguns preços subam mais rapidamente do que outros, transferindo, de certo modo, riqueza do restante da sociedade para as mãos dos primeiros a receber esse novo dinheiro. O impacto desse processo desigual de mudanças nos preços é chamado de efeito Cantillon[xiii].
Deixando de lado os efeitos Cantillon, não há razão para que a inflação monetária tenha, necessariamente, um impacto proporcional até mesmo sobre o índice médio de preços. Como Mises observou, uma vez que uma hiperinflação está em curso, as injeções de novo dinheiro podem levar a aumentos mais do que proporcionais no “nível de preços” (se é que tal conceito faz sentido), já que a população tenta se livrar do dinheiro o mais rápido possível, trocando-o por outros bens[xiv]. Por exemplo, uma vez iniciada uma hiperinflação, se o governo dobra a quantidade de moeda, essa ação pode resultar em mais do que o dobro no preço típico de um bem de consumo.
Por outro lado, como as economias desenvolvidas vivenciaram após a crise financeira de 2008, às vezes grandes injeções de nova base monetária não correspondem a aumentos proporcionais nos índices de preços ao consumidor. (Abordaremos esse tema em mais detalhes no capítulo 13.) Mesmo que restrinjamos nossa análise ao dinheiro nas mãos do público (utilizando o agregado M1 em vez da base monetária [M0]), ainda assim não há uma conexão automática entre o volume de moeda e os preços ao consumidor.
Para reforçar: não importa o que aconteça, o resultado sempre poderá ser conciliado com a equação da troca, porque ela é uma identidade, e não uma teoria passível de falseamento. Se M (a quantidade de moeda) dobra, enquanto os preços e a produção real permanecem relativamente constantes, a “explicação” é que V (a velocidade da moeda) caiu repentinamente pela metade. Em um cenário como esse, a objeção à equação da troca não é que ela esteja errada, mas sim que ela pode induzir o observador ao erro, fazendo-o acreditar que existe uma relação simples entre inflação monetária e inflação de preços.
Conclusão
Embora o termo “inflação” hoje em dia se refira à alta dos preços ao consumidor, historicamente ele se referia ao aumento da quantidade de moeda. Existe uma forte conexão entre inflação monetária e inflação de preços. Especificamente, todos os exemplos de hiperinflação de preços envolveram aumentos comparáveis na oferta monetária. No entanto, existem casos de grandes expansões na quantidade de moeda que ainda não resultaram em aumentos equivalentes nos preços ao consumidor. A equação da troca, MV = PQ, é uma identidade e, portanto, deve ser verdadeira. No entanto, ela induz a uma visão mecanicista da economia, em vez de explicar os preços com base nas decisões individuais de manter saldos de caixa de determinado tamanho.
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Nota da edição:
Este artigo é a tradução do nono capítulo do livro do economista Robert P. Murphy, Understanding Money Mechanics [“Entendendo a mecânica do dinheiro”, em tradução livre]. Nas próximas semanas, vamos publicar seções traduzidas do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre teoria monetária produzido por Bob Murphy.
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Este capítulo explica a conexão entre a quantidade de dinheiro e o nível dos preços expressos nessa moeda. Assim, o capítulo trata do fenômeno da “inflação”, mas, como veremos, o próprio significado dessa palavra mudou ao longo do século XX. (Para maior clareza, vamos distinguir os dois conceitos usando os termos mais específicos “inflação monetária” e “inflação de preços”). Faremos um resumo de alguns episódios famosos de hiperinflação ao longo da história, mostrando o desastre que ocorre quando os governos recorrem de forma excessiva à impressora de dinheiro.
Por fim, destacaremos a crítica austríaca à chamada equação da troca, atualmente escrita como MV = PQ. Embora a equação seja uma tautologia, esse modelo incentiva uma visão mecanicista do dinheiro e dos preços, em vez do uso das ferramentas da teoria subjetiva do valor. Embora seja importante reconhecer que uma inflação de preços massiva é sempre consequência de uma inflação monetária massiva, não existe uma relação estável entre as duas; não é verdade que, por exemplo, um aumento de 50% na quantidade de dinheiro necessariamente leve a um aumento de 50% nos preços.
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Por Robert P. Murphy
Publicado originalmente em: https://encurtador.com.br/OQSxi
